Os vazios emocionais

20/04/2021 20:23

 

Todos nós temos vazios emocionais. O importante é conseguir identificá-los, aceitá-los e preenchê-los da maneira mais saudável possível.

Certamente você já deve ter ouvido a expressão “carência emocional”. Ela é muito utilizada para descrever estados emocionais, atitudes e comportamentos específicos. Mais do que falar sobre carências, é preciso falar sobre vazios emocionais. Estes vazios metafóricos são comuns e, via de regra, influenciam mais quando ocorrem na infância.

Na Psicologia, é comum utilizarmos metáforas para tentar descrever fenômenos complexos. Entretanto, nem todas as metáforas podem ser benéficas. A metáfora dos vazios emocionais, porém, é uma das que mais auxiliam do que dificultam.

Esse vazio não é aquele descrito pela Física, quando temos um espaço cuja pressão é inferior à pressão atmosférica. Na verdade, é um vazio que tende a ser preenchido, ou seja: um vazio que traz a necessidade de ser preenchido por aqueles que o sentem.

Sendo assim, os vazios emocionais são nossos espaços internos que tendem a ser preenchidos. Dizemos que são “emocionais” porque tanto a sua criação quanto o seu preenchimento ocorrem na esfera emocional. Dessa forma, cada pessoa possui seus próprios vazios, que vão mudando de tamanho conforme as coisas acontecem (e aconteceram) em nossas vidas. 

Mulher olhando pela janela

 

Por que temos vazios emocionais?

Muitas pessoas talvez pensem que eles são produtos diretos de algum transtorno ou de algum problema. Nada está mais longe da realidade. A maioria dos vazios emocionais surge a partir da nossa constante adaptação ao ambiente.

A vida é feita de mudanças, e as mudanças que ocorrem na esfera das relações mudam os nossos vazios. Seja criando novos vazios, ampliando aqueles que já existem ou preenchendo-os total ou parcialmente, nossas experiências de vida condicionam nossos estados emocionais.

E mais, nossos vazios estão relacionados às interações que temos não apenas com os outros, mas também com nós mesmos. A autoestima e, principalmente, o autoconceito, são cruciais para que estes vazios nos afetem mais ou menos, além de nos incentivar a preenchê-los de alguma forma.

Como podemos preenchê-los?

Os vazios emocionais trazem consigo a necessidade de serem “preenchidos”. Obviamente, esta necessidade é de natureza emocional. Existem muitas maneiras de preencher estes vazios, mas, no geral, estas formas podem ser agrupadas em dois grandes grupos:

Através de outras pessoas

Os vazios podem ser preenchidos a partir de uma infinidade de elementos, tais como a atenção, a aceitação, a piedade ou a sensação de segurança.

Uma forma de preencher essas “lacunas” é através da busca por esses elementos nas outras pessoas. Ou seja: quando nossas necessidades emocionais podem ser preenchidas através da aceitação ou da atenção das outras pessoas. No entanto, isso não é recomendável.

Caso fiquemos acostumados a preencher esses vazios através dos outros, provavelmente vamos desenvolver dependências emocionais em praticamente todas as nossas relações. Além disso, caso uma dessas relações termine, nosso vazio precisará ser preenchido, de novo, por outra pessoa (ou pessoas). 

Através de nós mesmos

Seguindo uma linha bem diferente da anterior, é possível sanar essas necessidades através dos mesmos elementos que havíamos citado, porém com a diferença de que tentamos encontrá-los não nos outros, mas em nós mesmos.

Dessa forma, nossos vazios podem ser preenchidos através dos nossos próprios processos de adaptação e, assim, não precisaremos que ninguém mais preencha essas lacunas, pois nós mesmos podemos fazer isso. De fato, este caminho pode exigir mais tempo e mais trabalho pessoal.

Mulher meditando

 

Benefícios da metáfora dos vazios emocionais

O uso das metáforas na psicologia é muito útil em vários aspectos. Quando nos referimos à metáfora dos vazios emocionais, várias situações podem ser beneficiadas. Ela pode servir como uma poderosa ferramenta de introspecção para pessoas que apresentam ou já apresentaram dependências emocionais e, sobretudo, pessoas que possuem uma tendência a isso.

Certamente, os vazios emocionais podem ser utilizados como um tipo de terapia, no sentido de serem mecanismos de defesa. É possível ajudar os pacientes a tomarem consciência deste tipo de mecanismo inconsciente nas interações, uma vez que pedimos para que eles desenhem ou descrevam seus vazios, indicando como estão, quando foram preenchidos pela última vez ou quando foram criados.

Os vazios emocionais fazem parte do nosso ser. Mais do que negá-los, é preciso observá-los, pensar em maneiras saudáveis de preenchê-los e, também, pensar se podemos agir de maneira diferente para que eles não nos privem da nossa própria felicidade.

udo está indo bem na minha vida, mas me sinto vazio." Esse é um sentimento que muitas vezes não queremos enfrentar, adotando medidas temporárias que nos impedem de identificar e solucionar a raiz do problema.

 

“Tenho tudo que quero na vida, mas me sinto vazio“. Essa frase é constantemente repetida nas consultas psicológicas. A pessoa tem tudo que deseja e ainda não se sente feliz. Quando isso acontece, é bastante comum a pessoa fazer de tudo para se distrair e não ter essa sensação de vazio.

No entanto, geralmente chega um dia em que ela não aguenta mais. Nesse momento, a pessoa pensa que enfrentar o vazio é a coisa certa a fazer, mas fazer isso é mais difícil do que parece. Entender as causas desse vazio pode ser algo doloroso, mas é necessário.

A sensação de vazio

Faltam palavras para descrever a sensação de vazio. Se você já teve essa sensação em algum momento da sua vida ou se está tendo agora, você sabe bem do que estamos falando. Às vezes, essa sensação de vazio se torna uma “crise existencial”, pois confunde todas as ideias sobre o sentido da vida.

Essa sensação de vazio implica um grande desconforto. Inclusive, é tão intensa que as pessoas fazem todo tipo de coisa para fazê-la parar, mas sem sucesso. Controlar a sensação de vazio pode ser como tentar formar uma tigela com as mãos e tentar reter água. Esse desconforto, aliado à incerteza de não saber para onde ir ou o que fazer, pode deixar qualquer pessoa sem esperança.

Muitas pessoas a definem como uma sensação de falta de satisfação, embora tudo esteja bem em suas vidas e nada lhes falte de forma significativa. Existe outra maneira de ver isso: imagine que você atinge uma meta de longo prazo com muito esforço e dedicação. Você pensou que, nesse momento, se sentiria feliz e realizado, mas isso não acontece.

Tentando preencher o vazio

A sensação de vazio é tão perturbadora que o impulso inicial é preencher esse vazio o mais rápido possível. As pessoas que sentem esse vazio fazem várias tentativas para aliviar essa sensação com ferramentas que não funcionam a longo prazo.

Uma das estratégias que elas mais utilizam é preencher o tempo com múltiplas atividades de todos os tipos. O objetivo é não deixar tempo livre para pensar na crise existencial que estão passando. Além disso, vale notar que elas costumam ter fortes sentimentos de ansiedade em momentos de inatividade ou de tempo livre.

Outro recurso que elas utilizam para aliviar a sensação de vazio tem a ver com a aquisição de bens materiais. É comum elas tentarem esconder sentimentos de mal-estar comprando compulsivamente, ou seja, adquirindo coisas sem realmente precisar. Da mesma forma, elas podem recorrer a certos vícios, como o álcool, os jogos de azar, a compulsão alimentar, entre outros.

Sem dúvida, o que todas essas estratégias têm em comum é que são paliativos momentâneos para a sensação de vazio. Além disso, esse tipo de comportamento viciado pode gerar outros problemas de saúde, financeiros ou de relacionamento, que geralmente obrigam a pessoa a pedir ajuda.

Por que essa sensação ocorre?

A sensação de vazio está associada a sintomas relacionados ao estado de humor e ao que é conhecido como anedonia, que é a incapacidade de desfrutar do que costumava proporcionar prazer no passado. Cabe ressaltar que ela está relacionada a diferentes funções cerebrais.

As pessoas com uma sensação de vazio têm menos atividade no corpo estriado, um componente do cérebro intimamente relacionado à sensação de prazer.

Além disso, essa sensação está relacionada a várias patologias psicológicas ou momentos da vida. Algumas das mais significativas são as seguintes:

  • Transtornos emocionais como a depressão. Quando uma sensação de vazio se torna crônica, pode-se desenvolver um transtorno depressivo, uma vez que os principais sintomas desse transtorno são a desesperança e a anedonia.
  • Luto. Quando você perde um ente querido ou passa por uma separação difícil, é comum enfrentar um período caracterizado por uma sensação de vazio. Isso ocorre porque a vida como você a conhecia mudou abruptamente.
  • Ter expectativas muito altas. Quando uma pessoa coloca todos os seus esforços em um objetivo, seja em conseguir um emprego estável, começar uma família, etc., é normal ter expectativas altas. No entanto, se ela não consegue o que quer, tem dificuldade de superar o sentimento de decepção. Isso se reflete, por exemplo, nas chamadas crises de idade.
  • Querer ter um controle excessivo sobre as coisas. A principal característica dos transtornos do espectro neurótico é a sensação de querer controlar tudo o que acontece. Por esse motivo, essas pessoas costumam passar a maior parte do tempo planejando. Quando elas descobrem que muitas coisas estão fora do seu controle, surge a sensação de vazio e desesperança.
Enfrentando a sensação de vazio

 

Enfrentando a sensação de vazio

A sensação de vazio está ligada a um profundo mal-estar inespecífico. A pessoa se sente muito inquieta e não tem ideia de como parar de se sentir assim.

Além disso, as emoções que esse vazio provoca podem ser tão intensas que é comum as pessoas tentarem mitigá-las através de estratégias rápidas (manter-se ocupado, certos vícios e compras compulsivas). No entanto, esses comportamentos são apenas algo provisório que pode criar mais dificuldades do que o próprio problema inicial.

As causas dessa sensação são muito diversas. Inclusive, elas geralmente dependem da idade da pessoa. No entanto, quando a sensação de vazio se torna crônica, pode-se desenvolver um transtorno do humor, como a depressão.

Embora seja doloroso reconhecer, os momentos de vazio ou as crises existenciais são necessários em certas etapas da vida, pois são um grande motor de mudança. Quando você se depara com esse vazio, não há mais nada a fazer a não ser cavar fundo até encontrar a causa do desconforto.

Inclusive, essa busca permite reconstruir uma nova e melhor identidade com a qual a pessoa pode se sentir melhor e mais feliz. Às vezes, fazer uma auto-introspecção é o que você precisa para se reinventar.

Muitos dos nossos excessos escondem os nossos vazios

 
Muitos dos nossos excessos escondem os nossos vazios

 

 

Nosso vazio emocional nos lembra que há algo que não conseguimos completar, algo que nos enche de instabilidade e frustração. Tentamos preencher esse vazio com os nossos excessos, ingerindo álcool até que os sentidos se percam, nos exaurindo na academia, comendo emocionalmente ou comprando de forma compulsiva, mas a sensação de desesperança depois de fazer estas coisas continua em nós, e por vezes até se intensifica.

A sensação de vazio pode nos causar um bloqueio emocional, que é o que acaba impedindo que enfrentemos a nossa realidade, nos levando a uma vida de desordem para cobrir nossas carências.

A luta contra o vazio emocional não é fácil, mas os excessos não são a solução. Uma boa parte das emoções e sensações mais negativas que podemos experimentar se unem, nos fazendo sentir que mergulhamos em um poço muito profundo. Estas emoções nos causam uma sensação de vulnerabilidade que surge quando somos incapazes de reagir frente a situações dolorosas.

Quando damos tudo por perdido, os excessos parecem a única solução para nos completar. Qualquer conduta acolhedora normal se transforma em suscetível de um comportamento psicologicamente viciante. De fato, seria possível fazer uso anormal de uma conduta normal em função da intensidade, da frequência, e do grau de interferência nas relações pessoais.

“O excesso é um defeito, é o veneno da razão.”
– Francisco de Quevedo –

Mulher refletindo sozinha

Nossos excessos são consequência da incapacidade de enfrentar nossos vazios

Os excessos controlam nossa conduta, chegando inclusive a negar este comportamento. Este círculo vicioso, no qual os excessos aumentam nossos vazios, só terminará quando enfrentarmos o que nos leva a estas “condutas de abandono”.

Quando somos incapazes de reagir frente a situações problemáticas, uma barreira se coloca entre nós e aquilo que devemos enfrentar, o que gera um ambiente propício para as condutas excessivas. Existem alguns sinais que nos advertem de que podemos estar caindo em comportamentos excessivos para maquiar a realidade que nos atormenta. Evitar atividades, nervosismo cotidiano, medo e falta de motivação, são as consequências de não enfrentarmos corretamente os nossos vazios.

Vazio emocional

 

Chamar quase tudo de necessidade pode ser o grande problema. Por trás das necessidades se encontram nossos vazios, e por trás dos vazios se encontram nossos excessos. Identificar as necessidades que nos condicionam é crucial para entendermos os nossos vazios. Uma necessidade moderna é normal e saudável, o problema ocorre quando essa necessidade se transforma em algo desenfreado.

É preciso ter coragem para reconhecer o que nos falta

Não há nada melhor do que nos conhecermos para acabarmos com nossos vazios. Muitas das pessoas que buscam consultas psicológicas e que dizem experimentar uma grande sensação de vazio conhecem muito pouco sobre si mesmas, levam tempo sem atualizar essa visão que um dia geraram e para a qual muitas vezes olham com certa nostalgia.

Sendo conscientes de que são diferentes, de que os anos passaram; sabendo que já não são os de antes, mas sem saber quem são agora. Quando a sensação de anedonia nos invade e não sabemos o que sentimos ou por que sentimos, é o momento de agir, de ter coragem e de reconhecer que algo está errado.

Reconhecer o que nos falta leva a uma reflexão profunda de nossas necessidades emocionais, muito além do trivial, do material e do que os demais esperam de nós. É preciso ter coragem para reconhecer que estamos longe de levar a vida que queremos ou a vida que um dia rabiscamos no horizonte. Só uma pessoa completa é capaz de confessar suas faltas e de reconhecer seus erros.

Só uma pessoa que se olha com bons olhos, e coloca carinho neste olhar, está pronta para aceitar a si mesma e integrar seus desejos em sua integridade, dinâmica e mutante por definição, de forma que esta fusão não cause uma dissonância.

“Quando alguém se desfaz de tudo que possui, passa a possuir todos os tesouros do mundo.”
– Mahatma Gandhi –

Mulher feliz consigo mesma