O fator D e a maldade humana.
23/03/2019 19:59

O fator D define a tendência psicológica de colocar os próprios interesses, desejos ou motivações pessoais acima de qualquer outro aspecto. Da mesma forma, abrange todo o amplo espectro de comportamentos que compõem a maldade humana.
Cabe ressaltar que, além do estudo realizado pela referida equipe de psicólogos das universidades de Copenhague, foram realizadas mais quatro análises para apoiar ou não a confiabilidade e a validade do fator D. Em todas elas, foi comprovada sua utilidade para medir o grau de maldade em cada um de nós.
À nossa disposição temos, portanto, outro recurso para medir a maldade humana que também pode ser complementada com a escala de Michael Stone, aquela ferramenta bem conhecida para medir os 22 graus da maldade no comportamento das pessoas.
Vamos ver quais são os 9 fatores que determinam o fator D.
Os 9 traços sombrios do fator D
Egoísmo. Entendido como preocupação excessiva pelos próprios interesses.
Maquiavelismo. Define uma pessoa com comportamento manipulador, frieza emocional e mentalidade estratégica em busca de interesses próprios.
Ausência de ética e senso moral.
Narcisismo. Refere-se à excessiva admiração por si mesmo e pela busca contínua de benefício próprio.
Direito psicológico. Refere-se à convicção através da qual uma pessoa se sente merecedora de mais direitos e concessões do que as outras.
Psicopatia. Déficit afetivo, baixa empatia, insensibilidade, tendência a mentir, impulsividade.
Sadismo. Comportamento no qual a pessoa não hesita em infligir dor aos outros por meio de qualquer tipo de agressão, seja sexual ou psicológica. Esses atos, além disso, geram prazer e sensação de domínio.
Interesse social e material. Busca constante por vantagens, sejam reforços sociais, objetos materiais, reconhecimento, sucesso, etc.
Malevolência. Preferência por fazer o mal, seja por agressão, abuso, roubo, humilhação, etc.
O fator D e a maldade humana
Ingo Zettler, coautor dessa pesquisa, aponta que o fator D pode ser entendido como a personalidade sombria que integra grande parte desses traços.
As pessoas caracterizadas por esse fator também encontram justificativas em seus próprios atos. Como vemos, todas essas ideias deixam de lado as possíveis explicações neurobiológicas e sociais que podem determinar esses atos. Portanto, seria uma ferramenta psicológica valiosa para identificar e medir a maldade.
No entanto, e para terminar, vale a pena lembrar aqui uma citação de Fyodor Dostoiévski: nada é mais fácil do que identificar a figura do maligno, mas nada é mais difícil do que conseguir entendê-lo.
“Tudo é permitido para mim” ou “Os outros só existem para me adorar”, são exemplos típicos de pensamentos dominados pelo narcisismo. São pessoas egoístas, com um sentido de direito egocêntrico e uma autoimagem positiva, embora pouco realistas se considerarmos a opinião das pessoas ao seu redor.
Os narcisistas são “encantadores de serpentes”. No início são muito queridos para os outros, seus comportamentos são agradáveis e atraentes, mas com o passar do tempo, podem se tornar muito perigosos. Eles podem até, sem querer, mostrar quais são as suas verdadeiras intenções: obter mais admiração e poder.
Eles geralmente ficam entediados com a rotina, por isso procuram desafios difíceis. A maioria dos narcisistas procura uma posição de liderança, advocacia ou qualquer outra profissão que envolva altos níveis de estresse. De acordo com o psicanalista Michael Maccoby, o narcisismo é um distúrbio cada vez mais frequente nos níveis superiores do mundo empresarial e está diretamente relacionado com a competição, ao salário e o glamour.
Um dos seus pontos fortes é a grande capacidade de convencimento que possuem. Graças a isso, eles se cercam de um grande número de seguidores, são capazes de convencer sem fazer nenhum esforço. Em suma, conseguem sempre o que eles se propõem. Além disso, como não são empáticos, não são escrupulosos com os meios e as estratégias que utilizam para alcançar os seus objetivos.
O interesse e a preocupação dos narcisistas com os outros é zero, apesar da sua grande teatralidade. Eles não sentem remorso e são impassíveis às necessidades e sentimentos das pessoas ao seu redor.
Agora, o seu calcanhar de Aquiles é a sua autoestima. Os narcisistas, muitas vezes, têm uma autoestima muito baixa, que é acompanhada de uma vulnerabilidade interna e uma certa instabilidade. Por isso, geralmente procuram se relacionar com pessoas que consideram inferiores para exercerem o seu domínio e se sentirem poderosos.
Homem se olhando no espelho
O maquiavelismo
Para os “maquiavélicos”, o fim justifica os meios, independentemente das consequências que possam surgir. Geralmente são pessoas muito calculistas e frias, destruindo qualquer tipo de conexão emocional verdadeira com os outros. Embora possuam traços em comum com os narcisistas, como o egoísmo e o uso dos outros, há uma característica que os diferencia: são realistas nas percepções e estimativas que fazem das suas habilidades e dos relacionamentos que mantêm.
Os “maquiavélicos” não tentam impressionar ninguém, pelo contrário. Eles se mostram como são e preferem ver as coisas claramente, porque dessa maneira podem manipular melhor o outro. Na verdade, eles se concentram nas emoções das pessoas que querem manipular para obter o que querem. Se conhecerem os seus sentimentos, será mais fácil escolher a melhor estratégia para manipulá-lo.
De acordo com o psicólogo Daniel Goleman, as pessoas com características maquiavélicas podem ter uma menor empatia com os outros. A sua frieza parece derivar de uma falta no processamento tanto das próprias emoções quanto das dos outros.
Na verdade, para eles as emoções são tão desconcertantes que, quando sentem ansiedade, geralmente não sabem diferenciar se estão tristes, cansados ou simplesmente não estão se sentindo bem. No entanto, possuem uma grande capacidade de perceber o que os outros pensam. Mas, como diz Goleman, “mesmo que a sua cabeça saiba o que fazer, o seu coração não tem a menor ideia”.
A psicopatia, a personalidade mais perigosa da tríade obscura
Os psicopatas consideram as outras pessoas como objetos com os quais podem jogar e usar de acordo com a sua vontade. No entanto, ao contrário das outras personalidades da tríade obscura, quase nunca experimentam ansiedade e até mesmo parecem ignorar o que significa sentir medo.
A frieza do psicopata é extrema, por isso pode tornar-se muito mais perigoso do que as outras personalidades da tríade obscura.
Como não sentem medo, podem permanecer serenos mesmo em situações emocionalmente intensas, perigosas e aterrorizantes. Eles não se importam com as consequências das suas ações e são os melhores candidatos para se tornarem presidiários.
Os circuitos neuronais desse tipo de pessoas dessensibilizam o segmento do espectro emocional associado ao sofrimento. Por isso, a sua crueldade parece insensibilidade porque eles não conseguem detectá-lo. Além disso, o remorso e a vergonha não existem para eles.
No entanto, os psicopatas têm algumas facilidades para “se colocar no lugar do outro” e, assim, pressionar os botões apropriados para alcançar o seu objetivo. Eles são muito persuasivos. No entanto, esse tipo de pessoas, apesar de se destacarem na cognição social, caracterizam-se pela compreensão das relações e do comportamento dos outros apenas a partir de uma perspectiva lógica ou intelectual.
Como vemos, parece que o lado negro praticado pelos Sith em Star Wars não é tão irreal quanto pensávamos. A presença desta tríade obscura nos relacionamentos íntimos leva a maus-tratos através da violência psicológica. São personalidades tóxicas que estabelecem círculos de poder, controle, hostilidade e aprisionam mentalmente as suas vítimas.
A chave para não cair nas suas redes é trabalhar a nossa independência emocional. É preciso saber estabelecer limites claros nos nossos relacionamentos e não permitir que ninguém os ultrapasse. Sem dúvida, nos protegermos deve ser a nossa prioridade em todos os tipos de relacionamentos.


