Luto e coronavírus: a dor das despedidas pendentes.
Há momentos em que chegamos ao nosso limite. Sentimos uma carga emocional profunda, nos enchemos de raiva, impotência, frustração e muita dor. A crise atual nos leva a isso. Felizmente, são estados que podemos superar. Neste artigo, falaremos sobre a relação entre o luto e o coronavírus.
Lidar com as mudanças impostas pela crise global provocada por esse vírus não é um desafio fácil. Além disso, a maioria de nós deve passar por diferentes tipos de luto.
Para abordar esse assunto, nos aprofundaremos em teorias psicológicas sobre o luto e em pesquisas atuais relacionadas ao coronavírus. Muitas delas são tão recentes que foram colocadas em prática diretamente para lidar com essa situação.
Como observação prévia, vejamos a definição de luto. Em seu livro Pérdida, pena, duelo. Vivencias, investigación y asistencia, Jorge L. Tizón (2013) sugere que o luto é “um conjunto de fenômenos que são colocados em prática após a perda: fenômenos não apenas psicológicos, mas psicossociais, sociais, físicos, antropológicos e até mesmo econômicos”.
No entanto, devido ao coronavírus, houve uma série de mudanças em vários países do mundo. Essas mudanças causaram perdas – e, como consequência, lutos – em diferentes planos.
“Quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos”.
-Viktor Frankl-
Coronavírus: tipos de luto e suas manifestações
Quando se trata de luto, é comum experimentar as seguintes sensações:
- Fisiológicas. Vazio no estômago, aperto no peito e garganta, hipersensibilidade a ruídos, sensação de despersonalização, falta de ar, dor de cabeça, boca seca, palpitações.
- Comportamentais. Distúrbios do sono, isolamento social, chorar, suspirar, distração, etc.
- Afetivas. Raiva, culpa, ansiedade, apego, ausência de sentimentos.
- Cognitivas. Problemas de memória, atenção e concentração, pensamentos repetitivos, baixo senso de presença, entre outras.
Estas são algumas manifestações que costumam ocorrer, dando origem a um quadro único em cada pessoa. Que tipos de luto ocorrem por conta da crise por coronavírus? Eles podem ser diferentes de acordo com cada perda. Entre eles:
- Antecipado. É um processo de luto prolongado, que ocorre antes de uma perda. Geralmente se dá ao receber um diagnóstico de uma doença que não tem cura.
- Crônico. Também chamado de patológico ou complicado. É um luto não resolvido que ocorre quando a pessoa não consegue parar de reviver os processos relacionados à experiência de perda.
- Distorcido. Quando há uma reação desproporcional à situação.
- Ausente. Ocorre quando a pessoa nega a perda. Também é visto como uma das etapas do luto.
- Desautorizado. Quando aqueles que cercam as pessoas em luto não aceitam o luto e incentivam a contenção de qualquer manifestação que possa ser um reflexo dele.
- Inibido. Quando os sentimentos não são expressados e a dor da perda é evitada.
Existem outros tipos de luto de acordo com a perda. Por exemplo, o relacional, que tem a ver com a perda de pessoas em termos de morte e separações. Ou o material, relacionado a objetos e posses.
Além disso, levando em conta outras classificações, podemos dizer que o luto ocorre de acordo com fatores familiares e sociais, como a perda de autonomia ou funcionalidade, o isolamento social, a falta de recursos financeiros e a falta de apoio adequado.
Quanto ao luto no contexto do coronavírus, Cara L Wallace e seus colegas publicaram uma análise no Journal of Pain and Symptom Management, na qual sugerem que as políticas de distanciamento social, as restrições de visitantes em centros de saúde e o impacto da propagação do vírus agravam o luto.
Pensemos que as dinâmicas que acompanham o luto com as quais estávamos acostumados mudaram. Um exemplo seriam os rituais: em muitos casos, eles não podem ser realizados em companhia ou imediatamente após a perda.
Como lidar com a situação?
Quando vivemos um luto, passamos por diferentes estágios, e o luto relacionado ao coronavírus não é exceção.
Segundo a especialista em luto Elisabeth Kübler Ross, esses estágios são: negação, no qual adiamos a dor; raiva, no qual surge um ressentimento diante da frustração; negociação, no qual há uma tentativa de controle; depressão, caracterizada por um profundo sentimento de vazio; e aceitação, no qual há ressignificação e compreensão.
Para chegar a esse último estágio, é necessário:
- Expressar nossas emoções para liberar tensões e nos conectarmos com o nosso mundo emocional.
- Deixar ir essa situação que tanto nos domina. Embora seja doloroso, é importante deixar ir para poder fluir. Isso não significa esquecer nossos entes queridos ou como era nossa vida passada.
- Pedir ajuda. Diante da atual crise, surgiram muitos canais de chamadas telefônicas e de videoconferência de assistência à população. Além disso, lembre-se de que existem profissionais especialistas em luto, por exemplo, psicólogos, e também muitos profissionais oferecendo terapia à distância.
- Utilizar os recursos à disposição. O que podemos fazer com o que temos? Não nos esqueçamos de nenhum aspecto.
- Autocuidado. Não devemos deixar de lado a nossa saúde social; a distância física não significa isolamento social. Também não devemos esquecer nossa saúde física; estejamos atentos à nossa dieta, ao exercício físico e ao sono. Devemos procurar um psicológico e separar tempo para fazer algo de que gostamos, refletir e liberar tensões.
Algumas pesquisas, como a de Cyrus SH Ho, Cornelia Yi Chee e Roger CM Ho, defendem a psicoeducação e a intervenção psicológica online. Por sua vez, praticar mindfulness, colocar em prática técnicas de relaxamento, gerenciar o estresse e meditar nos permite obter serenidade.
Em suma, o luto relacionado ao coronavírus é um processo muito particular por conta das circunstâncias em que ocorre. Nesse sentido, é mais provável que o luto se torne mais complicado, porque alguns de nossos recursos mais poderosos estão indisponíveis devido à situação.
Falamos, por exemplo, do contato físico ou cara a cara. Por isso é tão importante utilizarmos os recursos que temos ao nosso alcance, especialmente aqueles que temos à nossa disposição graças à tecnologia.



