O Silêncio de uma Nação Estuprada.

01/06/2016 19:02

 

Vira e mexe nos deparamos com algumas faces assustadoras do continental absurdo chamado Brasil. Na política entramos em contato com realidades que nos envergonham a cada dia. Novos escândalos eclodem e, tudo indica, que a corrupção é como um câncer com metástase de proporções espantosas, se espalhando no organismo das instituições, quase que em sua totalidade. 
Esse é o quadro geral, que parece se situar num planeta distante ou num reino fantástico: a nossa capital federal. E se do âmbito mais macro da política saltam absurdos estarrecedores, da dimensão mais próxima e concreta, do seio da vizinhança de qualquer um de nós, aqui mesmo do mundo real, também se originam realidades espantosas. 
Uma adolescente foi estuprada, possivelmente, por mais de trinta homens.
Imediatamente vem a pergunta: como algo assim pode acontecer? Aliás, como algo assim, que vem acontecendo, pôde permanecer em silêncio por tanto tempo? Numa casa batizada de “abatedouro” ocorrem estupros coletivos no miolo de uma comunidade carioca, perpetrados sobretudo por traficantes, e o silêncio se mantém. Ou melhor, se mantinha. 
"A sombra anseia por se mostrar” já dizia Carl Gustav Jung, o Pai da Psicologia Analítica.
É bom lembrar que pesadelos semelhantes ocorrem não apenas com moças de favelas da famosa Cidade Maravilhosa, mas com mulheres e meninas de diversos outros pontos do país. 
Enfim, seja enfrentando a feiúra dessa noticia-bruxa vinda do Rio de Janeiro, ou das desgraceiras que ocorrem em brasília (sim, escrevi com b minúsculo), sinto que todos nós Brasileiros (sim, escrevi com B maiúsculo) somos estuprados. 
Tocam-nos de forma obscena sem nossa permissão quando usam o erário para tanta bandalheira, retiram nossa dignidade parasitando-nos com leis que apenas os favorecem, sentem prazer ilícito às nossas custas enriquecendo assustadoramente com os bens que produzimos com suor e sangue, enfim, pisam em nossa dignidade nos deixando sem teto, comida, segurança, educação e, pior, sem esperança. 
Tudo isso só mudará se assumirmos o papel de porta-vozes da própria dor, da insatisfação que cada um sente. 
Um video foi exibido com o triste momento do estupro coletivo que enojou nosso país e o mundo. A vítima falou. E se não existissem o video e o depoimento não saberíamos do ocorrido, e nada se faria a respeito. 
Quando a jovem foi vilipendiada todos nós também o fomos. Ela expôs sua desgraça e nós também podemos expor a nossa. 
Mulheres, falem dos assédios e estupros que sofreram. Denunciem. 
Cidadãos, precisamos falar dos nossos, igualmente. Por quanto tempo aguentaremos dores sem expressá-las? 
Você que se sente aviltado, exponha-se. Nunca tivemos tanta facilidade de colocar a boca no mundo. Procure informações antes, entretanto, checando os dados.
Nunca se teve, também, tanta facilidade de se divulgar a mentira como hoje. Circulam muitas baboseiras. Não seja mais um a espalhar boatos que não se sustentam.
Fale de você. Diga algo sobre a situação que vive, fale sobre o quanto estão tirando da sua vida aquilo que deveria ficar com você, mostre sua indignação. Vivemos violências diárias.
E vem outra vez a pergunta: Como algo assim pode acontecer?
O nosso silêncio explica.
Injustiça é uma espécie de estupro. Corrupção é um jeito de estuprar. Falta de ética em todas as suas nuanças, igualmente, é estupro.
As coisas só mudam quando nossas bocas começam a deixar de ser mudas.
Anotem os nomes dos políticos bandidos de brasília, e também da sua cidade e do seu estado. Anotem os partidos nos quais estão. Anotem para jamais esquecer. Ponham no Google e chequem, saibam mais e comentem mais.
Que os estupradores da menina carioca sejam presos e punidos exemplarmente. Nenhum ser humano merece ou tem que passar por algo tão doloroso como o que com ela ocorreu.
E nós, Cidadãos Brasileiros, podemos começar a dizer um sonoro NÃO aos estupros que os vícios de nossa tão jovem democracia vem nos perpetrando. 
Uma outra forma de falar é o voto. Lembrem-se disso.
Enquanto o silêncio é a melhor maneira de se alimentar violência de toda espécie, informar-se e informar podem se constituir no primeiro caminho de mudança.
Uma nação estuprada que se mantém muda, não muda.
Antes que seja necessário gritar, falemos.

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(texto e ilustração de Kau Mascarenhas)

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