Explosões de raiva: temperamento ou transtorno?

20/04/2020 19:32

 

Quando as explosões de raiva são frequentes, não é mais uma questão de temperamento, e sim um transtorno que deve ser atendido por um profissional de saúde mental, pois pode gerar sérias consequências.

Quase todo mundo já teve explosões de raiva alguma vez na vida. São momentos em que perdemos o controle e a raiva toma conta do nosso pensamento, nossa linguagem e nossas ações. Há uma perda temporária de consciência e a única coisa que se fixa em nossa mente é o ataque: um desejo irreprimível de ferir.

Nas explosões de raiva, o cérebro é desligado e a fera que todos temos dentro se acende. É uma faceta selvagem à qual nunca renunciamos completamente. No entanto, muitos de nós conseguem moderar esses instintos furiosos e só raramente eles vêm à luz em condições verdadeiramente extremas. Outros, por outro lado, levam a fera para passear toda vez que são contrariados.

“Não faça nada com a fúria da paixão; é como ir ao mar no meio de uma tempestade”.
-Thomas Fuller-

A pergunta que anima essa reflexão é a seguinte: essas explosões de raiva são simplesmente uma característica do temperamento que algumas pessoas têm? É verdade que existem indivíduos que são mais dados a emoções exaltadas, mas até que ponto isso é normal e em que momento isso se torna o sintoma de um distúrbio?

As explosões de raiva

A raiva nasce de duas fontes básicas. Uma é o medo, em qualquer uma de suas formas: o medo em si, ansiedade, angústia, pânico, etc. A outra é a frustração, também em qualquer das suas formas: não se sentir confortável consigo mesmo, não alcançar objetivos ou desejos, ver que as coisas não são como queremos.

Mulher explodindo de raiva

 

Quando uma pessoa sente raiva frequentemente, o comum é que existam crenças errôneas que a levam a interpretar a realidade de maneira assustadora ou frustrante. Estas são algumas dessas crenças equivocadas:

  • Os outros podem me machucar com facilidade. Isso leva a reações iradas a qualquer sinal de desaprovação ou rejeição.
  • Os outros têm que agir em prol do meu bem-estar e meus desejos. Isso leva a intolerâncias diante das ações dos outros quando contradizem o que queremos, pensamos ou sentimos.
  • Não deve haver obstáculos para alcançar o que eu quero. O aparecimento de alguma barreira desencadeia a raiva e, às vezes, explosões de raiva.
  • Os outros devem ler meus pensamentos e estar cientes dos meus sentimentos. Se eles não entenderem instantaneamente ou se não levarem em conta meu estado emocional, vou tratar a situação como um ataque.
  • Não posso nem devo admitir que me sinto frustrado. Isso é para os fracos. Eu sempre tenho que me mostrar forte, mesmo que assim acumule ansiedade em excesso.

O ciclo da raiva

Explosões de raiva são o resultado de ansiedades ou medos acumulados. Começam a incubar quando não atendemos a pequenos desconfortos que pouco a pouco se tornam frequentes. Tudo começa com um leve desconforto consigo mesmo, com alguém em particular ou com o mundo em geral.

Ciclo das explosões de raiva

 

Com o tempo, a pessoa sente esse desconforto e o processa, mas não o expressa ou administra. Fica com a ideia de que isso será diluído ou de que deveria simplesmente seguir em frente. Mas como a realidade que a incomoda não muda, os primeiros sintomas da raiva aparecem. Críticas ácidas, sarcasmos ou pequenas expressões de rejeição.

Apesar disso, o afetado continua tentando não prestar muita atenção à situação desconfortável. Tenta virar as costas, ignorá-la ou afastar-se dela. A qualquer momento há um gatilho que desencadeia a explosão de raiva e é aí que tudo sai de controle, dando origem a novos ciclos de conflito e raiva.

O distúrbio explosivo intermitente

O distúrbio explosivo intermitente é uma condição mental na qual existem expressões frequentes de raiva extrema em resposta a situações que não justificam tais explosões. Do ponto de vista psiquiátrico, é classificado como transtorno de controle de impulsos. Cleptomania, jogos de azar e piromania, entre outros, pertencem a esse mesmo grupo.

Aqueles que sofrem desse distúrbio apresentam breves surtos de raiva, nos quais experimentam uma sensação de liberação e/ou prazer ao ter explosões de raiva. No entanto, alguns minutos depois, eles sentem remorso. O mais comum é que eles destruam objetos ou ataquem fisicamente as pessoas. O gatilho geralmente é algo sem importância. Além disso, costumam ser pessoas com altos níveis de ansiedade.

Explosões de raiva: temperamento ou transtorno?

 

Com tudo que vimos, fica claro que se uma pessoa tem explosões frequentes de raiva sem razão e se torna violenta, ela precisa de ajuda profissional. Não é uma questão de temperamento, mas um problema que vai além e requer atenção antes de alcançar consequências mais sérias.

Todos nós podemos perceber quando estamos chateados, ou quando nos comportamos de maneira rancorosa e vingativa. No entanto, sabemos identificar bem a situação que nos deixa com raiva? Como podemos aprender a controlar a raiva e a mostrar nosso ódio no momento certo e com a pessoa adequada? Tudo isso requer um grande trabalho pessoal.

Aprender a controlar a raiva é um desafio que muitos não superam. Trata-se de aprender a tolerar a frustração e saber canalizá-la de forma adequada para não desviá-la nem afetar mais campos do que deveria, nem por mais tempo do que é permitido. Controlar a raiva requer um trabalho intrapessoal, isto é, consigo mesmo, e interpessoal, com os outros.

Daremos um exemplo para entender a importância de saber como controlar a raiva. Um casal tem uma discussão em casa, gritam um com o outro e o assunto fica por isso mesmo. Um dos membros do casal chega ao seu trabalho e, diante de uma pequena falha dos subordinados, dá uma bronca intensa sem permitir uma retórica.

Esta pessoa, diante da impossibilidade de demonstrar por que cometeu esse erro, chega em casa e se irrita com o filho por não obedecê-lo e o castiga. O filho, por sua vez, quando chega na escola, discute com um colega. Assim, poderíamos formar uma cadeia infinita que poderia ter acabado com o casal, resolvendo o problema conversando e defendendo cada um o seu ponto de vista.

Aprender a controlar a raiva é aprender a administrar e canalizar a frustração.

Casal brigado

Identificar a situação que desperta a raiva

Talvez o erro esteja em acreditar que são as circunstâncias externas e os outros que provocam a raiva, mas na realidade isso é algo pessoal. Nem todos ficamos com raiva nem nos irritamos sempre com a mesma coisa. Portanto, o primeiro desafio é identificar quais atos ou palavras específicos acionam nosso alarme.

Quando sou capaz de identificar esse primeiro fato, posso trabalhar nele e pará-lo. Conhecer a mim mesmo me dá as ferramentas para saber que há coisas que não posso tolerar porque afetam uma parte de mim de que não gosto, não conheço, e tenho que seguir trabalhando nela.

Ficar com raiva é normal e saudável, mas nossa responsabilidade também é saber como controlar a raiva com a pessoa adequada e no momento certo, não deixar que ela se prolongue e aprender a comunicar aquilo de que não gostamos e que nos causa infelicidade. Calar o que nos irrita não é uma solução permanente para o problema.

Saber comunicar para controlar a raiva

A melhor técnica para comunicar o que nos desagrada pode ser esquematizada em diferentes etapas. O prólogo será nos acalmarmos para conversar tranquilamente e buscar soluções. Pensemos que os gritos raramente levam a um bom entendimento. As etapas seguintes podem ser:

  • Mostrar como eu me sinto: é importante falar sobre a forma como eu me sinto, e não sobre a ação ou as palavras do outro. É diferente dizer “Me sinto excluído quando você não faz planos comigo” e “Sinto raiva quando você sai com seus amigos”.
  • Contextualizar o problema: evitar usar expressões como sempre, nunca, todo mundo… Saber como limitar e concretizar um problema também ajuda a comunicá-lo e resolvê-lo melhor. Por exemplo: substituir o “Você está sempre com eles” por “Você tem dedicado vários dias a estar com um deles”.
  • Mostrar meu desejo: aqui é o momento de mostrar o que realmente gostaríamos, por exemplo: “Gostaria que você continuasse fazendo planos com seus colegas, mas que não deixasse de separar um tempo para dedicar a nós dois”.
  • Mostrar empatia: tentar entender por que o outro agiu de uma forma específica nos ajuda a não sentir as ações ou as palavras como uma ofensa, o que permite resolver a situação de uma maneira mais eficaz: “Entendo que você goste de passar um tempo junto com os seus colegas de vez em quando”.
  • Propor soluções: aqui está o desafio mais importante: não só mostro como me sinto, mas também o que quero alcançar “Poderíamos encontrar algum espaço para continuar fazendo atividades juntos”.
Casal sentado junto

 

O desafio de aprender a controlar a raiva requer trabalho e prática, mas seus resultados melhoram o bem-estar e as nossas relações, tanto com nós mesmos quanto com os outros. Não adie mais o trabalho e comece a se dedicar a este desafio. Você sabe como controlar a raiva?

odos já vivemos situações que nos deixaram tão zangados que sentimos como se a raiva aumentasse sem poder ser remediada. Quem não notou como uma simples faísca acendia um fogo que se estendia por todo o nosso ser? O pior é que esta fúria incontrolável nos levou a dizer e fazer coisas das quais nos arrependemos profundamente mais tarde.

O fato é que não nos sentimos mal apenas por nós mesmos, mas também pelas pessoas que nos rodeiam. Acontece que muitas vezes machucamos os nossos entes queridos com a nossa raiva. Isso acontece inclusive quando não há relação com a causa da nossa irritação. Na verdade, essas pessoas muitas vezes recebem a nossa ira por tentarem nos acalmar.

O que é a raiva e quais são as implicações para aqueles que a sentem?

Vamos começar pelo princípio: o que é a raiva? A raiva é uma emoção que produz sentimentos desagradáveis para quem sofre dela. Ela faz com que o corpo passe de um estado de tranquilidade para um estado de grande ativação, para responder através da defesa ou do ataque.

Costumamos senti-la sobretudo em situações interpessoais, ou seja, quando estamos nos relacionando com outras pessoas. Se, em uma dessas situações, avaliamos que a pessoa está nos atrapalhando de forma injustificada e intencionada a atingir uma meta valiosa, surge a raiva.

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Neste momento, sentimos que os nossos interesses estão sendo ameaçados e que devemos agir para defendê-los. O fato é que a raiva geralmente começa com níveis relativamente baixos de desconforto. Mas se não gerirmos essa irritação inicial de forma eficaz, ela pode ir aumentando até explodir.

Já foi demonstrado que apresentar uma tendência elevada para responder com raiva em condições distintas influencia a saúde de forma notável. Em primeiro lugar, gera um conjunto de situações desagradáveis para quem a sente. Mas não é só isso, esse é também um indicador da presença de transtornos afetivos, como a depressão.

Além disso, é uma variável que se deve ter em conta no tratamento e na reabilitação de diversos problemas neuropsicológicos, como aqueles associados com o dano cerebral traumático ou com o alcoolismo, como demonstra um estudo da Universidade Camilo José Cela. Por outro lado, isso influencia vários problemas físicos. Alguns exemplos são os transtornos cardiovasculares, o câncer, as úlceras, o tabagismo, etc.

Quando sou invadido pela raiva, como as pessoas ao meu redor percebem isso?

A raiva influencia não só a nossa própria saúde, tanto física como mental, mas também tem consequências no nosso ambiente social. Olhando pelo outro ponto de vista, como nos sentimos quando alguém fica irritado e projeta sua ira em relação a nós?

A resposta pode variar em função de uma série de circunstâncias: se realmente somos nós os “culpados” justificados de sua raiva ou não; as estratégias que a outra pessoa utilizou para nos informar; se atuou de forma medianamente tranquila ou se, pelo contrário, desenvolveu condutas altamente agressivas em relação a nós. Estes, entre outros fatores, vão influenciar as interpretações que fazemos da situação e, em consequência, as emoções que irão aparecer.

homem-chateado-com-sua-namorada

Com base nisso, temos que ter em mente que quanto mais descontrolada for a raiva e quando os comportamentos provocativos forem mais agressivos, o outro vai se sentir mais atacado. Isso vai fazer com que a pessoa também fique irritada e tenha dificuldade para se controlar. Todos nós podemos imaginar o resultado dessa situação, não é? Quem nunca teve uma discussão por uma razão que tanto você quanto a outra pessoa consideraria boba e que terminou em uma batalha com feridas sérias?

Esse tipo de situações pode gerar um número considerável de emoções negativas na outra pessoa. Começando pela tristeza, pode passar para a própria irritação, incompreensão ou impotência. Também pode gerar sentimentos de rejeição em relação à pessoa que reagiu assim conosco. De fato, se agirmos de maneira irritada com os outros de forma habitual, podemos fazer com que eles se afastem cada vez mais e com que fiquemos cada vez mais sós.

Existe relação entre a minha forma de ser e a raiva que sinto?

A raiva, além de uma emoção, pode ser encarada como uma tendência estável para agir com irritação em diferentes situações. Ela pode fazer parte da nossa forma de ser. Isso quer dizer que há pessoas cuja forma de ser é mais colérica do que a de outras pessoas. Estes indivíduos respondem com maiores níveis de raiva diante de um maior número de condições e com uma maior ativação do corpo.

São observadas semelhanças com as pessoas com baixa predisposição à irritabilidade em relação ao tipo de situação que lhes gera raiva. No entanto, as diferenças estão no fato de que reagem com uma maior intensidade e com maior frequência com raiva em sua vida diária perante condições de perturbação.

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Foi descoberto que certas características da personalidade influenciam no processo de aparição da raiva:

  • Hostilidade. A pessoa hostil apresenta atitudes negativas para e com os outros, tendo uma tendência maior a experimentar raiva e a responder com comportamentos agressivos com o objetivo de machucar os outros.
  • Introversão. As pessoas introvertidas informam que sentem mais raiva do que as extrovertidas.
  • Neuroticismo. Este conceito se refere à instabilidade emocional que a pessoa pode apresentar. Estas pessoas com um maior neuroticismo experimentam mais frequentemente sentimentos de raiva. Elas também têm uma maior tendência a responder de forma agressiva.
  • Autoestima e narcisismo. Os indivíduos que têm uma autoestima mais baixa, combinada com uma personalidade narcisista, são mais propensos a responder de forma irascível. Além disso, eles apresentam um menor controle na hora de expressar essa emoção.

Como vimos, a raiva prolongada tem muitas implicações negativas na nossa vida. Isso faz com que seja importante controlá-la quando sai a primeira faísca, já que, uma vez que o fogo for espalhado, será mais difícil contê-lo.

 

Por outro lado, uma vez que o fogo tiver desaparecido e baixarmos de novo nosso nível de ativação, pode surgir uma gama de emoções negativas. Então nos damos conta das consequências das condutas que realizamos, assim como do dano que infringimos aos nossos entes queridos. Pense que se você enfrentar a raiva quando ela for pequena, se não deixar que ela se misture com o ego ou o orgulho, depois não vai ter que curar as feridas grandes e profundas.