Emoções autoconscientes: culpa, vergonha e orgulho.

14/12/2019 00:06


A culpa, a vergonha e o orgulho são emoções que se relacionam com o sentido do eu e que surgem a partir de uma série de avaliações e atribuições internas.

Sentir vergonha na hora de expor uma opinião, sentir culpa por aquilo que fizemos um dia, ou orgulho por uma conquista alcançada. Qualquer um dos exemplos anteriores corresponde a uma série de emoções nas quais há uma avaliação relativa ao próprio eu e que, no âmbito da psicologia, foram chamadas de emoções autoconscientes.

São estados emocionais que têm uma série de características comuns, mas que também apresentam alguns traços específicos, dependendo de como forem avaliados o comportamento e a atribuição dos mesmos.

“Uma emoção não causa dor. A resistência ou repressão de uma emoção causa dor”.
-Frederick Dodson-

Mulher refletindo de olhos fechados

 

As emoções autoconscientes

 

Embora seja verdade que, atualmente, há muitos estudos sobre as emoções básicas e a inteligência emocional, o mesmo não acontece com aquelas com uma variabilidade e complexidade maior, como é o caso das emoções autoconscientes.

Apesar de tudo, o interesse por esse tipo de emoção aumentou de forma progressiva e já existem modelos teóricos sobre elas. Assim, segundo os diversos estudos realizados, as emoções autoconscientes compartilham uma série de características importantes:

  • São emoções secundárias. Isso quer dizer que surgem a partir da transformação de outras emoções mais básicas.
  • São emoções complexas. É necessário ter o desenvolvimento prévio de certas habilidades cognitivas, como uma noção do eu ou a autoconsciência, ou seja, é necessário que exista uma diferença entre o eu e os demais.
  • São emoções sociais. Aparecem em contextos interpessoais.
  • São emoções morais. Este tipo de emoção é fruto da interiorização de valores, normas e critérios culturais a partir dos quais se estabelece o que é correto e o que não a nível comportamental. Além disso, são fundamentais como elementos motivadores e controladores do comportamento moral junto com a empatia.

Por exemplo, a culpa e a vergonha são capazes de inibir comportamentos considerados imorais ou de facilitar aqueles classificados como altamente morais. Por outro lado, o orgulho estaria associado a uma boa ação e ao reforço resultante de ações similares no futuro.

Outro dado importante a levar em conta é que, apesar destes tipos de emoções serem consideradas autoconscientes, os diversos autores que as estudaram afirmam que a autoavaliação realizada não precisa ser consciente nem explícita.

Aspectos diferenciais da culpa, da vergonha e do orgulho

 

Apesar dos traços que as emoções autoconscientes compartilham, também existem certos aspectos que as diferenciam. Cada uma delas surge diante de um evento determinado, tem uma experiência subjetiva particular e envolve uma série de comportamentos distintos.

Michael Lewis desenvolveu um modelo que explica as emoções autoconscientes a partir de duas variáveis:

  • A avaliação positiva ou negativa do próprio comportamento.
  • A atribuição interna (global ou específica) feita sobre o comportamento.

Segundo o autor, avaliamos nossos pensamentos, sentimentos e ações como êxitos ou fracassos segundo uma série de regras, padrões e metas, tanto culturais quanto pessoais. A partir disso, criamos atribuições internas, ou seja, refletimos sobre a sua origem e significado.

Se considerarmos que o sucesso e o fracasso se devem ao nosso eu em seu conjunto, a atribuição interna será global, e se considerarmos que são decorrentes de um pensamento, ação ou sentimento determinado, será específica. A partir daí, surgiria uma ou outra emoção.

Todo este processo depende tanto de influências culturais quanto de variáveis pessoais. Por esta razão, uma mesma ação pode ser considerada um erro por uma pessoa e um sucesso pela outra, e o mesmo ocorre com as atribuições, que podem ser globais ou específicas dependendo da pessoa.

A seguir, explicamos as características principais deste tipo de emoção segundo a perspectiva de Lewis.

Culpa e vergonha, emoções com autoavaliações negativas

 

Quando sentimos vergonha, fazemos uma avaliação negativa do eu a nível global. Desejamos nos esconder ou desaparecer porque percebemos que passamos por algo ridículo e a única coisa que queremos é nos livrar do mal-estar.

De fato, sentimos uma certa confusão mental, mas se desfazer desse estado emocional não é tão fácil quanto reparar uma determinada ação, por isso recorremos a mecanismos como o esquecimento e a reinterpretação do que aconteceu.

Por outro lado, a culpa surge de uma avaliação negativa do eu, mas a nível específico, ou seja, por uma ação concreta. Nos sentimos culpados por algo que fizemos, pensamos ou sentimos, porque cometemos um erro. 

No entanto, nesse caso não se interrompe a ação. A culpa leva a comportamentos para reparar a ação e se livrar, assim, do estado emocional experimentado, além de uma reflexão sobre como agiremos no futuro.

Lewis considera a culpa como menos destrutiva e mais útil do que a vergonha, devido à implicação de medidas corretivas.

Mulher cobrindo o rosto com vergonha

Orgulho e arrogância, emoções com autoavaliações positivas

 

O orgulho surge a partir de uma avaliação positiva do eu de caráter específico. Quando sentimos orgulho, nos sentimos satisfeitos por uma ação própria. Por ser um estado emocional prazeroso, é muito provável que a nossa tendência seja a de tentar reproduzi-lo novamente.

Michael Lewis, em seu modelo explicativo sobre as emoções autoconscientes, também fez referência a uma disposição da personalidade, mais do que a uma reação emocional, para se referir a um orgulho exagerado: a arrogância.

Trata-se de uma emoção que se origina a partir de uma avaliação positiva a nível global, mas se encontra associada ao narcisismo em casos extremos.

Quando uma pessoa experimenta a arrogância, está muito satisfeita consigo mesma. Por isso, tentará manter este estado, embora não seja tão fácil. Além disso, ela costuma estar associada a um sentimento de superioridade, razão pela qual provoca a rejeição dos demais.

Conclusões sobre as emoções autoconscientes

 

No que pensamos quando sentimos vergonha? A que atribuímos o nosso orgulho ou por que experimentamos culpa? Reconhecemos o estado de arrogância em algum momento de nossas vidas?

Como vimos, se algo diferencia as emoções autoconscientes, é o processo de desenvolvimento que as caracteriza, relacionado com a avaliação do próprio eu. Isso é algo que podemos comprovar no nosso dia a dia quando as experimentamos.

No entanto, ainda há muito a estudar sobre esse tipo de emoção, tanto a nível pessoal quanto social, como, por exemplo, até que ponto o orgulho e a arrogância são emoções positivas e em que momento se transformam em estados emocionais com consequências negativas.

O universo emocional é apaixonante, mas não deixa de ser complicado e, em algumas ocasiões, misterioso, devido ao fato de que é influenciado por um grande número de variáveis e aspectos.

Ainda assim, é fundamental estudá-lo, pois ele facilita o entendimento e a compreensão da nossa essência, uma contribuição a mais para completar a resposta para uma das nossas maiores dúvidas: como funcionamos?

Todos já se perguntaram alguma vez o que são as emoções. Poderíamos defini-las como a “cola da vida”, aquela matéria invisível, mas intensa, que nos conecta às pessoas, que nos permite ser participantes da realidade, rindo dela, admirando-a, nos surpreendendo diante de suas maravilhas e nos entristecendo também com seus dissabores.

Poucas condições desprendem tanto mistério como as emoções. É verdade que fazem parte de nossa cultura, de nossa educação, sexo ou país de origem. No entanto, não é menos verdade que já vem integradas em nossa base genética. Para demonstrar isso, as universidades de Durham e Lancaster (Inglaterra) realizaram um fascinante estudo onde se pode ver que os fetos já expressam uma pequena variedade de emoções dentro do útero materno.

“Uma emoção não causa dor. A resistência ou supressão de uma emoção é o que verdadeiramente causa dor e sofrimento.”
– Frederick Dodson –
Por meio de ultrassonografias, descobriram como os bebês, antes de nascer, já sorriem e inclusive como demonstram expressões associados ao choro. Tudo isso mostra que já nesse universo plácido e silencioso do útero o ser humano vai “ativando” e treinando aquela linguagem instintiva e essencial que garantirá sua sobrevivência. O sorriso ajudará a demonstrar bem-estar e satisfação, enquanto o choro cumprirá a função de “sistema de alarme”: através do qual ele expressará suas necessidades mais básicas.

As emoções nos conferem humanidade, e mesmo que com frequência cometamos o erro de classificá-las em emoções negativas e positivas, todas elas são necessárias e valiosas. No final, cumprem uma função adaptativa e nada pode ser tão importante quanto compreendê-las para usá-las de modo “inteligente” em nosso benefício.

Bebê sorrindo no útero

 

O que são as emoções?

Pablo está trabalhando em sua tese. Ao chegar em casa da universidade, vai para seu quarto continuar sua tarefa. Se senta em frente ao computador e abre uma gaveta para consultar alguns documentos. Ao fazê-lo, vê que no interior dessa gaveta e justo sobre a pasta que precisa se encontra uma grande aranha. Ele a fecha imediatamente, com medo. Aos poucos, nota como a temperatura de seu corpo sobe e seu coração acelera. Falta oxigênio e ele fica com os pelos da pele eriçados.

 

Alguns minutos depois fala para si mesmo que é uma bobagem, que deve continuar com seu trabalho e não perder tempo. Volta a abrir a gaveta e percebe que a aranha não era tão grande quanto havia percebido, de fato era bem menor. Sente vergonha por seu medo irracional, pega a aranha com um papel e a deixa no jardim externo, satisfeito e rindo de si mesmo.

Este simples exemplo demonstra como em questão de poucos minutos somos capazes de experimentar um amplo leque de emoções: medo, vergonha, satisfação e diversão. Por outro lado, todas elas combinaram três aspectos muito claros:

  • Alguns sentimentos subjetivos: Pablo tem medo de aranhas e essa emoção lhe permite fugir delas, se proteger.
  • Uma série de respostas fisiológicas: coração se acelera, aumento da temperatura corporal.
  • Um comportamento expressivo ou adaptativo: Pablo fecha a gaveta rapidamente ao ver esse estímulo (a aranha) que lhe causa medo.

O mais complexo sobre este estudo das emoções é que são muito difíceis de serem medidas, descritas ou de serem previstas. Cada pessoa as experimenta de um modo, são entidades subjetivas muito particulares e exclusivas. No entanto, os cientistas sabem mais sobre o que se refere à resposta fisiológica, porque neste caso, e sem importar a idade, a raça ou a cultura, todos fazemos do mesmo modo, como a adrenalina, por exemplo, que geralmente está em toda experiência associada com o medo, o pânico, o estresse ou a necessidade de fuga.

O que são as emoções?

 

Por que nos emocionamos?

 

As emoções cumprem uma finalidade muito concreta: permitir que nos adaptemos ao que nos rodeia, para garantir nossa sobrevivência. Isso já foi indicado por Charles Darwin em seus estudos, ao nos demonstrar que os animais também tinham e expressavam emoções, e que este dom lhes permitia avançar como espécie e colaborar entre nós para conseguir tal propósito.

Darwin foi possivelmente uma das figuras que mais acertou na hora de explicar o que são as emoções e para que servem. No entanto, ao longo da história encontramos mais nomes, mais focos e mais teorias orientadas a nos dar mais respostas sobre este tema.

O livro dos ritos

 

O “Livro dos Ritos” é uma enciclopédia chinesa do século primeiro que todo mundo deveria folhear pelo menos uma vez. Faz parte do padrão confuciano e aborda temas cerimoniais, sociais e principalmente aspectos da natureza humana. Se fazemos referência a este livro é porque nele se explica também o que são as emoções. Ainda, nesta obra estão descritas quais são as emoções básicas: a alegria, a ira, a tristeza, o medo, o amor e a repulsa.

A teoria de James-Lange

 

Estamos no século XIX e William James, junto com o cientista dinamarquês Carl Lange, explicam que as emoções dependem de dois fatores: as mudanças físicas que acontecem em nosso organismo diante de um estímulo e a posterior interpretação que fazemos dele depois.

Ou seja, para estes autores a reação fisiológica se desencadeia antes dos pensamentos ou de sentimentos subjetivos. Algo que sem dúvidas tem nuances e que nos oferece uma visão um tanto determinista.

Cérebro com coração dentro

 

“Quando digo controlar as emoções, quero dizer as emoções realmente estressantes e incapacitantes. Sentir emoções é o que torna nossa vida rica”.
– Daniel Goleman –

O modelo Schacter-Singer

 

Vamos agora para os anos 60, até a prestigiosa Universidade de Yale, para conhecer dois cientistas: Stanley Schacter e Jerome Singer. Ambos afinaram um pouco mais as teorias existentes até esse momento sobre o que são as emoções e deram forma ao seu conhecido e interessante modelo.

Schacter e Singer nos ensinaram que as emoções podem aparecer, efetivamente, ao interpretar as respostas fisiológicas periféricas de nosso corpo, assim como nos explicaram William James e Carl Lange. No entanto, e aqui chega a novidade, também podem ser originadas de uma avaliação cognitiva. Ou seja, nossos pensamentos e cognições podem desencadear uma resposta orgânica e a posterior liberação de uma série de neurotransmissores que ativarão uma emoção determinada e uma resposta associada.

Paul Ekman, o pioneiro do estudo das emoções

 

Se desejamos saber o que são as emoções temos que passar quase que de forma obrigatória pela obra de Paul EkmanQuando este psicólogo da Universidade de São Francisco começou a estudar este tema, acreditava, como a maior parte da comunidade científica, que as emoções tinham uma origem cultural.

No entanto, depois de mais de 40 anos de estudos e análises de grande parte das culturas que formam nosso mundo, concluiu uma tese que Darwin já tinha enunciado em sua época: as emoções básicas são inatas e resultado de nossa evolução. Deste modo, e dentro de sua teoria, Ekman estabeleceu que o ser humano se define por um conjunto de emoções básicas e universais em todos nós:

  • Alegria
  • Ira
  • Medo
  • Nojo
  • Surpresa
  • Tristeza

Mais tarde, e no final dos anos 90, ampliou esta lista ao estudar mais profundamente as expressões faciais:

  • Culpa
  • Rubor
  • Desprezo
  • Complacência
  • Entusiasmo
  • Orgulho
  • Prazer
  • Temor
  • Repulsa
  • Satisfação
  • Surpresa
  • Vergonha

A roda das emoções de Robert Plutchik

 

A teoria de Robert Plutchik nos explica o que são as emoções de um ponto de vista mais evolucionista. Este médico e psicólogo criou um interessante modelo no qual ficam bem identificadas e diferenciadas oito emoções básicas. Todas elas teriam garantido nossa sobrevivência ao longo de nossa evolução. A elas são somadas outras emoções secundárias e inclusive terciárias, que teríamos desenvolvido com o tempo, para nos adaptarmos muito melhor em nossos ambientes.

Todo este interessante foco é conhecido como “a roda das emoções de Plutchick”. Nela podemos apreciar como as emoções variam em grau e em intensidade. Assim, e como exemplo, é interessante recordar que a ira é menos intensa que a fúria. Compreender ajudará a regular um pouco melhor nossos comportamentos.

Como alcançar o bem-estar emocional

Ao chegar a este ponto existe um aspecto a ser considerado. Não basta saber o que são as emoções. Não basta saber qual neurotransmissor está por trás de cada estado emocional, de cada reação fisiológica ou de cada sensação. Isso é como ter um manual de instruções sobre uma máquina, mas não saber utilizá-la a seu favor.

 

É essencial transformar o conhecimento teórico em conhecimento prático. Administrar nosso universo emocional para favorecer nosso bem-estar, para potencializar a qualidade das relações, da produtividade, da criatividade, em essência, a qualidade de nossa vida.

Se no fim as emoções, assim como nos disse Darwin, servem para facilitar nossa adaptação, sobrevivência e convivência entre nós, devemos aprender, portanto, a fazê-las nossas sem temê-las, sem escondê-las ou dissimulá-las.

Assim, um modo de conseguir esta aprendizagem sobre esta ferramenta vital é desenvolvendo a inteligência emocional. Todos já ouvimos falar dela, já lemos algum livro de Daniel Goleman e vários artigos relacionados com o tema. No entanto, aplicamos de verdade suas principais estratégias? Fatores como a empatia, o reconhecimento das próprias emoções, a atenção, a correta comunicação, a assertividade, a tolerância à frustração, a positividade ou a motivação são aspectos dos quais não devemos descuidar em nenhum momento.

Dado que já sabemos o que são as emoções, façamos delas o melhor canal para construir um autêntico bem-estar, uma felicidade real.

Referências Bibliográficas

Ekman, Paul (2017). “El rostro de las emociones” Barcelona: RBA Libros.

Punset, Eduard. Bisquerra, Rafael, Bisquerra (2014). “Un universo de Emociones”, Planeta.

Goleman, Daniel (1996). “Inteligencia Emocional” Madrid: Kairos.

LeDoux, Joseph (1998). The Emotional Brain: The Mysterious Underpinnings of Emotional Life. New York: Simon and Schuster.