A medicalização na infância e adolescência .
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Segundo Foucault (1994), medicalização é um fenômeno produzido na construção do saber médico moderno. O poder da medicina para normatizar a vida social advém desta construção, que apresenta soluções da clínica médica para problemas que tem como principal causa as condições sociais e econômicas de vida. Assim, medicalização é o “processo que transforma artificialmente questões não médicas em problemas médicos” (ABRAPEE, 2009).
Na sociedade contemporânea, globalizada, competitiva e imediatista, cada vez mais pessoas buscam soluções instantâneas para resolver diferentes problemas, desencadeando efeitos alienantes do consumismo (inclusive de medicamentos) que, somados à necessidade de manter altos níveis de desempenho, ameaça o bem-estar das pessoas, necessitando de articulações dos “fazeres” dos profissionais na área da saúde. A discussão da saúde na escola tem sido historicamente construída sob um discurso que explicita “garantir condições de saúde adequadas para a aprendizagem, reduzindo as taxas de evasão e repetência” (COLLARES; MOYSÉS, 1992).
Desde a criação dos serviços de saúde na escola, a sua marca tem sido combater o chamado fracasso escolar. Dentre as explicações encontradas, destacamos as que atribuem patologias às crianças que não aprendem ou não se comportam conforme as expectativas. Medicalizar o fracasso escolar é interpretar o desempenho escolar do aluno desviante à norma como sintoma de uma doença localizada nele. Torna-se fundamental ressaltar que não estamos falando de indivíduos que de fato apresentam alguma disfunção ou sintomatologia comprovadamente orgânica e para o qual tratamentos, sejam eles psíquicos, médicos ou afins, são importantes para favorecer seu bem-estar e desenvolvimento global. Também não se nega o quanto mudanças culturais, condições econômicas e sociais interferem no desenvolvimento dos sujeitos e que intervenções neste setor através de políticas públicas e sociais efetivas seriam significativamente importantes.
O foco aqui é o quanto não se questiona, analisa e compreende o que se vive no contexto educacional de forma ampla, avaliando todas as relações e implicações do processo de ensino e aprendizagem, tendendo a rotular e responsabilizar os alunos e suas famílias sobre os chamados fracassos. Conforme questiona Benasayag (2001, p. 15): “Sem redefinir o modelo homogeneizador da escola continuamos conservando o paradigma médico-patológico que traduz o fracasso escolar em fracasso do aluno”. O processo de ensino e aprendizagem, a interação professor-aluno, as metodologias e estratégias de ensino têm sido relegadas. Questões como a pobreza, a carência cultural e as doenças das crianças são colocadas no centro dessa discussão e têm sustentado a permanência de certas práticas escolares. Continuam a evasão, a repetência e a baixa qualidade do ensino. A porta de entrada da saúde na escola é a doença, seja ela física ou psicológica, causada por fenômeno biológico ou cultural.
Segundo Collares e Moysés (1994, p. 30): “Os professores, que deveriam ser também os responsáveis por analisar problemas educacionais, assumem uma postura acrítica e permeável a tudo, transformando-se em mediadores, apenas triando e encaminhando as crianças para os especialistas da saúde. Essa prática acalma as angústias dos professores, não só por transferir responsabilidades, mas principalmente porque desloca o eixo de preocupações do coletivo para o particular”
Ressalta-se a importância da Psicologia Educacional , promovendo uma discussão ampla e conjunta com todos os atores do processo de escolarização. O profissional de psicologia, neste contexto, precisa ocupar o espaço de um fazer caracterizado pela escuta e questionamento, visando uma compreensão profunda, considerando vários enfoques presentes na realidade educacional. É fundamental entender que, a realidade da criança e adolescente, o papel de todos os envolvidos no processo educativo é promover seu desenvolvimento e bem-estar, oferecendo condições de inserção social.
Essa realidade produz inquietações que remetem à necessidade de se colocar em ação projetos mais assertivos, que assegurem às crianças o respeito e o direito às suas individualidades e singularidades, respaldadas pelo Estatuto da Criança e do Adolescente.Na sociedade contemporânea, globalizada, competitiva e imediatista, cada vez mais pessoas buscam soluções instantâneas para resolver diferentes problemas, desencadeando efeitos alienantes do consumismo (inclusive de medicamentos) que, somados à necessidade de manter altos níveis de desempenho, ameaça o bem-estar das pessoas, necessitando de articulações dos “fazeres” dos profissionais na área da saúde.
FONTE: Núcleo da Educação da Subsede Serra do CRPRS
Simone Fragoso Courel -Marlete Susin Rodrigues- Rosa Veronese Iria -Jacob Luchese- Viviane da Costa Pinheiro- Mônica Fernanda Neukamp Wille


