PLATÃO E A ACADEMIA DE GINÁSTICA

21/02/2015 23:38



Em tempos de obsessão pelo corpo ideal, como Platão me ajudou a preocupar menos com o corpo e mais com a essência.

Entrar para uma academia de ginástica é um ato de coragem para a maioria das pessoas. Você tem que vencer o medo de ser julgado, de não conseguir cumprir com a rotina, tem que vencer a preguiça, o tempo chuvoso, o cansaço, a música eletrônica, os aparelhos suados e as pessoas em trajes mínimos. Eu odeio academia, mas amo minha saúde cardiovascular, então em nome de um corpo mais saudável e alguns quilos a menos, deixei minhas fobias sociais de lado e peguei no pesado por três longos anos. Até que decidi parar. O que aprendi com a academia de ginástica é que ela tem muito em comum com outra academia, a de Platão. Eu sei, é uma ideia idiota, afinal, as pessoas que frequentam a academia (de ginástica, não a de Platão), não são reconhecidas exatamente por suas habilidades intelectuais. Se Platão tinha o mito da caverna, a academia de ginástica possui o mito do homem das cavernas. É um trocadilho infeliz, mas eu não resisti.
O que descobri durante os 30 minutos de esteira, momento este em que aproveito para pensar nas questões existenciais fundamentais enquanto corro ao som de David Guetta, é que a academia de ginástica é de certo modo uma representação empírica dos ideais platônicos. Não de todos, mas de alguns. Platão era defensor de um mundo ideal, um mundo que separaria as coisas da ideia que temos destas coisas. Curiosamente, marombeiros são trabalhadores da imagem ideal do corpo. A academia de ginástica está insatisfeita com o corpo assim como a de Platão estava com a essência.
Ninguém faz ginástica por satisfação. Mesmo que você seja um monstro (espero que você entenda a piada) apaixonado por Whey e clara de ovos, o faz por insatisfação com o que você era antes de ter bíceps gigantes. A barriga trincada, as pernas torneadas, os glúteos gigantescos, as repetições de 10, tudo isso é um ato de busca de uma imagem ideal, que transforme você em outra coisa. Eu nunca fiz academia para me tornar outra coisa. Nunca desejei ser musculoso e grande, nunca quis me desfazer de mim. Mas a maioria das pessoas não pensa assim. Para elas a academia de ginástica é um ambiente de correção do corpo. O corpo gordo e roliço ou magro e sem músculos não é assim um corpo “definido”, é um "não corpo", um "vir a ser do corpo". A academia de ginástica é um lugar de definição, corporal e social tão quanto era a academia platônica um lugar de definição de ideias e conceitos.
academia_platao.jpg A Academia ateniense, por Rafael.
Mas nem só de corpo vive uma academia. Corpo são, mente sana. A mente do marombeiro é a extensão desta filosofia. As mulheres em busca do corpo de revista, do corpo cavalar, bundas e peitos em pleno choque existencialista. O que eu sou e o que o mundo é. Sartre e agachamentos para fortalecer as panturrilhas. Há um embate existencialista em cada levantamento de peso. A imagem ideal feminina é ainda mais cruel. O corpo ideal feminino é movido pela moda de modo mais volúvel que o masculino. Estão na moda as mulheres ultra-saradas, antes delas estavam as mulheres-fruta (mulheres com uma parte específica do corpo maiores que as demais, em geral glúteos ou seios) e antes destas outras tantas definições de perfeição feminina sempre em mutação. A mulher parece assim uma massa de carne para ser moldada de acordo com o desejo masculino vigente em questão. Simone de Beauvoir não iria curtir isso.
O ideal de corpo masculino, praticamente, não mudou desde os gregos. Homem com o corpo moldado para a guerra, onde cada músculo revelado se torna em medalha para a masculinidade. Seis gomos no abdômen, bíceps e tríceps em seu devido lugar, peitoral volumoso. Dizemos “treinar”, mas treinar para o que? A guerra que travamos é de nós contra nós, é da transformação em outro, seja para ser aceito ou desejado. Nem sempre é um caso de compensação, mas de recusa. Recusa ao que somos, ao que temos. A minha ideia é que para se ter um corpo moldado, primeiro precisamos estar em desacordo com o corpo anterior, o corpo que temos de todos os dias, o corpo comum.
300abs.jpg O filme 300 mistura o ideal apolíneo com a regra de beleza atual
Não por acaso chamamos esse campo de treinamento de vaidades de academia. Os gregos foram os precursores da idolatria do corpo. Os vasos com homens nus em cenas heroicas são os primórdios dos pôsteres com fisiculturistas segurando um supino. Os suplementos alimentares se tornam assim a ambrosia dos deuses da maromba para transformar mortais em modelos de Hércules. A academia quer criar deuses, e monstros. Principalmente monstros. Trocamos Marte por Eros. Para o culto da mente os gregos tinham a tribuna e as academias filosóficas. Para nós, o culto da mente não tem lugar. Poderíamos dizer a escola, mas todo mundo sabe como “saber” e “ensino” não andam juntos de um modo geral. Poderíamos dizer a universidade, as bibliotecas, a internet. Mas são coisas regidas por leis distintas. Assim, o culto ao saber não cabe mais a um lugar. Não existem academias onde possamos ir para exercitar o cérebro. Para o saber não existe exibição fácil. Sabemos, eis tudo. O saber é uma coisa solitária, o corpo é coletivo.
Quando queremos defender nossas ideias vamos para a internet e “xingamos muito”, eis a onda de chorume das eleições que não me deixa mentir. A internet é a vitrine do pensamento. É lá que brincamos de filósofos, no caos sem lugar dos posts e comentários. Mesmo nela não podemos dizer que tal pessoa é burra, pois o conceito de burrice é relativo, e se o fizermos, compraremos inimizades. Invés disso nos voltamos para o corpo. Podemos dizer, Você é gordo, precisa emagrecer. Ou, Você é magro, precisa ganhar corpo. O corpo é quase que uma propriedade pública. Vemos um amigo de longa data e dizemos Pois é, João engordou. Não dizemos João se tornou epicurista ou João agora é existencialista. Talvez ele seja, mas isso não é da nossa conta. O que o outro pensa não interessa mais. É da nossa conta apenas que João não tem o corpo ideal, o corpo que todos devem ter, o corpo platônico.
O corpo é objeto em mudança. Precisamos mantê-lo vivo, jovem, dourado, depilado, limpo, em dia para que os outros nos amem. O corpo precisa de aprovação constante. Precisamos colocar sobre ele roupas da moda, celulares modernos, acessórios caros. Precisamos mostrá-lo e escondê-lo na medida certa. Não basta apenas ter um corpo saudável, é preciso transparecer isso. Pode-se ser saudável mesmo estando fora dos padrões, mas essa premissa não serve para quem quer ir à academia de ginástica. Malhar é, acima de qualquer coisa, um ato de manutenção da validade do corpo. Eu mesmo comecei para manter-me saudável. Mas o conflito ocorre entre o conceito de saudável e a cobrança social. Digo a um amigo, Estou fazendo academia, e ele me diz: Não parece. Não parece pois não estou disposto a mudar o corpo que tenho para atender a uma exigência social. Estar saudável sem parecer não é estar saudável, assim como ser inteligente, não serve de nada se você não parecer inteligente e escrever aquele “textão do Facebook”.
3333.jpg A silhueta de propaganda de academias muito se parece com um desenho de vaso grego
Participar de uma academia me ensinou o valor do Eu como tal. Atividades físicas repetitivas podem não ser as minhas favoritas, portanto tenho que buscar outras que me agradem, e que não coloquem o meu Eu em risco. Eu posso praticar esportes, Pilates, Ioga, encontrar uma atividade onde a saúde seja o objetivo principal e não o corpo escultural. Há quem seja feliz assim, buscando e mantendo com muito esforço um corpo ideal. Não é o meu caso. Assistir a luta desses homens e mulheres em busca do sexto gomo de abdômen me fez sofrer mais do que a Diógenes, O cínico, dentro de seu barril.Jamais poderemos ter o corpo desejado, seja através de academias, cirurgias plásticas ou qualquer outra coisa porque este corpo não existe. É apenas a representação platônica de uma ideia que existe apenas no mundo das ideias. O nosso corpo não é nosso, nossas ideias são. Ele envelhecerá, cairá abatido pela doença, pela preguiça, pela morte. Nossas ideias são o verdadeiro tesouro do Eu. Somos o que pensamos, o que exercitamos durante a leitura, a vida, o contato com os outros. Ao contrário do corpo, a mente expandida não volta ao seu tamanho anterior. Ela continua, para além das fotos nos espelhos, para além da idiotice.
Sem querer levantar uma Apologia de Sócrates da vida sedentária, ninguém precisa beber cicuta e morrer sentado no sofá. Eis que em tempos de loucura em busca da perfeição física devemos retornar aos nossos amigos gregos, que eram zuadores e sabiam se curtir. Amavam livremente, praticavam esportes, comiam e bebiam bem e iam com regularidade à academia malhar o mais potente dos músculos, o cérebro. Eis o ideal de beleza e verdade da vida: um corpo em dia e uma mente afiada.