Um estranho em sua cama

14/04/2015 13:51
No silêncio, sua mente vai começando a engrenar um pensamento ainda difuso, meio desconexo. É um pensamento guardado numa caixinha de música, daquelas em que a bailarina realiza sempre a mesma dança. Ela gira, gira e gira. Você sente uma presença morna ao seu lado, na cama, sua cama. Você sabe quem é. Não sabe? Não,  completamente. Mas você o conhece, com certeza! Também não? Não profundamente. Você acomoda seu corpo de lado, procura não se movimentar muito para não perturbar o descanso daquele que partilha da mesma cama com você. Busca, mesmo na penumbra, reconhecer o rosto. Seus olhos traçam a linha da testa, descem pelo nariz, observam a boca mover-se numa conversa muda dentro de um sonho que você nunca vai conhecer. Sua respiração fica suspensa. O rosto é conhecido. Você poderia dizer que o sabe de cor. Mas quando você fecha os olhos para juntar suas lembranças ao desenho do rosto, as coisas não se encaixam. A história, a lembrança, a expectativa, a realidade, o rosto. Ahhhh... O rosto! Você sabe quem é; mas não reconhece! Conectar-se com o parceiro, nas esferas do relacionamento que levam à intimidade, depende de motivação e manutenção de esforço, mútuos. A intimidade entre duas pessoas, num relacionamento amoroso, representa a linha que costura a relação. É como se as duas pessoas fossem constituídas de tecidos diferentes e tomassem a decisão de se unir. Esse “costurar-se” é um projeto a dois. É preciso partilhar a agulha e a linha com o parceiro; deixar-se tocar pelo que o outro traz de si e dispor-se a embarcar na aventura de tocar os anseios, os desejos, as certezas, as dúvidas e crises do outro.
Intimidade é consequência da escolha pelo compromisso. Relações passageiras, por mais que sejam intensas, nunca serão íntimas. E não há nada de errado com as relações passageiras. Tudo depende das necessidades de cada um em determinado momento da vida. Há quem viva satisfeito e pleno emocionalmente, sem criar vínculos amorosos. Há quem não acredite que é possível ser feliz afetivamente sem a presença completa de um parceiro, fiel, amoroso e dedicado. Somos diferentes uns dos outros. E, somos diferentes de nós mesmos em cada passo dessa intrincada trajetória que é a vida.
Pode ser que você acredite que não nasceu para esse tal de amor. Pode ser que a vida venha lhe apresentando amostras pouco confiáveis de parceiros e você ande meio ressabiado para se dispor a engatar um relacionamento sério. Pode ser que você tenha tomado a decisão de partilhar momentos de afeto, apenas momentos; e resguardar seu coração para abrigar alguém em outra hora. Pode ser, ainda, que você tenha optado por encontros anônimos, intensos e superficiais. No cenário de qualquer um desses casos é perfeitamente possível que você venha a acordar em companhia de alguém desconhecido. Seria uma espécie de efeito colateral da escolha de estar emocionalmente desvinculado. Tudo certo! Mas que distorção da realidade seria se o estranho fosse alguém que de tão próximo se dissolveu em você. Que sopro de vento frio na alma é dormir com um estranho que se conhece há anos. Que golpe ter acreditado possuir a senha para esse tal de amor e descobrir que você nem se lembra mais da combinação que proporcionava o encaixe e a revelação.
Por que temos de ser tão contraditórios? Por que insistimos em acreditar que existe uma fórmula para o amor? Os maiores gênios da humanidade declararam-se incompetentes para decifrar os mistérios e caprichos da paixão. Eles estavam errados. Estavam?! A ciência está começando a descobrir que existe, sim, lógica no amor. E, quem sabe, até uma fórmula. Matemáticos da Universidade de Genebra estudaram 1 074 casamentos, analisando diversas características dos cônjuges, e chegaram a uma fórmula do que seria o par ideal - com maior taxa de felicidade e menor risco de separação. A mulher deve ser 5 anos mais jovem e 27% mais inteligente do que o homem (o ideal é que ela tenha um diploma universitário, e ele não). E é preciso experimentar bastante antes de decidir: uma análise feita pelos estatísticos John Gilbert e Frederick Mosteller, da Universidade Harvard, apontou que, se você se relacionar com 100 pessoas durante a vida, suas chances de encontrar o par ideal só chegam ao auge na 38ª relação. Faça tudo isso e você será premiado com 57% mais chance de ser feliz. Mas, se você achou essas condições meio sem sentido, ou no mínimo difíceis de seguir, acertou. As conclusões são puramente estatísticas, ou seja, projetam um cenário ideal e não levam em conta as decisões que as pessoas realmente tomam: praticamente todos os casais estudados pelos cientistas suíços (para ser mais exato, 99,81%) não viviam seguindo à risca a fórmula. Afinal, não somos equações. Somos uma pilha de neurotransmissores, hormônios e experiências.
O fato é que ao deparar-se com a inquestionável realidade de partilhar a cama com um desconhecido familiar, colocará você diante de uma situação limite. Você pode optar por entender que a vida é um espaço de tempo muito breve para que você se dê ao luxo de desperdiçá-la com sentimentos que o tempo já descoloriu. Neste caso, você terá que permanecer acordado pelo resto da noite. Terá que contemplar o rosto à sua frente com a coragem de alguém que ainda ama, só que de um jeito diferente. Terá que enfrentar seus olhos, quando se abrirem, e oferecer a ele a sua melhor verdade. Terá de encontrar palavras para dizer que vocês não podem mais partilhar o que não é mais partilhável. Terá que abrir mão da confortável vida conhecida para sofrer um pouco (ou talvez muito), antes de estar pronto para uma vida nova. Terá que ser merecedor do amor que houve ali e da história que escreveram juntos para que cada um possa ter o outro inteiro e reconhecido numa memória viva, íntegra e reconhecível.