Amor: a força que nos une
Ah, o amor... Quem não ouviu falar dele? Mas será que essa gente sabe que ele é diferente da paixão, que tem que ser aprendido e que dá um trabalhão conquistar?
Diferente da paixão, o amor não exige nada em troca
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Sabe aquela emoção que enche o peito, faz ferver o sangue, palpitar o coração? Pois é. Isso não é amor, não. Talvez seja paixão, desejo de se fundir no outro, surto emocional ou até mesmo uma mistura explosiva de tudo isso. Amor não é.
O amor de verdade começa depois do "The End" e é menos atormentado e impulsivo. Em compensação, é mais forte e profundo.
"O amor é uma árdua conquista. A paixão, obra do acaso, brincadeira dos deuses", escreveu o psicanalista austríaco Erich Fromm. Enfim, o amor é um sentimento cultivado com paciência, uma escolha que exige nossa participação ativa e consciente. Ele pode nascer da paixão, mas seguramente não possui a mesma natureza instantânea e efêmera.
Amar não é fácil, mas a recompensa é grandiosa. Quem diz isso é o Dalai Lama, um dos maiores conhecedores do amor. Segundo ele, o amor é a chave da maior felicidade que podemos provar na Terra.
De onde ele vem
O filósofo francês Roland Barthes é um dos que acreditam que um sentimento mais profundo pode nascer de uma paixão. No clássico 'Fragmentos de um Discurso Amoroso', ele diz que a primeira fase do amor é a paixão, que ele descreve assim: "Deslumbramento, entusiasmo, exaltação, projeção louca de um futuro pleno: sou devorado pelo desejo, a impulsão de ser feliz. Fico cego". Mas isso não dura, é claro.
Cientistas que se debruçaram a estudar a saúde do apaixonado concluíram que essa paixão dura dois anos, no máximo. Mais cedo ou mais tarde a cegueira passa e a realidade aflora, incluindo os defeitos do objeto da paixão, uma decepção que ele chamou de "paixão triste".
Pode ser o fim de uma relação. Ou o começo de um novo caminho, mais longo, menos acidentado, mais tranqüilo e feliz. Esse caminho é o amor.
"O amor consiste em dar, não em receber", diz Fromm. "Amar é um verbo, e verbos implicam uma ação concreta. A ação correspondente ao verbo amar é dar-se, sem pedir, cobrar ou esperar." A recompensa do amor é o próprio amor que se sente, que inunda o coração, não o amor que se recebe do outro.
Afinal, o que é?
Agora que já estabelecemos as diferenças entre amor e paixão já podemos arriscar uma definição de amor. E amar é... "considerar o outro em primeiro lugar". É uma mudança gigantesca com relação à paixão, tanto de qualidade de sentimento como de atitude.
O segredo desse sentimento é considerar quem se ama mais do que a si mesmo. "Contemple o ser amado e pergunte quem é ele (...), o que pode chegar a ser, o que ele necessita para isso, o que busca sua alma", escreveu no começo do século passado o editor e escritor inglês A.R. Orage. Ele diz que amar é se colocar conscientemente a serviço do outro, uma tarefa que exige autodisciplina, inteligência e esforço.
"Nunca na história da humanidade se deu tanta importância ao amor entre um homem e uma mulher, como agora", afirma o psicalista Jurandir Freire Costa
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O começo de tudo
O biólogo chileno Humberto Maturana diz que o ser humano é preparado para amar. Criador da biologia do amor, ele diz que aprendemos esse sentimento na relação com a mãe (ou o pai ou quem quer que cuide da criança) e no brincar, pois na brincadeira se estabelece a confiança no outro, ingrediente básico do amor.
Antropólogos também sabem que o amor faz parte de um aprendizado cultural, que depende da ênfase que uma determinada sociedade dá a ele. Ou seja, para aprender, a gente sempre aprende de alguém. E não se pode esquecer que essas pessoas que vão nos ensinar fazem parte de uma cultura, que pode dar mais ou menos importância ao amor.
A esse respeito, vivemos um momento excepcional. "Nunca na história da humanidade se deu tanta importância ao amor entre um homem e uma mulher (o amor romântico), como agora", disse o psicanalista Jurandir Freire Costa, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Acompanhando o raciocínio do professor, é possível ver como a noção de amor que temos hoje foi forjada na Idade Média, a partir do amor cortês dos trovadores, e definitivamente instaurada no século 19, com o romantismo europeu. Diz ele que o amor entre duas pessoas podia até acontecer, mas que absolutamente não fazia parte dos valores incentivados pelas antigas sociedades. "Era uma exceção", afirma.
É possível amar a todos?
Sem dúvida. "Amar de maneira incondicional é uma forma de evolução da consciência, um outro estágio do desenvolvimento da mente", afirma Lama Samten, estudioso do budismo tibetano. Para ele, amar e cuidar são sinônimos bem próximos.
A compaixão, como o amor, também pede que saiamos da frente para colocar o próximo em primeiro plano. Podemos dizer até que aquele amor entre duas pessoas, na medida em que se torna mais consciente e menos egocêntrico, torna-se um exercício que pode ser expandido na direção dos outros seres humanos. Ganha então novas cores e possibilidades.


