Fracasso escolar ,de quem é a culpa?
: de quem é a culpa? • Conceituar o Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação; • Diferenciar Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação de Transtorno Especíico da Aprendizagem; • Estabelecer os principais prejuízos ao desenvolvimento psicomotor causado pela Disgraia. 1 Introdução O fracasso escolar se conigura atualmente como um problema social que vem aligindo os sistemas escolares em todos os níveis e tem trazido problemáticas à pessoa com diiculdades de aprendizagem, à escola e às famílias. A escola e a família, aparentemente, tem se colocado à disposição para a superação dos problemas que levam ao fracasso escolar, seja pela busca incessante dos pais por um atendimento de proissionais que saibam lidar com o problema ou por medidas do próprio sistema educacional a partir de medidas como a reestruturação organizacional a partir da legislação, de programas de incentivo a leitura, escrita e ao cálculo. Um dos grandes fatores que tem levado nas últimas décadas a busca por novas formas de lidar com este problema é devido às taxas de evasão e reprovação que estão com alto nível, principalmente nas séries inais do ensino fundamental e nos anos iniciais do ensino médio. Com isso, programas governamentais tem sido implantados e implementadas com a intenção de dar subsídios à escola 82 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO tão negativos, inl uenciado diretamente nas formas de avaliação, nos direcionamentos das ações escolares, na prática do professor e na busca pela autonomia do aluno. Porém, apesar dessa busca por melhores condições e para se evitar o fracasso escolar, ao se investigar como se dá a aprendizagem de uma pessoa com dii culdades de aprendizagem e porque muitas dessas crianças apresentam em seu histórico o fracasso escolar, devemos buscar a origem do problema, o que ai nal leva alunos a desistirem ou a ter dii culdades em aprender e, ai nal questionar: de quem é a culpa? 2 o fracasso escolar O fracasso escolar tem sido um fantasma na vida de muitas crianças e adultos que apresentam transtornos que causam prejuízos à aprendizagem, pois sem dúvida o fracasso ele causa sofrimentos e traz grandes consequências a vida acadêmica e social. Pais, professores e cientistas têm demonstrado cada vez mais preocupação ao ter que lidar com o fracasso escolar por isso, tentam chegar a uma ou algumas formas de lidar com esta situação. Segundo Cordié (1996 apud BOSSA 2001 p.18) o fracasso escolar tem suas raízes históricas no século XIX quando a escolaridade passou a ser obrigatória por conta das questões econômicas e estruturais. Cordié (1996 apud BOSSA 2001 p.18) ressalta que não é apenas o as exigências da sociedade moderna que causa os transtornos de aprendizagem, “mas um sujeito que expressa seu mal-estar na linguagem de uma época em que o poder do dinheiro e o sucesso social são valores predominantes” sofre a pressão social e, a este sujeito que sofre com as exigências e pressões sociais tem apenas a escola como um espaço de escape. Quer saber mais sobre fracasso escolar? Leia o livro “Fracasso Escolar Um Olhar Psicopedagógico” da Dra. Nádia Bossa. Este livro apresenta um estudo profundo, apoiado em uma prática clínica de 20 anos, sobre o sintoma escolar considerado em sua dimensão social e em sua singularidade. O leitor encontrará subsídios teóricos com interfaces no âmbito social e cultural, fundamentados na psicopatologia e na psicodinâmica atuais e em uma rel exão instigante sobre o papel da escola nesse fenômeno, descritos de forma muito clara. Trata-se de uma referência única sobre as dii culdades de aprendizagem escolar, incluindo os transtornos de déi cit de atenção, incluindo os transtornos de leitura e de escrita, a dislexia, os transtornos de conduta, entre outros problemas especíi cos que levam no fracasso escolar. Fonte: https://www. grupoa.com.br FRACASSO ESCOLAR: de quem é a culpa? | UNIDADE 4 83 Fracassos escolares sucessivos podem causar ao aluno vínculos negativos com a aprendizagem, a desmotivação para aprender e sérios problemas na autoestima, o aumento crescente dos problemas de aprendizagem e a formação precária dos alunos e, de maneira geral problemas crônicos no sistema educacional (BOSSA, 2001).
Mas, de quem é culpa do fracasso escolar? Do aluno que é desinteressado? Dos transtornos de neurodesenvolvimento e suas origens em fatores hereditários, genéticos e suas associações às causas neurológicas? Da escola, que se exime em desempenhar seu papel de educar? Das políticas públicas que não são implementadas? Da família que se esquece de sua obrigação em educar? Ainal, de quem é a culpa? 2.1 a culpa é da avaliação? A educação segundo uma concepção pedagógica tradicionalista é encarada como transmissão e memorização de informações preconcebidas e o aluno (Figura 1) e visto como simples receptador destas informações contrapondo a famosa educação bancária tão criticada por Paulo Freire, mas que continua presente nos dias atuais. figura 1 - Para o Chico Bem a culpa é de quem? Fonte: www.portalprofessor.mec.gov.br A avaliação, nessa concepção é associada a “fazer prova”, “tirar nota”, “passar de ano” etc. Muitos professores imbuídos desta concepção veem na avaliação uma arma de tortura para alunos indisciplinados. 84 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Segundo Haidt (2002), com a modernização da sociedade e da escola, surge uma concepção pedagógica que possui uma visão bastante diferente, em que a educação deverá ser concebida a partir da vivência de experiências múltiplas e, variadas tendo em vista o desenvolvimento da motricidade, da cognição, das questões afetivas e sociais do educando. Haidt (2002) airma que o educando não é mais apenas um receptador de informações, e sim, se mostra um ser ativo e também dinâmico, que participa da construção de seu próprio conhecimento. Portanto, a partir dessa visão de educação, o conceito de avaliação também assume outros moldes, ela não é mais atribuição de notas, mas sim de veriicar em que medida os alunos estão alcançando os objetivos propostos para o processo ensino-aprendizagem, sendo que “tais objetivos se traduzem em mudança e aquisição de comportamentos motores, cognitivos, afetivos e sociais” (HAIDT, 2002, p. 287). A avaliação, nesse sentido, assume um caráter orientador e cooperativo, pois como airma Haidt (2002, p.287), ela “ajuda o aluno a tomar consciência de seus avanços e diiculdades, para que ele possa progredir na construção do conhecimento”. Daí a airmação de que “a educação renovada não mudou apenas os métodos de ensino, mas também a concepção de avaliação” (HAIDT, 2002, p.14). Haidt (2002) airma que a avaliação tem a função não apenas de avaliar os alunos como também o desempenho do professor como relexo do que a turma aprend FRACASSO ESCOLAR: de quem é a culpa? | UNIDADE 4 85 Este fator remete a outra função, que é fazer parte do aperfeiçoamento do processo ensino aprendizagem, visto que desta forma o professor poderá com maior segurança adequar os métodos e técnicas ao peril da classe, atendendo suas necessidades. A avaliação formativa deverá ser realizada com harmonia com a avaliação somativa, a qual tem função classiicatória, proporciona comparação, competição e seleção, a unidade das duas buscas além da promoção dos alunos de uma classe à outra, a internalização dos conteúdos. Para o professor Gadotti (1990, p. 7) “reletir é também avaliar, avaliar é também planejar, estabelecer objetivos” etc., ou seja, há uma relação entre avaliação e objetivos previamente estabelecidos. Para o autor, avaliação é uma questão política. A avaliação, de forma ampla, é um meio para se comprovar a efetivação ou não dos objetivos pré-estabelecidos pelo docente em seu plano de ensino, a im de nortear a sua prática e o verdadeiro aprendizado dos alunos. Logo, é inevitável que objetivos e avaliação estejam intimamente ligados no processo educativo. Ao se estabelecer objetivos se torna mais claro o que avaliar e como avaliar o aprendizado. O professor não pode de forma alguma cobrar de seus alunos algo que não fez parte desse processo, pois estaria fugindo dos verdadeiros propósitos da avaliação. Segundo Gadotti (1990), a avaliação também se constitui como uma questão política. Ele assim airma no sentido de poder servir como um instrumento de poder, de julgar. Isso se vê em sala de aula quando uma nota serviu para comparar os alunos: aqueles que atingiram notas mais altas são os mais inteligentes, merecem maior atenção do professor e dos colegas; e aqueles que conseguiram notas baixas da média são julgados os piores, problemáticos, sem solução e desprezados pelos colegas e muitas vezes pelo próprio professor. Ou ainda, vê a avaliação como instrumento de crescimento qualitativo para ambos, professor e aluno, pois a partir dela as falhas e os acertos icam mais evidentes, deixando mais explícito o que deve ser melhorado, abandonado, pondo em prático a partir do ponto de vista do outro. Ainal, quando o professor avalia o aluno ele também está se avaliando, pois de certa forma o aluno relete a postura, os ensinamentos, os conteúdos, as atitudes do professor. 86 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO 2.2 atribuindo culpa a escola A escola, como instituição social e representante da ideologia do estado cobra mais do que oferece um espaço para uma aprendizagem signii cativa, conduzindo o aluno a apresentar problemas de aprendizagem resultantes não de transtornos do neurodesenvolvimento, mas advindos de um planejamento pedagógico que não foi pensado para atender suas necessidades educacionais e que apenas visa cumprir a demanda de conteúdo. A escola, em seu papel de instituição responsável pela vida acadêmica, tem se omitido no cumprimento de seu papel, preferindo atribuir ao aluno e aos transtornos do neurodesenvolvimento a culpa pelo fracasso escolar. Este espaço que tem como meta a promoção de melhores condições da vida tem falhado ao dar mais ênfase aos resultados do que ao processo como um todo. Seja na falta de recursos lúdicos na educação, quer seja na organização dos horários apertados nos ensinos fundamental e médio, a escola tem se proposto apenas enxergar os resultados que serão obtidos ao i m de cada semestre letivo, atribuindo conceitos e notas que muitas vezes não correspondem ao verdadeiro desempenho e potencialidades do aluno. A escola é cumplice das notas baixas e dos problemas na aprendizagem que muitos alunos têm apresentado quando se fala de causas relacionadas ao ambiente, pois é a partir de suas ações que o aluno desempenha o seu papel de discente, de sujeito que aprende. Porém, esta instituição social não pode ser culpada por todas as suas ações sem antes se analisar a situação do sistema educacional como um todo. O fracasso escolar é visto atualmente como um problema (Figura 2) crônico existente no sistema educacional, principalmente no Brasil onde as taxas de evasão escolar se tornam cada vez mais problemáticas, em que no ano de 2013, nos anos iniciais do ensino fundamental a cada 100 alunos, 15 estavam com atraso escolar em 02 ou mais anos (Inep, 2013. Organizado por MERITT, 2014.). Assista ao i lme: entre os muros da escola (2008). O i lme é do diretor Laurent Cantet. A trama conta a história de Fraçois e seus colegas professores que preparam o novo ano letivo de uma escola da periferia parisiense. Munidos de boas intenções, eles se apoiam para tentar manter vivo o estímulo de dar a melhor educação a seus alunos. Na sala de aula, um microcosmo da França contemporânea, choque entre as diferentes culturas dos jovens que por mais inspiradores e divertidos que sejam, desanimam seus professores e os desestimulam com seus projetos de melhorias que benei ciariam os adolescentes. fonte: https://www. sescamapa.com.br/ cinema/sinopse-doi lme-entre-os-murosda-escola FRACASSO ESCOLAR: de quem é a culpa? | UNIDADE 4 87 figura 2 - Grái co com Taxas de Rendimento segundo indicadores do INEP/2013. Fonte: Inep, 2013. Organizado por Meritt, 2014. Apesar de ter alcançado na rede pública a meta proposta, o Ideb (2013) não obteve êxito total nas taxas de aprendizado em nenhuma das etapas escolares e deve garantir formas de proporcionar educação de qualidade aos alunos. Bossa (2001, p. 18) ao comentar sobre a educação brasileira lembra que “o sistema escolar ampliou o número de vagas, mas não desenvolveu uma ação que o tornasse ei ciente e garantisse o cumprimento daquilo que se propõe, ou seja, que desse acesso à cidadania”. 2.3 o professor, a autonomia do aluno com dii culdade de aprendizagem e a Culpa do fracasso escolar Concentrando-se não somente na ênfase de ensinar por ensinar, encontramos em Freire (2004), a consistência de uma pedagogia voltada para o saber sobre as verdadeiras necessidades da prática educativa (Figura 3) para lutar contra o fracasso escolar. Portal QEdu - Meritt e Fundação Lemann(2014), acese o site:https://www.qedu. org.br e analise as taxas de evasão escolar. 88 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO figura 3 - As fragilidades no uso das estratégias metodológicas podem ocasionar diiculdades de aprendizagem em disciplinas como a matemática Fonte: https://conexaoeducandoeaprendendo.blogspot.com.br/ Dentro de uma perspectiva verdadeira de ensinar para formar cidadãos, pauta-se a pedagogia da autonomia direcionada ao aluno, este na visão de Freire (2004) não é apenas uma tábula rasa ou um mero receptor que deve ser alienado pela ideologia dominante e receber toda a autoridade do professor como se ele detivesse todo o saber. A humanidade vai caminhando a partir de uma educação direcionada ao autoritarismo, à hierarquia e a corrida da sociedade para lugar algum. Nesta visão é que se encaixa a necessidade de uma educação voltada para a caminhada – em conjunto – da docência com a discência, onde não pode ser aceitável a crença que ensinar é transferir conhecimento e, sem dúvida ensinar deve tornar-se uma especiicidade humana. Aqui nos restringiremos a partir destas airmações, ao ponto de que ensinar não é transferir conhecimento e sim, dar possibilidades ao educando quanto ser autônomo e possuidor de conhecimentos. Ainal, antes de qualquer formação ou vivência escolar o aluno tem uma cultura ao chegar à escola que é diferente do professor, mas esta não é “pior, ou melhor,”. Ao professor, segundo Freire (2004), cabe educar para a consciência, e nunca propor apenas a sua visão como a única, a verdadeira e correta. O aluno deve sempre ter autonomia para escolher o caminho a seguir (Filme: Escritores da Liberdade). FRACASSO ESCOLAR: de quem é a culpa? | UNIDADE 4 89 O educador deve sempre compreender que é um ser inacabado, predisposto ao erro, que tem suas falhas e suas potencialidades também, contudo não é o dono do saber, por esta razão é que deve sempre buscar a transformação. Ele deve reconhecer que está condicionado, às questões que a sociedade o impõe, pois por mais que acredite que se mantém distante das questões ideológicas, o docente sempre está envolvido, mesmo que subjetivamente, aos aspectos ligados à política, a economia e a todas as variáveis que são coordenadas pelo estado. Em situações de alunos com dii culdades de aprendizagem, faz-se necessário ao educador que ele tenha bom senso para tentar intervir e ajudar o aluno em seu déi cit, pois como cita Freire (2004) sobre sua própria perspectiva quanto educador: É o meu bom senso que me adverte de que exercer a minha autoridade de professor na classe, tomando decisões, orientando atividades, estabelecendo tarefas, cobrando a produção individual e coletiva do grupo, isto não é sinal de autoritarismo de minha parte. É a minha autoridade cumprindo o seu dever (FREIRE, 2004, p. 61). É, exatamente, nesta autoridade citada por Freire (2004), que o educador deve permanecer e que deve entender que não é só ser o “chefe” da sala, é exercer a autoridade mais sem perder a visão e a postura de conselheiro, de orientador, é por o ato de educar como um ato de amor e de orientação, possibilitando um espaço facilitador de aprendizagem para aqueles alunos que sofrem por conta de suas dii culdades de aprendizagem e problemas de evasão e fracasso escolar. Apesar do espaço de trabalho educacional encontrar-se tão sucateado, o educador não deve perder a compostura da proi ssão tão espetacular e difícil que ele deve exercer. Contudo, há sim lutas, pois “ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores” (FREIRE, 2004, p. 74). É a partir da proposta desta visão de lutas e pelo designo que a proi ssão de professor traz, é que ele deverá propor situações de aprendizagem facilitadoras a partir da realidade do aluno, propondo as razões educativas a partir do lado substantivo dos objetivos a serem apreendidos. Assista ao i lme: escritores da liberdade (2007). SINOPSE: Hilary Swank, duas vezes premiada com o Oscar, atua nessa instigante história, envolvendo adolescentes criados no meio de tiroteios e agressividade, e a professora que oferece o que eles mais precisam: uma voz própria. Quando vai parar numa escola corrompida pela violência e tensão racial, a professora Erin Gruwell combate um sistema dei ciente, lutando para que a sala de aula faça a diferença na vida dos estudantes. Agora, contando suas próprias histórias, e ouvindo as dos outros, uma turma de adolescentes supostamente indomáveis vai descobrir o poder da tolerância, recuperar suas vidas desfeitas e mudar seu mundo. Com eletrizantes performances de um elenco de astros, incluindo Scott Glenn (Dia de Treinamento), ImeldaStauton (Harry Potter e a Ordem da Fênix) e Patrick Dempsey (Grey’sAnatomy), ganhador do Globo de Ouro. Escritores da Liberdade é baseado no aclamado best-seller O Diário dos Escritores da Liberdade. fonte: https://www. laprev.ufscar.br/sinopsei lmes/escritores-daliberdade 90 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO A educação direcionada a alunos com transtornos de aprendizagem deverá estar disponível para exercer sua função durante o ato de aprender, pois este se deve por conta da construção da revisão dos conhecimentos. Ainal, como cita Freire (2004, p.69), “aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito”. Contudo, como airma Freire (2004) esta relação de apreender e aprender exige do educador alegria, esperança e disposição. A alegria deve- se ao ato de gerir uma educação que se torne saborosa tanto para o educando que se encontra com limitações signiicativas na aprendizagem quanto para ao educador, que tem um grande desaio em sua ação. Já, a perspectiva da esperança relaciona-se a questão que tanto aluno quanto professor deverão ter prazer no desenvolvimento do ato educacional, seja na produção, no aprendizado ou na busca por novos conhecimentos. A esperança é o centro que guia o homem quanto ser social e ao mesmo tempo subjetivo, é a esperança que guia o homem para desejar um futuro “melhor”, ou que até mesmo dá ao homem a perspectiva que não vai conseguir caminhar mais alguns metros até chegar aos seus objetivos. Ter esperança é, fundamentalmente, acreditar que a mudança é totalmente relevante e que ela é sempre possível, apesar de algumas falhas no sistema educacional e nos próprios atos dos próprios professores. Mas, não há esperança e mudança se o ato educativo não despertar curiosidade tanto no agente, quanto no paciente da relação. É aqui que a criatividade do professor deve manter-se em ascensão, para poder dar solidez às necessidades, dúvidas e impasses que vão sendo criadas na mente do educando com diiculdades de aprendizagem. Estas, o levarão a querer descobrir mais sobre um determinado assunto que foi proposto nas atividades nas aulas. Se o professor assumir uma postura de renúncia de suas próprias versões e começar a dar mais espaço para que o aluno trabalhe, certamente ele adquirirá autonomia para verbalizar suas curiosidades que foram excitadas pelo conhecimento recebido a partir de determinado assunto. Compreendemos então, que uma pedagogia voltada para a autonomia do aluno com diiculdade de aprendizagem e do professor que busca FRACASSO ESCOLAR: de quem é a culpa? | UNIDADE 4 91 ser um facilitador, só poderá ser verdadeira se partir da premissa de que todos são agentes da sociedade e que são capazes de transformá-la partindo das construções realizadas no ato de ensinar. A partir destas construções, e de outros aspectos fundamentais do “ensinar é [....]”, é que Freire (2004) vai despertando um sentimento de propor a conscientização em cada um dos educadores que se propõe ao verdadeiro ato de excitar os alunos a ver e a construir seu mundo, partindo do pressuposto que a todos tem autonomia para transformar a sociedade a partir da transformação de sua própria mente e do despertar para as questões sociais. 2.4 atribuindo Culpa a família A família, como instituição formadora, busca em sua raiz preparar o sujeito para as vivências que fazem parte da sociedade, visto ser nela o ambiente em que o sujeito recebe os primeiros ensinamentos e observa os ensinamentos dos adultos. Moreno e Sastre (2002) explicam que os fundamentos éticos que governam a pessoa são estabelecidos nesta instituição social. A inluência da família é algo profundo, duradouro e que contagia todo o ser. A família transmite ao sujeito a base de toda a sua formação, orientando as escolhas que deverão tomar a cada nova situação que lhe é proporcionada nas relações sociais em que ele está contido mesmo que de forma informal e intuitiva. Moreno e Sastre (2002) airmam que: “a família é um agente transmissor de valores sociais”, devido a essa condição de se relacionar e restabelecer, a cada nova situação, tornando o que é espontâneo em uma ação formalizada e o que é intuitivo em algo sistemático. As famílias (Figura 4) desempenham um papel fundamental para a formação do indivíduo, para seu desenvolvimento e aprendizagem. Nas relações familiares é que se aprende desde o início ações que despertaram o interesse para o estudo, por exemplo. 92 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO figura 4 - A ausência da família tem sido um grande fator para as causas da dii culdade de aprendizagem Fonte: https://sandiabooks.com. É importante ressaltar que as escolas com melhores resultados são, normalmente, aquelas que conseguem criar as condições propícias a uma colaboração das famílias na vida escolar (NÓVOA, 1992). É preciso romper, de uma vez por todas, com a ideia de que as escolas pertencem à corporação docente e não a sociedade. Entre as dii culdades encontradas pelos professores a ausência da participação dos pais nas reuniões de pais e mestres para integração da família com as atividades escolares, bem como o acompanhamento do rendimento escolar dos seus i lhos e discussão de problemas pertinentes à comunidade escolar. Os pais, enquanto grupo interveniente no processo educativo, devem apoiar ativamente, às escolas e participar na elaboração do conjunto de decisões que lhes dizem diretamente respeito. Numa perspectiva individual, os pais podem ajudar a motivar e a estimular os seus i lhos, associando-se aos esforços dos proi ssionais do ensino. A família participante é um fator primordial para o êxito do processo de aprendizagem da criança com dii culdade de aprendizagem. Este processo deve ser contínuo, seguido de forma estruturada e organizada. O fator psicológico segundo Guerra (2007, p.208) interfere na aprendizagem, pois ao expor uma criança a uma situação de um ambiente familiar agressivo ou mesmo colocá-la em uma situação que gere insegurança, com muitas mudanças “o seu cérebro estará processando os estímulos gerados por essas mudanças de forma a produzir um comportamento que a adapte melhor às situações vividas, que chamaremos de risco”. FRACASSO ESCOLAR: de quem é a culpa? | UNIDADE 4 93 Carvalho e Guerra (2010, p.328) ressaltam que “a identiicação da diiculdade de aprendizagem possibilita o reconhecimento de problemas que, mesmo não apresentando solução deinitiva, permite encaminhamento e intervenção adequados pela equipe multidisciplinar”. Os autores enfatizam que estão incluídos neste grupo a escola e a família, ambas tem o papel de acompanhar o desenvolvimento da criança, buscando superar os transtornos de aprendizagem. resumo Nesta unidade, estudamos que as causas do fracasso escolar têm sido analisadas a partir dos prejuízos que ele proporciona a pessoa com diiculdades de aprendizagem. Porém, observamos que cada um dos meios em que o aluno está inserido, é de certa forma responsável pelo baixo rendimento escolar e pelos problemas na vida social e acadêmica. atividades de aprendizagem 1. Discuta com seus colegas as principais causas do fracasso escolar. 2. Para você, que são os culpados pelo fracasso escolar? 3. Quais as melhores formas de se combater o fracasso escolar? 94 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO referências BOSSA, Nádia. fracasso escolar: um olhar psicopedagógico. São Paulo: Editora Penso, 2001. CORDIÉ, A. os atrasados não existem – psicanálise de crianças com fracasso escolar. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. FREIRE, Paulo. pedagogia da autonomia: Saberes necessários à prática educativa. 30. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2004 (Coleção Leitura). HAIDT, Regina Célia Cazaux. Curso de didática Geral. São Paulo: Ática, 2002. GADOTTI, Moacir. pensamento pedagógico Brasileiro. São Paulo: Editora Ática, 1990. GUERRA, LB. Neuropsicologia e educação: perspectiva transdisciplinar. In: MACEDO, E.C., MENDONÇA, L. I. Z., Schlecht, B.B.G., ORTIZ, K.Z., AZAMBUJA, D. A. avanços em neuropsicologia: das pesquisas à aplicação clínica. São Paulo: Livraria Santos Editora, 2007. p. 207-219. MORENO, Montserrat; SASTRE, Genoveva. resolução de conlitos e aprendizagem emocional: gênero e transversalidade. São Paulo: Moderna, 2002. NÓVOA, Antonio. os professores e a sua formação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1992.


