Persona X Sombra
Lidia Dantas- É o rosto que usamos para o encontro com o mundo social que nos cerca. (Murray Stein, O Mapa da Alma) A face que apresentamos ao mundo exterior (frequentemente aspectos ideais de nós mesmos). A persona pode se referir à identidade sexual, um estágio do desenvolvimento (tal como a adolescência), um status social, um trabalho ou profissão. Durante toda uma vida, muitas personas serão usadas e diversas podem ser combinadas em qualquer momento específico. Todos nós temos de desempenhar papéis que nos são impostos pela vida social, pelos cargos que ocupamos, pela função que exercemos na sociedade. As pessoas são usualmente sensíveis às expectativas de outras pessoas. Jung sublinha que determinados ambientes, como famílias, escolas e locais de trabalho, requerem que as pessoas assumam atitudes específicas. (Murray Stein, O Mapa da Alma) Nossas personas representam os papéis que desempenhamos no palco do mundo; são as máscaras que carregamos durante todo esse jogo de viver na realidade exterior. A persona, não é em si nem positivo, nem negativo, nem boa, nem má. Podemos falar do desenvolvimento de uma persona falsa (defensiva) ou adequada (criativa). Persona Inadequada (defensiva) - Identificação com o coletivo - Completa rejeição às normas sociais Persona Adequada (criativa) De um modo geral, quanto mais prestigioso é o papel, mais forte é a tendência para identificar-se com ele. (Murray Stein, O Mapa da Alma) Uma persona adequada possui amplitude suficiente não só para expressar os aspectos socialmente apropriados da personalidade mas também para ser autêntica e plausível. (Murray Stein, O Mapa da Alma) Temos que aprender a nos adaptar às exigências culturais e coletivas em conformidade com o nosso papel na sociedade – com nossa ocupação ou profissão e posição social – ainda ser nós mesmos. Precisamos desenvolver tanto uma máscara de persona como um ego adequado Se adequada, a persona auxilia o indivíduo a vivenciar aspectos do seu mundo interno e a atualizar padrões arquetípicos necessários ao seu desenvolvimento; entretanto, se se enrijecer, aprisiona-o, qual uma armadura ou máscara, sobre a qual não tem mais controle. Na infância, nossos papéis são determinados pelas expectativas paternas. A criança tende a ser comportar de modo a receber aprovação dos mais velhos, e esse é o primeiro padrão de formação do ego. Quanto mais tempo uma atitude persiste e quanto mais frequentemente ela for chamada a satisfazer as exigências do meio, mais habitual ela se torna. (Murray Stein, O Mapa da Alma) A persona é a pessoa que passamos a ser em resultado dos processos de aculturação, educação e adaptação aos nossos meios físico e social. (Murray Stein, O Mapa da Alma) No decorrer do desenvolvimento psicológico adequado, é necessário que ocorra uma diferenciação entre o ego e a persona. Isso significa que temos de nos tornar conscientes de nós mesmos enquanto indivíduos separados das exigências externas feitas em relação a nós À medida que o processo de individuação avança, vai se tornando mais nítida a distinção entre o que somos para os outros e aquilo que somos para nós mesmos. Só então a persona passa a ser, em grande parte, uma escolha consciente do indivíduo, integrando a sua individualidade. Nesse sentido, a persona seria tanto mais verdadeira quanto mais espelhasse o indivíduo na sua autenticidade. Temos de descobrir que usamos nossas vestimentas representacionais para proteção e aparência, mas que também podemos nos trocar e vestir algo mais confortável quando é apropriado, e que podemos ficar nus em outros momentos. Se as nossas vestes grudam em nós é bem provável que nos tornemos doentes. "Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos." ANDRADE, Fernando Teixeira In: O medo: o maior gigante da alma. Tabacaria Fiz de mim o que não soube E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido. Álvaro de Campos Referências bibliográficas • Stein, Murray. Jung – O Mapa da Alma. Ed. Cultrix • Grinberg, L. P. O Homem Criativo. Ed. FTD • Ulson, Glauco. O Método Junguiano. Ed. Ática • Andrews, Samuel. Dicionário Crítico de Análise Junguiana. SOMBRA s.f., espaço privado de luz ou tornado menos claro, pela interposição de um corpo opaco entre ele e o objeto luminoso; trevas, noite, escuridão; Jung emprega o termo sombra para denotar uma realidade psicológica que é relativamente fácil de captar num nível imagístico, mas muito difícil de compreender nos níveis prático e teórico. Em vez de aludir à sombra como uma coisa, é preferível, porém, pensar nas qualidades ou traços psicológicos que estão “na sombra” (isto é, escondidos, encobertos, atrás de nós , no escuro) ou são “indistintos”. (Murray Stein, O Mapa da Alma) Com um ou dois anos de idade, temos uma “personalidade de 360 graus”. A energia se irradia de todas as partes do nosso corpo e de todas as partes da nossa psique. Uma criança correndo é um globo vivo de energia. (Robert Bly) “Passamos nossa vida até os 20 anos decidindo quais as partes de nós mesmos que poremos na sacola e passamos o resto da vida tentando retirá-las de lá.” (Robert Bly) Imagine um rapaz que lacra a sacola aos 20 e espera uns quinze ou vinte anos para reabri-la. O que ele irá encontrar? Quando colocamos muita coisa na nossa sacola particular, o resultado é nos sobrar pouca energia. Quando maior a sacola, menor a energia. Geralmente, a sombra é relacionada apenas com aspectos negativos, mas pode acontecer de um indivíduo “se identificar com suas qualidades negativas e reprimir as positivas”. A sombra é caracterizada pelos traços e qualidades que são incompatíveis com o ego consciente e a persona. (Murray Stein, O Mapa da Alma) A sombra pode ser pensada como uma subpersonalidade que quer o que a persona não permitirá. (Murray Stein, O Mapa da Alma) A maioria das pessoas, [...], veem-se como decentes e conduzem-se de acordo com as regras da decência e da correção em seus círculos sociais, e só revelam elementos sombrios por acidente, em sonhos ou quando impelidas a extremos. (Murray Stein, O Mapa da Alma) O que o ego quer na sombra, entretanto, não é necessariamente mau em si e de si e, com frequência, a sombra, uma vez enfrentada, não é tão perversa quanto se imaginou. (Murray Stein, O Mapa da Alma) Na sombra também estão contidas as potencialidades não desenvolvidas. “De um modo geral, a sombra é simplesmente vulgar, primitiva, inadequada e incômoda, e não de uma malignidade absoluta. Ela contém qualidades infantis e primitivas que, de algum modo, poderiam vivificar e embelezar a existência humana; mas o homem se choca contra as regras tradicionais.” (C.G. Jung) Aquilo que não fazemos aflorar à consciência aparece em nossas vidas como destino”. (C.G. Jung) A sombra tem diversas dimensões: a pessoal, a coletiva, a familiar e a biológica. O lado escuro não é nenhuma conquista evolucionária recente, resultado de civilização e educação. Ele tem suas raízes numa sombra biológica, que se baseia em nossas próprias células. Nossos ancestrais animalescos, afinal de contas, sobreviveram graças às presas e às garras. A besta em nós está viva, muito viva — só que a maior parte do tempo encarcerada. (Connie Zwig e Jerrmiah Abrams) Projeção A sombra não é diretamente experimentada pelo ego. Sendo inconsciente, é projetada em outros. SOMBRA PESSOAL Representa o nosso lado esquecido, reprimido ou desvalorizado, sendo projetado em pessoas em quem veríamos estas características negadas em nós. SOMBRA COLETIVA No aspecto coletivo representaria o mal presente arquetipicamente no homem, sendo projetado no demônio. Bode Expiatório Dois bodes eram levados, juntamente a um touro, ao lugar de sacrifício, como parte dos Korbanot do Templo de Jerusalém. No templo os sacerdotes sorteavam ao azar um dos dois bodes. Um era queimado em holocausto no altar de sacrifício com o touro. O segundo tornava-se o bode expiatório, pois o sacerdote punha suas mãos sobre a cabeça do animal e confessava os pecados do povo de Israel. Posteriormente, o bode era deixado ao relento na natureza selvagem, levando consigo os pecados de toda a gente, para ser reclamado pelo anjo caído Azazel. A sombra representa o arquétipo do bode expiatório, do ‘outro", sobre o qual é lançada toda a culpa, toda a maldade do indivíduo que ele não reconhece como sua. Através do recurso do bode expiatório, o homem nega sua sombra. O bode expiatório presta um serviço ao seu acusador, na medida em que ele carrega para esse, o fardo de sua sombra feia, inadequada ao "padrão de beleza" que o ego idealiza. Angela M. Monnerat (net) “O mal do nosso tempo é termos perdido a consciência do mal.” Krisknamurti “Durante os primeiros 35 ou 40 anos da nossa vida, esforçamo-nos por subir uma longa escada a fim de chegar ao cume de um edifício; uma vez chegados ao telhado, apercebemo-nos de que nos enganamos no edifício” Joseph Campbell Eu acreditava, com certa arrogância espiritual, que uma vida interior profunda e comprometida me protegeria contra o sofrimento humano, que eu poderia de algum modo esvaziar o poder da sombra com minhas práticas e crenças metafísicas. Eu assumia, na verdade, que podia governar a sombra — assim como governava meus sentimentos ou a minha dieta — através da disciplina do autocontrole. Mas o lado escuro aparece sob muitos disfarces. Meu confronto com ele, na meia-idade, foi chocante e devastador, uma terrível desilusão. Minha vida parecia destroçada. Tudo aquilo que eu havia "conhecido" como uma realidade bravia, desmanchava-se agora como um tigre de papel ao vento. Eu me sentia como se estivesse me transformando naquilo que eu não era, Tudo o que eu trabalhara para desenvolver e lutara para criar se desfazia. O fio da minha vida era puxado; a história se desenredava. E aqueles que eu desprezara e desdenhara nasciam em mim — como uma outra vida — mas, ainda assim, a minha vida, a sua imagem no espelho, o seu gêmeo invisível. E então compreendi por que algumas pessoas enlouquecem, por que algumas pessoas vivem tórridos casos amorosos apesar de um forte laço matrimonial, por que algumas pessoas em boa situação financeira começam a roubar ou a entesourar dinheiro ou a esbanjá-lo. E entendi por que Goethe disse que jamais ouvira falar de um crime que ele próprio não fosse capaz de cometer. Eu era capaz de tudo. (Connie Zweig) ...não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero. Ora, se faço o que não quero, já não sou eu que ajo, e sim o pecado que habita em mim. (Romanos 7:19-20) A sombra é parte integrante da personalidade, precisa ser reconhecida como nossa e integrada à nossa totalidade. Este é o primeiro passo no caminho da individuação. Apenas quando reconhecemos aquela parte de nós mesmos que ainda não vimos ou preferimos não ver é que podemos seguir em frente, questionar e encontrar as fontes em que ela se alimenta e a base em que repousa. (Whitmont, A Busca do Símbolo) O espelho não lisonjeia, mostra fielmente a face que nunca revelamos ao mundo porque a recobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está atrás da máscara e mostra a verdadeira face (C. G. Jung; CW 9, 20) Só quando sofremos o choque de ver a nós mesmos como realmente somos, e não como desejamos ou esperançosamente presumimos ser, é que poderemos dar o primeiro passo em direção à realidade individual. Tanto a repressão do conhecimento da Sombra quanto a identificação com a Sombra são tentativas de escapar à tensão interna dos opostos, tentativas de "desatar os nós" que unem, dentro de nós, o lado claro e o lado escuro. O motivo, claro, é escapar à dor do problema; mas, se escapar à dor leva ao desastre psicológico, sustentar a dor talvez possibilite o encontro da totalidade. (Jonh Sanford) Sustentar uma tal tensão dos opostos é como uma crucificação. Devemos estar suspensos entre os opostos, um estado doloroso e difícil de ser sustentado. Mas, nesse estado de suspensão, a graça de Deus é capaz de operar dentro de nós. O problema da nossa dualidade jamais poderá ser resolvido no nível do ego; é um problema que não admite solução racional. Mas quando existe a consciência do problema, o Eu, a Imago Dei dentro de nós tem condições de agir e produzir uma síntese irracional da personalidade. (Jonh Sanford) O ENCONTRO DA SOMBRA NA VIDA COTIDIANA pedir que os outros nos digam como nos vêem; descobrir o conteúdo das nossas projeções; examinar nossos “lapsos” verbais e de comportamento e investigar o que realmente acontece quando somos vistos de modo diferente do que pretendíamos; analisar nosso senso de humor e nossas identificações; estudar nossos sonhos, devaneios e fantasias. William Miller Não é olhando a luz que nos tornamos luminosos, mas mergulhando na nossa escuridão. Mas este trabalho é frequentemente desagradável e, por isso, impopular. (Carl G. Jung) Sugerimos que você se relacione com a sombra como um mistério, e não como um problema por ser resolvido ou uma doença a ser curada. Quando o Outro chega, honre aquela parte sua, como faria com um convidado. Talvez descubra que ele chega trazendo presentes. Talvez descubra que o trabalho com a sombra é, na verdade, o trabalho da alma. (O Jogo das Sombras) Talvez todos os dragões de nossas vidas sejam apenas princesas que estão esperando para finalmente nos ver corajosos e lindos. Talvez tudo de terrível que existe seja no fundo um ser desvalido, que precisa da nossa ajuda. (Rainer Maria Rilke) O HOMEM E SUA SOMBRA - Um homem deixou de alimentar a sombra que carregava. Alegou razões de economia. Afinal para quê de sobejo levar algo que o duplicava? Sem sombra, pensou melhor carregaria o que nele carregava. Equivocou-se. Definhou. Descobriu, então, que a sombra o sustentava. Affonso Romano de Sant’Anna “Se despertas aquilo que está dentro de ti, o que despertas te salvará. Se não despertas o que está dentro de ti, o que não despertas te destruirá”. (Jesus) “O que antes eu não entendia/Agora é ouro pra mim” (Peninha) "(...) E, aquele Que não morou em seus próprios abismos Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas Não foi marcado.Não será marcado Nunca será exposto Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema." Manoel de Barros, Zona Hermética “Me cobrir de humanidade me fascina e me aproxima do céu.” Moska/Zélia Duncan (Carne e Osso) TRADUZIR-SE Ferreira Gullar Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem. Traduzir-se uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte - será arte? Referências bibliográficas Stein, Murray. Jung – O Mapa da Alma. Ed. Cultrix Grinberg, L. P. O Homem Criativo. Ed. FTD Jung, C. G, Coll. Wks., Vol 13. Ed. Vozes Zweig, Connie. Ao Encontro da Sombra. Ed. Cultrix Zweig, Connie. O Jogo das Sombras. Ed. Rocco


