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22/10/2014 11:12

A temática indígena: para além de uma visão eurocêntrica

  

O objetivo deste artigo consiste em explicar o que é o etnocentrismo e seus desdobramentos nos conceitos e conhecimentos produzidos pelas ciências humanas para explicar o impacto nas sociedades indígenas. Além disso, o texto pretende desconstruir alguns dos argumentos que a partir do etnocentrismo transformaram-se em muitos casos “senso comum” e outros até fundamentados em bases científicas. O conceito que consiste em destacar um mundo de reproduções ou representações propondo-o como exemplo e diminuindo à insignificância os demais universos e culturas “diferentes” atende pelo nome de etnocentrismo. De acordo com Everardo Rocha:

Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas definições do que é a existência.

Desse modo, a temática indígena é construída, desde os primeiros anos escolares, como base nestas representações eurocêntricas/etnocêntricas e nelas ancoram-se a História do Brasil por meio do ponto de vista europeu, o que invalida uma “pré” história antes da chegada dos portugueses. Equivale dizer que somente depois que este civilizado povo adentrou nossas terras é que a história é contada. Tratados pelos colonizadores como coadjuvantes, cabia a eles transmitir um conjunto de valores que teria por objetivo civilizar aquele povo que transmitia a memória de seu povo de geração a geração, fazendo uso da tradição oral em contraponto ao branco europeu com sua escrita.    Monteiro, em “Negros da Terra” evidencia o impacto negativo na forma da organização das sociedades indígenas. Para o autor, os português imporiam diversas formas de organização de trabalho levando as organizações sociais indígenas à uma declínio demográfico inclusive. A conseqüência desse quadro foi o trabalho forçado para que se construísse uma sociedade como eles conheciam. Ou seja, na visão eurocêntrica o que tem valor é o modelo europeu e ele é levantado por cima do que se destrói, seja indígena ou africana, o que se têm é a submissão ou imposição para doutrinação/civilização.

Para desconstruir esse conjunto de representações eurocêntricas é necessário evidenciar outros aspectos dos índios no Brasil, levando em consideração as estruturas políticas, culturais e sociais. Cunha em “Introdução a uma História Indígena” indica que o que é hoje o Brasil indígena representa fragmentos de um tecido social cuja trama, é muito mais complexa e abrangente e para ilustrar a questão mostra, por exemplo, que motivos mesquinhos e não uma campanha de extermínio foi o que reduziu a população na casa dos milhões em 1500 aos pouquíssimos 200 mil atualmente. Isso quer dizer que, além das epidemias trazidas pelos portugueses e da escravidão há muito outros fatores, como as guerras entre tribos, que contribuíram para o cenário que temos atualmente.

Outra observação sobre a temática indígena vem de Fausto, em “Os Índios antes do Brasil”. O autor introduz o conceito de cacicado: estruturação política da sociedade indígena em estratos com distinção entre nobreza, comuns e escravos (cativos de guerra). Porém, até mesmo essa terminologia sofreu alterações e foi generalizado pelos conquistadores, e atualmente, temos o termo utilizado para designar formações sociopolíticas que possuem um centro de poder supralocal, mas não um estado. Fausto adverte sobre o emprego de algumas evidências para necessariamente aplicar em todo contexto, inclusive destaca o cenário amazônico, isto porque a complexidade e ampliação da imaginação sociológica são necessárias para estudar a temática indígena de forma a não ser corrompida pelos modelos de organização social europeu. A dificuldade em analisar a sociedade indígena utilizando, por exemplo, as crônicas dos expedicionários, está no fato de que as fontes podem em dado momento torna-se fantasiosas interpretando a situação não por ela mesma. Equivale dizer que os olhos de quem vê estão contaminados e impregnados de preconceitos internalizados que corrompem qualquer iniciativa isenta de julgamento. De acordo com Fausto, o que se tem, resumidamente, dessas fontes é que, no caso do Amazonas, há: recursos abundantes, grandes populações reunidas em povoados de dimensões consideráveis, estruturas públicas com função político-cerimonial, capacidade de mobilização de numerosos guerreiros e existência de articulação social entre diferentes povoados.

Há claramente até aqui elementos suficientes para afirmar que os aspectos gerais de uma cultura abrangem uma gama de valores, crenças, linguagem, leis, organização social, produção artística, alimentação, entre outros. Sendo assim, não há cultura inferior ou superior, visto que os aspectos citados podem corresponder a qualquer organização social em qualquer tempo/espaço. Entretanto, não há consideração sobre estas questões em pleno “descobrimento” e uma das alternativas para explicar as diferentes culturas, seus comportamentos, baseava-se no conceito de determinismo biológico. Dessa forma, Laraia em“Cultura: um conceito antropológico” nos abastece de informação para desmontar esse conceito científico (determinismo) de onde partiram outros, como eugenia, monogeísmo, poligeísmo. Diferenças genéticas não são determinantes para classificar qualquer cultura. Os dados científicos, no caso do determinismo biológico, são distorcidos para explicar ou justificar o racismo nazista, para ficar em apenas um exemplo. O que tem um papel importante na evolução do homem é sua capacidade de aprender e sua plasticidade, nunca um conjunto de genes. O autor resume a questão: o comportamento dos indivíduos depende de um aprendizado, de um processo (endoculturação). O caso de Kaspar Hauser serve para corroborar essa afirmação: Kaspar Hauser (provável 30 de Abril de 1812 – 17 de Dezembro de 1833 em Ansbach, Mittelfranken) foi uma criança abandonada, envolta em mistério, encontrada na Praça Unschlittplatz em Nuremberg, Alemanha do século XIX, com alegadas ligações com a família real de Baden. Hauser não sabia falar, nem andar e não se comportava como humano. O mesmo conceito que serviu como argumento para as invasões bárbaras ocorridas nas Américas, o de que existem seres inferiores, com déficit, está ali para justificar a modelagem do comportamento de Hauser. O antropólogo Montaigne sintetizou a questão: “na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra”.

Como refazer o caminho para além desta visão contaminada pelo eurocêntrismo? Como considerar o que é diferente do que estabeleci como “normal” diante da questão indígena? Na busca por estas respostas, observa-se que os conceitos, imagens e representações sobre o continente africano, construído ao longo da história por uma visão eurocêntrica não se sustentam após análise profunda da organização social, política, econômica e cultural da civilização indígena. Numa sociedade multicultural, a visão de mundo eurocêntrica deve ser superada para assegurar o acesso às riquezas culturais em níveis elevados da cultura indígena que atualmente são sucumbidas por olhares parciais. Por meio da observação da organização política, social, religiosa e econômica indígena é possível trazer para o debate os argumentos eurocêntricos e descontraí-los por meio dos inúmeros aspectos relevantes, tais como organização social e política, a produção artística e cultural, entre outros. Portanto, para se compreender a questão indígena é necessário excluir explicações mecânicas, simplistas e genéricas produzidas pelo eurocentrismo, tema central combatido neste artigo.

 

A significação: uma abordagem pedagógica

  

Por ser social, o homem é capaz de pensar conceitualmente e de forma alegórica, de maneira a transcender o conhecimento empírico das coisas e do mundo, assim como tornar-se apto a estabelecer as relações mais lógicas entre elas. De acordo com essa afirmação de Lévi-Straus é possível compreender que para validar a afirmação acima basta pensarmos, logo existimos e, existindo passamos a identificar e relacionar o mundo ao nosso redor. Além disso, na teoria do desenvolvimento e aprendizagem de Vygosty, o ser humano distingue-se dos animais porque possui a autoridade consciente de sua conduta, isto é, o homem é capaz de pensar em elementos ausentes, de imaginar circunstâncias vividas, de planejar ações, entre outros. Esta afirmação “o homem não pensa sozinho, mas o faz socialmente” é de Cardoso de Oliveira (1998),em “O trabalho do antropólogo”. E, neste contexto de Educação em ambientes não escolares, vem bem a calhar, pois na medida em que educador e educando estabelecem relação inicia-se uma “teia de significados” que despertam a faculdade de intercambiar experiências e assim o fazendo, deixam de pensar sozinho e pensam um com o outro. Isto é, numa explicação “moderna” e não filosófica da afirmação.

A significação das coisas do mundo é o início da atuação do Homo sapiens sapiens. Isto porque, ao representarmos as coisas que nos cercam exercitamos a representação e, baseado na premissa de que o homem não pensa sozinho é na inter-relação com o outro que estabelecemos o diálogo filosófico na busca por entender aquilo que nos cerca. E de acordo com Bakhtin, refletir a respeito do modo como construímos a nossa realidade, o nosso universo de significações, e de como a linguagem tem papel fundamental em nossa reelaboração do mundo, da vida e de nossa subjetividade, enfim, refletir sobre o caráter cultural do nosso psiquismo. O desafio de ultrapassar as marcas socialmente e culturalmente estabelecidas pelo sistema escolar representa o privilégio de se utilizar do espaço não escolar para a educação. Equivale dizer que, por conta de reunidas no mesmo local as mais diversas representações sócio-culturais o diálogo será sempre enriquecedor para quem se lança nesta viagem por compreender as nuances da educação para além dos muros da escola.

A educação não se reduz à relação educando-educador no interior de um processo pedagógico intra-escolar. Ela se insere no processo social, como parte de um todo mais amplo. A partir dessa afirmação e baseado no pressuposto acima, temos os ambientes supracitados como exemplos de ambientes que potencialmente, pelo menos teoricamente, estão abertos a intervenções sólidas e com objetivos de “repensar” ou transformar a visão de mundo de seus participantes, sejam eles educadores ou educandos.

Quando não se exige uma atuação apenas para promoção do aluno a outras séries, a educação informal:

… passa a ser objeto explícito da atenção, desenvolvendo-se uma ação educativa intencional, então tem-se a educação sistematizada. O que determina a passagem da primeira para a segunda forma é o fato da educação aparecer ao homem como problemática; ou seja: quando educar se apresenta ao homem como algo que ele precisa fazer e não sabe como faze-lo. É isto o que faz com que a educação ocupe o primeiro plano na sua consciência, que ele se ocupe com ela e reflita sobre ela. Quanto a nós, se pretendemos ser educadores (especialistas em educação) é porque não nos contentamos com a educação assistemática. Nós queremos educar de modo intencional e por isso nos preocupamos com a educação.(SAVIANI,2002,p.48).

Portanto, ao unir o conteúdo da sala de aula com a realidade de nossos educandos estabelecemos um novo horizonte: a possibilidade de existir opções que não aquelas permeadas de violência, pobreza e abandono.

Promover a capacidade para usar a leitura como forma de aprendizagem deveria constar nos primeiros tópicos das discussões pedagógicas ou ainda da formação do profissional da educação. Porém, o que encontramos são sujeitos, muitas vezes, incapazes de articular um pensamento de forma coerente e capaz de suscitar discussão. Encontramos, infelizmente, muitos profissionais da área da educação desprovidos da habilidade de pensar, isto é, reproduzem um discurso pré-estabelecido, confortáveis em suas zonas dispensam qualquer discussão, pois não se querem dar a experimentar, questionar, duvidar. Porém, mais do que a leitura (afinal, existem muitos que lêem e lêem muito) é necessário compreender o que se lê.

Em meu artigo “O problema é que você lê pouco” que você lê aqui,  discuto justamente essas questões.

Referências

LÉVI-STRAUSS, Claude. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975.

CARDOSO. de Oliveira, Roberto 1998. O trabalho do antropólogo. São Paulo: Unesp

BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2000

SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. Autores associados: Campinas, SP, 14ª ed., 2002.

 

Explica pra mim o que é Cultura

 

De acordo com Confúcio o que diferencia os homens são os hábitos que eles mantêm, sua natureza por outro lado, é a mesma. A diversidade cultural das organizações sociais humanas oferece ao observador mais atento a oportunidade de se surpreender com as diferenças ou provocar um tipo de hierarquização de cultura que é tão ofensivo quanto menosprezar seu par por meio de diferenças corporais ou debilidades congênitas. Entretanto, só é possível distinguir diferenças a partir de uma comparação e esta por sua vez se dá do ponto de vista etnocêntrico, ou seja, considerar os costumes além de sua terra como bárbaro, passível de um processo civilizatório. Diferente é o que não é igual a mim, em última análise.

No ambiente acadêmico ocorre um processo higiênico de doutrinação quanto ao que é ou não alta cultura. Não há diálogo sobre os comportamentos ou hábitos que levam determinado sujeito a preferir um gênero em função de outro, o que existe é: isto é bom ou não. Desse modo, sutilmente, ou em alguns casos alarmantemente gritantes, professores demonizam escritores, menosprezam a cultura dita popular e, tal como receituário, determinam o que é de bom tom admitir consumir. Nesse processo de tornar o sujeito culto, perde-se  uma referência importante: o cenário em que este ou aquele ser humano desenvolveu-se, as relações sociais dinâmicas que o constituiram como ator do processo, e não um mero passivo-observador.

Nesse sentido, Paulo Coelho, Dan Brown entre outros são colocados no cantinho da prateleira próximo ao rodapé, enquanto Machado, Clarice e Saramago ficam ali, posicionados no alto, objetos de um culto. Não há aqui qualquer avaliação quanto ao estilo desenvolvido por estes autores, afinal são distintos e, são apenas ilustrações para argumentação deste post. Muito menos, tem a pretensa distinção sobre o alcance global de uma ou outra obra, afinal qualquer comparação entre Paulo Coelho e Machado de Assis é injusta de qualquer ponto de vista. Fato é que o que beira o popular sofre o sério risco de ser tomado como sinônimo de lixo, contrapondo os ocultos (aqueles que não são tão acessíveis) textos dos mais ilustres escritores.

Explica pra mim o que é cultura? Explica pra mim como é que alguns acadêmicos julgam o que deve ou não ser considerado como um alta cultura e por quais critérios consideram obras “menores” em função de outras? “Você tem que ler isto ou aquilo” : esta frase não é somente uma sugestão, antes está carregada de significados enxarcados de “ideologismos marxistas”, sendo esta expressão mais um paradoxo buscando resolução.

 

Kaspar Hauser: um modelo de não adequação

  

Kaspar Hauser (provável 30 de Abril de 1812 – 17 de Dezembro de 1833 em Ansbach, Mittelfranken) foi uma criança abandonada, envolta em mistério, encontrada na praça Unschlittplatz em Nuremberg, Alemanha do século XIX, com alegadas ligações com a família real de Baden. Hauser não sabia falar, nem andar e não se comportava como humano. Até hoje o seu enigma persiste: apesar de muitas hipóteses e suspeitas, não se descobriu sua origem. “Cada um por si e Deus contra todos” é o título original que o diretor Werner Herzog tirou de “Macunaíma”, de Mario de Andrade, e fala mais sobre o filme do que o neutro título nacional, “O Enigma de Kaspar Hauser”. O prólogo inicial do filme de Herzog inicia uma espiral ascendente: Vocês não ouvem os assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos de silêncio?

O processo de integração ao qual Kaspar Hauser será forçado inclui a representação, faceta que ele desconhece por conta de suas origens. Um modelo de civilização e de desenvolvimento são os parâmetros da época (século 19). Por isso, os que não correspondiam ao  “homem civilizado” eram classificados como primitivos, atrasados e dessa forma, deveriam ser orientados ao desenvolvimento e evolução. É dentro dessa visão de mundo que Kaspar Hauser vai ser socializado. Vygotsky aponta em seus estudos que o pensamento e a linguagem tem origens independentes, fundindo-se posteriormente no tipo de linguagem interna que constitui a maior parte do pensamento maduro. Portanto, os signos lingüísticos apresentados à Kaspar Hauser não fazem nenhum sentido e são insuficientes para explicar o indecifrável.

O mesmo conceito que serviu como argumento para as invasões bárbaras ocorridas nas Américas, o de que existe seres inferiores, com déficit, está ali para justificar a modelagem do comportamento de Hauser. Numa sociedade que não compreende as diferenças a sua aproximação cognitiva da realidade é direta, ou seja, percebe o mundo de uma maneira ainda não programada pela estereotipia cultural, como propõe Saboyaem sua abordagem psicossocial do caso. O racionalismo positivista que alicerça uma organização social somado a socialização ou humanização de um indivíduo não tem nada de biológico, antes é uma espécie de higienização, uma passagem da natureza para a cultura. Kaspar Hauser nunca se transformou nesse animal de costumes; no máximo, poderia ser visto como “domesticado” pela sociedade da época.

Por fim, além de todos os instrumentos de repressão e domesticação, a religião destaca-se pelaestigmatização que faz do sujeito que não se dobra diante de seus elementos abstratos. Em determinada cena, um reverendo tenta convencer Kaspar Hauser sobre a existência de Deus, usando para isso a máxima: “Você deve admitir o mistério da fé sem procurar entender” ao que Kaspar responde: “Preciso aprender a ler e escrever melhor para compreender o resto”. Talvez seja justamente isso que falte a este cenário sub-pós-moderno: seres capazes de transcender sem orientação mística, política ou acadêmica. A ilusão de que vivemos em harmonia é facilmente desfeita se, por acaso, discorda-se de determinada religião, sistema econômico ou político, ou ainda, institucional.

Até que ponto as práticas culturais definem o desenvolvimento psicológico do sujeito? A práxis social, necessária para gestar o referencial cultural de apreensão da realidade, não seria na verdade instrumento ideológico? E sendo, qual organização capaz de solidificar uma resistência?

Jeder für sich und Gott gegen alle, Werner Herzog, 1974

 

Hábitos alimentares de um estudante universitário

 

Se você é ou será um estudante universitário saiba de uma coisa: sua alimentação vai piorar e muito. Mesmo aqueles que tem por hábito consumir alimentos saudáveis não resistirão aosencantos dos lanches, refrigerantes e afins, que se apresentam para o consumo de uma população universitária como horários apertados, incapazes de controlar uma agenda apertada: trabalho, estágio, trabalhos de conclusão, estágio, atividades complementares. Há uns poucos valentes que se aventuram na conservação de levar para a faculdade frutas e barrinhas de cereais, porém, em sua grande maioria, os estudantes precisam de alimentos com alto teor calórico (existe explicação científica para isso) o que demonstra as alterações do estilo de vida e refletem automaticamente em seus hábitos alimentares.

Impossível encontrar uma barraquinha em torno da universidade que venda frutas ou lanches naturais, suco. Arroz, feijão e carne, self-service, nem pensar. São aqueles trailers de cachorro quente, batata-frita e yakisoba que nos ajudam a apagar de nossos cérebros a preocupação com a saúde e qualidade de vida. De acordo com Claudia Moreira Borges, em sua dissertação a respeito do tema, a ingestão da alimentação saudável está intimamente ligada com “[...] indicadores de proximidade em relação à família, colegas e escola, bem como a uma percepção de bem estar pessoal e social”. Sendo assim, meu círculo social é inacreditavelmente disfuncional: somos consumidores de salgadinhos, frituras em geral e muito, muito refrigerante.

Há, mesmo que não se admita isso, uma preocupação com o que virá depois de 4 ou mais anos dentro do ambiente acadêmico. E não estou abordando as implicações de carreira, mercado de trabalho e sim, problemas oriundos da má alimentação. Gosto do conceito americano “junk food” (uma expressão pejorativa para alimentos com alto teor calórico, mas com níveis reduzidos de nutrientes) para rotular as porcarias que como e mesmo tendo  assistido ao documentário “Super Size Me” de Morgan Spurlock, um cineasta independente dos Estados Unidos da América, não pretendo abandonar essa dinâmica alimentar.  Compreendo que hábitos não são fáceis programações, demandam tempo, energia e uma dose de boa vontade. Enxergo o problema, mas tenho coisa demais pra resolver….deixa pr’a depois! #Fail

 

Paciência que se finge

  

Despertado por um relógio impaciente, o sujeito tem que produzir, viver. Cada minuto perdido indica quantos outros além do horário terão de ser acrescidos. Uma fila interminável na hora do almoço sinaliza a subtração de tempo para a mastigação do lanche comprado no fast-food, este raras vezes “fast”. O mundo vai girando cada vez mais veloz, a gente espera do mundo e o mundo espera de nós: um pouco mais de paciência.

Lenine, em sua poesia “Paciência”, aponta o controle exercido pelo tempo e a paciência que se finge ter em relação a ele.  Nada mais contraditório do que a tentativa de domesticar efetivamente os impulsos animais diante da pressão que o relógio exerce sobre nós. O tempo é curto para ao menos experimentar a extensão das promessas frustradas. Nesse sentido a racionalidade esgota-se traduzindo a incapacidade de se fingir o tempo todo ter paciência com o chefe estúpido, as intermináveis conversas com o colega que não percebe as bobagens que diz, o tempo gasto com o transporte público, além da poluição sonora que aflige os habitantes de uma grande metrópole como São Paulo.

Muitos amigos, em suas férias, reclamam que sentem falta da agitação, do caos, dizem estar acostumados com tudo aquilo. Desconfio que eles estejam devidamente perdidos, pois têm o tempo em suas mãos e não sabem o que fazer com ele. O dilema da saturação pode ser observado na essência dos desabafos: “Amanhã é segunda-feira”, “Eu não tenho tempo pra nada”. Às vezes, penso que o trabalho, as atividades extras, são como uma substância de enchimento do vazio provado pela contemporaneidade, o que alguns chamam de pós-modernidade.

Será que é tempo que nos falta pra perceber? Será que temos esse tempo todo pra perder? Certos modelos de compreensão da realidade não dão conta de explicar a aparência delirante da constante novidade que o mundo subtraiu de nós. A cada dia um novo single é lançado, um famoso casal se separa, um novo filme é lançado, livros à espera de leitores, um conflito generalizado em países orientais, as contas que multiplicam-se como se tivessem vida própria, e todo esse movimento nos envolve e nos leva como discípulos seguindo a Novidade. Como diria Gil em uma de suas canções: “A novidade era o máximo/Do paradoxo estendido na areia/Alguns a desejar seus beijos de deusa/Outros a desejar seu rabo pra ceia”.

Forma e conteúdo se projetam na alógica sucessão de movimentos eternos que misturam forma, conteúdo e tempo numa cisão que exigem de nós “um pouco mais de paciência”.

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara…
Leitura: “O tempo e a máquina do tempo: estudos de filosofia e pós-modernidade”, por Ricardo Timm de Souza.
Filme: “I’m here”, um short-film de Spike Jonze

 

 

 

O fenômeno criativo

  

Inúmeros significados podem surgir diante de algo considerado como criativo. É necessário distinguir a distinção entre “criatividade”, “fenômeno criativo” e outras dezenas de designações que aparecem na descrição de livros, filmes, música, arte em geral. Cada ser humano possui, o que estudiosos do tema classificam como  capacidade criativa, já que é uma expressão humana. Segundo Kazue Sakamoto criatividade é a expressão de um potencial humano de realização, que se manifesta através das atividades humanas e gera produtos na ocorrência de seu processo.

Mas, parece-me simples demais atribuir como processo natural a construção ou criação de arte, em todas as suas dimensões. Por isso, como Stein propõe a criatividade é o processo que resulta em um produto novo, que é aceito como útil ou satisfatório por um número significativo de pessoas em algum ponto no tempo. Será que existe alguma coisa de que a gente possa dizer: “Veja! Isto nunca aconteceu no mundo”? Não! Tudo já aconteceu antes, bem antes de nós nascermos. Este conceito, de não existência do novo, é construído por um sábio escritor hebreu por volta de 971 A.C. Entretanto, assim como um sem número de fenômenos que não sabemos explicar, mas que adoramos tentar, a criatividade só é possível grandiosa quando entra em contato com o outro.

No ambiente artístico-cultural, o artista tem uma expressão criativa resultado direto de sua libertação de convenções, dogmas e outros parâmetros limitadores. Já no contexto corporativo, alguns livros e palestras pretendem “ativar” esse potencial em qualquer colaborador mais inibido. São capazes inclusive de cunhar expressões cujo sentido é indecifrável: criatividade em equipe. Estranho, não?!

De acordo com Marchusi, a criatividade não teria apenas um fator biológico (inato) como também maturação da experiência. O que em síntese seria o processo criativo, o tempo empregado para a criação de algo, o suor, a transpiração em oposição a criatividade vista como um dom divino, um “estado místico de receptividade a algum tipo de mensagem proveniente de entidades divinas”: insights.

A história de um homem que perguntou o que era prosa e surpreendeu-se ao descobri que falara em prosa a vida inteira, escrita pelo dramaturgo francês Molière, nos ajuda a iniciar a compreensão acerca da criatividade. Enquanto, a liderança consegue persuadir as pessoas a modificarem idéias e comportamentos, um criador bem-sucedido é aquele que oferece às pessoas uma maneira diferente de contemplar o mundo.

Por fim, criatividade pra mim é isso aqui:

Leitura: “O espírito criativo”, organizado por Daniel Goleman.

 

Espalhando cores

 

Grande parte das pessoas tem uma cor favorita e, em contrapartida, uma ou mais que odeiam. Nossas escolhas de roupas, carros, cabelos (?!) são realizadas pela invisível atração que elas, as cores, têm sobre nós. Não à toa, pesquisas sobre o significado mais profundo de uma simples tonalidade de azul orientam a decisão de um rótulo ou logo de uma marca. As ramificações de estudos sobre tons e matizes inauguraram segmentos como a cromoterapia (forma de medicina energética) há muitos anos atrás .

O chamado “happyrock” utiliza, certamente, a consultoria de alguma autoridade colorida sobre quais cores e combinações utilizar. Engana-se quem observa esse pseudo-movimento sem imaginar as exaustivas reuniões de marketing das grandes gravadoras a respeito do tema cor e seu impacto sobre o público teen. Os especialistas defendem o uso de uma ou várias cores no ambiente para alterar a comunicação, as atitudes e a aparência das pessoas; a cor pode acalmar, reduzir o stres e a violência ou aumentar a disposição, humor, trazer calma, paz, segundo elas.

Nada mais legítimo do que uma empresa cuidar de seus interesses comerciais incluindo o pantone de um determinado produto. O exagero é quando se atribui às cores poderes extra-sensoriais: há especialistas em campos eletromagnéticos alterados por elas. Além disso, já ouvi uma senhora pedindo, nessas casas de tintas, as seguintes cores: erva-doce, amarelo-manga, azul-piscina, terracota…Ops! Pra mim ainda eram, verde claro, amarelo escuro, azul claro e marrom.

Em contraposição a tudo isso, uma boa sacada de marketing Dulux , Dulux Valentine , Coral , Flexa e Marshall é  o “Letscolourproject” que tem por missão espalhar cores ao redor do mundo. A idéia é colorir antigos prédios, muros, favelas junto com artistas locais que façam Urban Art.

E aí? Qual é a sua cor favorita mesmo?

Letscolourproject: https://letscolourproject.com/

 

O perfil brasileiro em redes sociais

 

Um outro conceito transmutou-se nos últimos anos: o de comunidade para “redes sociais”. São absolutamente distintos, muito embora o que se lê ou fala a respeito aproximam os significados dos termos de forma a uni-los em função de explicar o comportamento de um indivíduo em determinada rede social. No final de 2010, o site Baixaki examinou o perfil do brasileiro em redes sociais e os resultados ilustram graficamente esta nota:

O tempo empregado na utilização das redes é reveladora:

A identidade de gênero e o ranking ficam em evidência:

Artigo completo: https://migre.me/3Mhsg

 

Por um sexo menos ordinário

 

Muitas sociedades impõem limites rigorosos a sexualidade do individuo, basta pensar nas punições extremas dos países muçulmanos. O caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, por exemplo, provocou comoção internacional, visto que o delito era o adultério e um suposto assassinato do marido. A orientação da atividade sexual nesses países é claramente definida pela religião, entretanto, em outras culturas ultrapassa os limites do credo. Historicamente, as sociedades e suas organizações político-sociais variam seus níveis de inibição dependendo da densidade demográfica, ou seja, na medida em que não há necessidade de reprodução, o foco passa a ser a repressão da sexualidade e, dessa maneira, o valor de uma mulher nessas comunidades é medido por quanto foi pago por ela – na África Oriental a quantia tem a ver com quantas vacas estão envolvidas na negociação.

Apesar de vivermos num contexto de aparente liberação sexual e suas manifestações, da exposição de corpos no carnaval à poesia funkeira, o discurso de livre sexualidade aparece como tema de filmes e novelas, contrapondo casos em que homossexuais são alvo de linchamento público, e em poucos casos se observa punição aos envolvidos, nesse caso necessária já que violam os direitos mais básicos. Até pouco tempo atrás o divórcio não era visto com bons olhos pelos brasileiros, hoje, no entanto ouve-se em muitas rodas: “se não der certo, separa”. A expressão parece legitimar uma atitude mais livre, um casamento sem necessidade de comprometimento.

Sendo assim, nada mais radical que optar por se unir a alguém já que a possibilidade de ser livre das obrigações que o casamento define é inversamente proporcional. Segundo João Mohana, não basta amar para ser feliz no casamento. Por isso, um individualista não experimentará a profundidade da experiência conjugal. Fatalmente, tem-se aí a matéria-prima de muitas crises.

Não à toa, os padrões de dupla moralidade aparecem nas definições do homem ocidental, que apesar de casado não deixe de praticar uma livre sexualidade baseada no poder do gênero: ser homem é estar pronto para transar. O treinamento da sexualidade masculina é bem diferente da criação feminina. De forma geral, elas são criadas para serem a metade do casal e eles predadores sexuais: ativos, assertivos, não-verbais, assumidores de riscos.

Os efeitos práticos dessas experiências são seres humanos dependentes de sexo e afeto.

Observação: as imagens que ilustram este post são frames do filme ‘Antichrist’ cometido pelo cineasta dinamarquês Lars von Trier.

 

 

O culto ao corpo: uma análise pela perspectiva da antropologia cultural

 

“O seu corpo é a base e a metáfora da sua vida, a expressão da sua existência. É a sua Bíblia, sua enciclopédia, sua história de vida. Tudo o que acontece com você é armazenado e refletido no seu corpo. No casamento da carne e do espírito, o divórcio é impossível.” (Gabrielle Roth)

O mito grego de Narciso, em que um belo rapaz deixou-se consumir diante da margem de um rio, apaixonado por sua imagem que se refletia nas águas, sem se dar conta de que era seu próprio reflexo, serve de bom exemplo para o que se pretende abordar neste ensaio: o culto ao corpo, uma análise pela perspectiva da antropologia cultural.

A valorização do individualismo abarca os conflitos do homem moderno e neste recorte, dos brasileiros que na busca por identidade se priva da interação como forma de se comunicar, fazer parte do social e só consegue achar a própria imagem, refletida no espelho da sua cultura e a implicação mais próxima é a enxergar apenas no corpo o resultado de quem ele é.

Partindo desse princípio, o culto ao corpo não pode ser entendido apenas como fenômeno moderno e sem implicações mais profundas. Sua origem remonta ao culto religioso, que segundo Bosi “dá sentido ao tempo redimindo-o da entropia cotidiana e da morte que cada novo minuto decreta sobre o anterior”. Entretanto, com o passar dos tempos o corpo, que em tempos medievais era submetido a castigos por conta do pecado, hoje representa a subjetividade da cultura contemporânea e mais, transforma-se de acordo com a massificação estética e ideológica que programas televisivos de grande audiência, como “Big Brother Brasil (BBB)” e “Dr. Hollywood” nutrem.

As conseqüências de um culto ao corpo na cultura de massa do Brasil alcançam a discussão antropológica por analisar as perspectivas e implicações culturais que isso representa. Como indica Stolcker: “A modernidade da antropologia social faz dela uma ferramenta de investigação que, não obstante, deve ser ela mesma perpetuamente interrogada. Uma reflexão constante sobre os modos de pensar ‘moderno’ é inseparável da investigação antropológica”

Dessa forma, é necessário entendermos como o brasileiro relaciona-se com este mundo social em que um princípio supremo é a valorização do corpo, ou a devoção (culto) ao corpo. A indústria cultural e a ênfase dada a reality-shows com essa tônica captam audiências fiéis no ciclo viciante de devoção ou adoração ao corpo, objeto de culto. Ao oferecem ao telespectador a oportunidade de ter ele mesmo um corpo perfeito, seja pela intervenção cirúrgica, seja pela atividade física, um comportamento linear se apresenta: o desejo quase que “religioso” por ter um corpo como aquele artista, aquele ex-BBB. Essa necessidade de aceitação social, parecer belo, seguro e confiante, bem sucedido alimentam as práticas da dimensão simbólica que um bom corpo representa. É necessidade imperativa, quase uma compulsão na qual se somam duas sensações poderosamente prazerosas – com a forma física alcançada e com o domínio da vontade sobre o corpo.

A ideologia existente no culto ao corpo revela-se na doutrina ou sistema de valores que a indústria cultural explora. Por outro lado, o processo social no qual os brasileiros definem e modelam suas vidas deve ser entendido como a busca pelo estilo (estética corporal) que lhe facilitará a inclusão em diversos grupos sociais.

Os padrões de beleza sofrem há milênios a influência da cultura. O desejo de diferenciação social, segundo estudiosos, tem papel fundamental na definição do que é belo: quanto mais afastado dos estratos subordinados e mais próximo das elites, mais bonito se é. “A polaridade, no caso da beleza corporal, enraíza-se em uma profunda rede de exclusões. Inacessível à maioria, o belo é um signo de distinção social para poucos”, afirma a historiadora Maria Angélica Soler, da PUC de São Paulo em entrevista à revista Veja em fevereiro de 2008. A história do Brasil oferece exemplos: no final do século XIX, mulheres acima do peso como dona Domitila de Castro, a marquesa de Santos por quem dom Pedro I ficou apaixonado, estavam longe de ser consideradas fora do padrão. Corpos cheios, braços roliços e seios fartos, cobertos por uma macia camada adiposa eram representações por oposição da escravaria. O moreno e o negro eram relegados à posição de trabalhadores braçais. Já nos anos 60 e 70 a figura de Leila Diniz, bronzeada, ousada em seus biquínis, era a representação do belo. Mulheres passaram a utilizá-la como modelo na busca por um corpo semelhante.

A massificação e a importação de modelos culturais hegemônicos separam ainda mais o brasileiro dele mesmo. Para Bosi, “os símbolos e os bens culturais não são objetos de análise detida ou de interpretação sistemática. Eles são vividos e pensados, esporadicamente, mas não tematizados em abstrato”. As estruturas de consolação a que Umberto Eco se refere e Bosi faz menção, para qualificar o sentido e manter a atenção de milhares de consumidores, aparecem nessa estratégia de dominação das mentes brasileiras no que cerca a questão do corpo e sua manutenção seguindo modelos pré-fabricados. Neste processo, outros símbolos são criados para controlar o modo de vida das pessoas (dietas) e para gerar lucros (remédios para emagrecer, academia). Essa cultura industrial em volta do culto ao corpo chocasse com a cultura erudita na medida em que a reprodução de modelos torna-se sua característica mais fundamental. É importante ainda que não se tenha esperanças que esse quadro transforme-se. Não se deve esperar da cultura de massas e, menos ainda, da sua versão capitalista de indústria cultural, o que ela não quer dar: lições de liberdade social e estímulos para a construção de um mundo que não esteja atrelado ao dinheiro e ao status.

Se o culto ao corpo é, hoje, preocupação geral que atravessa todos os setores, classes sociais e faixas etárias, apoiado no discurso da estética e da preocupação com a saúde, a maneira como repercute no interior de cada grupo é imprevisível não dando margem para pressuposições de como se dará no futuro. Cuidar do corpo é muito bom, querer um corpo magro e belo também é bom, mas os limites que se tem ultrapassado para a conquista deste corpo é que devem ser avaliados e discutidos. A banalização do corpo na era contemporânea traz uma grande responsabilidade e a discussão totalmente válida à perspectiva antropológica.

O modernismo contemporâneo trouxe consigo o capitalismo desenfreado, onde tudo está à venda, incluindo o corpo. O capital procura matéria-prima e mão-de-obra para manipular.