A jornada da heroína.

A jornada da heroína, como qualquer jornada arquetípica de heróis, é um processo de individualização. O viajante empreende uma aventura fora do seu mundo normal para enfrentar inimigos e dragões. O herói vai superando testes com a ajuda de um mentor, real ou sobrenatural, que o prepara para enfrentar os desafios.
No caminho, encontrará provas decisivas, alguma de vida ou morte. Também há recompensas e um caminho de volta, que também não é livre de dificuldades. Os heróis vão se deparar com suas próprias sereias que tentarão por todos os meios que abandonem o caminho.
Essa jornada arquetípica consiste em nos tornarmos quem realmente somos, transformando a visão que temos do mundo e de nós mesmos. É uma busca por um sentido mais transcendente na vida e um desejo de manifestar nossa própria natureza. Foi o historiador Joseph Campbell que, em meados do século XX, popularizou o termo em seu livro O Herói de Mil Faces.
A jornada da heroína e suas diferenças em relação à jornada do herói
A jornada do herói, também conhecida como monomito, contém padrões válidos tanto para homens quanto para mulheres. É um caminho difícil e as mulheres têm um desafio extra: empreendê-lo no contexto de “um mundo de homens”. Nós, mulheres, nos vemos empurradas à busca de nossa própria identidade em um ambiente onde o feminino é definido/tratado muitas vezes como uma construção dependente, inferior e um objeto de tentação.
Estes são alguns dos dragões que devemos enfrentar se partirmos nessa viagem. Em muitos casos, a heroína inconscientemente comete o erro de encarar essa aventura tomando como referência o masculino. É assim que começamos quase tudo.

Há uma primeira ruptura com o mundo comum, por meio da qual a mulher busca sua identidade através do sucesso profissional, do poder e da “perfeição” física. Esses valores são fundamentalmente masculinos, arquetipicamente vinculados à jornada ascendente do mundo do sol, do intelecto e do poder. Em suma, ao mundo do pai.
Esta é uma etapa significativamente destrutiva para a mulher e muitas vezes é o prelúdio de um evento dramático em sua vida, como uma doença, uma grande perda ou o rompimento de uma relação. Este fato supõe um declínio da insondável psique feminina. É uma fase crítica onde a heroína se sente perdida, na qual sente que não controla nada. Ela não encontra referências que possam guiá-la, mas sim uma sensação que provoca confusão e, às vezes, muito sofrimento.
Integrando o feminino
A fase seguinte é de reencontro com sua própria natureza feminina e melhora das relações com outras mulheres. Nesta etapa, muitas vezes há encontros com mulheres sábias pelas quais a heroína sentirá uma grande admiração. Novas referências, novas maneiras que, até esse momento, estavam escondidas.
O racional já não explica os fatos e as circunstâncias em que nossa heroína se vê envolvida. Assim, começa uma etapa de encontro com o irracional e com o mundo subjetivo. A viajante assume a importância dos ciclos da natureza e dos seus próprios, do seu corpo. Integra fortemente uma inter-relação intuitiva com os elementos que a rodeiam.
A felicidade e o amor são dois dos conceitos que começam a ser vistos a partir de perspectivas muito diferentes. É um período tremendamente criativo, com uma imaginação fértil. Pode haver um reencontro e uma melhora na relação com a mãe ou com outras mulheres que a simbolizam. Mesmo quando a cura de sua relação com a mãe não é possível, ocorre um reencontro harmonioso com sua própria mãe interior, com sua própria natureza materna.
Integrando o masculino
O objetivo desta etapa da jornada é a integração do masculino. A integração de tudo aprendido na dolorosa primeira parte da aventura. Às vezes se manifesta através de uma mudança na relação difícil com o pai ou com quem o simboliza.
Abre-se uma fase de relações afetivas em que nossa heroína não renuncia a sua própria liberdade, e aparecem figuras masculinas em sua vida pelas quais ela desenvolve uma profunda admiração. Em suma, falamos de uma integração harmoniosa dos aspectos femininos e masculinos que, quando ocorre, geralmente também dá origem a alguma produção artística.

O regresso
Para as mulheres, retornar também significa uma reconciliação com seu próprio corpo e sua sexualidade. Há um reconhecimento do aspecto sagrado da parte feminina de todo ser humano. A heroína traz consigo toda essa sabedoria para o retorno de sua própria odisseia.
A voz interior de julgamento foi deixada na estrada. Valores importantes como sucesso ou amor romântico foram transformados. A heroína retorna com uma visão simbiótica do mundo em que vivemos e com uma intuição reforçada.
É uma jornada de declínio, escura e cheia de dificuldades para as profundezas da nossa própria psique. Uma jornada que nem sempre queremos percorrer e para a qual nunca estaremos preparadas. E você? Já sentiu o chamado?
Os arquétipos são elementos recorrentes do inconsciente, predisposições da psique humana que correspondem a padrões emocionais, comportamentais e cognitivos. Estes padrões determinam nossa forma de processar sensações, preocupações e símbolos. Além disso, representam diferentes papeis e são de caráter onírico e universal. Neste artigo, vamos tratar do arquétipo feminino e sua essência, a Ira Transformadora.
Para começar, nós devemos saber que tais elementos foram repetidos diversas vezes nos mitos, nas lendas, nas religiões, nos sonhos e na arte durante toda a história. São modelos simbólicos coletivos através dos quais são expressadas uma série de experiências comuns a todos nós.
São desenvolvidas no entorno cultural, não no individual, e são parcialmente herdadas. Expressamos tais arquétipos através de reações emocionais, em nosso comportamento e em nossas projeções aos demais, embora não sejamos sequer conscientes de tê-los ativados. Foi o psiquiatra e psicanalista Carl Jung quem propôs esta construção em seu livro ‘Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo’.
“Uma tendência inata em gerar imagens com intensa carga emocional que expressam a primazia relacional da vida humana.”
-Carl Jung-
Os arquétipos femininos
Nos anos 80, a psiquiatra e analista Jean Shinoda Bolen rompeu com os rígidos esquemas relacionados à mulher que os enfoques psicanalistas tinham, com seu livro “As deusas de cada mulher”. Seu trabalho transformou drasticamente a psicologia feminina ao descobrirmos os esquecidos arquétipos de deusas recuperadas da mitologia universal.
Dentre o amplo elenco de deusas arquetípicas, algumas delas, especialmente as vinculadas à sabedoria, parecem se ativar em nós quando alcançamos a idade madura. Entre todas estas deusas, duas delas são as minhas favoritas. É delas que vou falar neste artigo.

As deusas da Ira Transformadora: Sekhmet e Khali
As deusas da Ira Transformadora são mulheres capazes de expressar sua raiva. Elas não a negam nem reprimem, nem a dirigem contra elas mesmas. São deusas ferozes, protetoras, de instinto selvagem, mas cada vez mais capazes de se transformar em seres fortes e serenos.
Estas duas divindades eram convidadas para lutar contra os demônios do mundo e para vencer as forças malignas quando nenhuma outra divindade podia enfrentá-los.
Eram deusas guerreiras que, no campo de batalha, inclinavam a balança entre a vida e a morte. Nas duas, acontece uma batalha interior entre a natureza divina e a demoníaca. Sekhmet quase destruiu a raça humana e Khali voltou da batalha com os demônios presos a sua saia.
Ambas têm um aspecto aterrorizante e podem criar vida, conservá-la e destruí-la. Conhecem, por experiência, os horrores do mundo, e se mostram ferozes ao defender uma causa. São as protetoras dos valores, decididas a mudar as coisas para melhor.
O que simbolizam
O arquétipo das deusas da Ira Transformadora simboliza a indignação e a raiva diante de situações pessoais ou sociais injustas. Representa o estado de cólera diante da intolerância e de fúria pela indiferença diante do sofrimento de qualquer ser.
É na idade madura que as mulheres reconhecem muitas dessas situações e reagem dando um soco na mesa e dizendo: Chega! Quando nos vemos dispostas a fazer algo para mudar, o arquétipo é ativado em nós.
As energias arquetípicas da Ira Transformadora são a representação da feroz compaixão feminina. Mulheres enfurecidas em protesto contra o que é inadmissível. É uma ruptura com o desvio de olhar, com o se conformar com as coisas. É o ponto de inflexão que atravessamos quando sabemos que as coisas não podem continuar assim.

Equilibrando com sabedoria
A Ira Transformadora é um arquétipo muito poderoso, por isso é preciso saber detectá-lo e controlá-lo quando ele está em funcionamento. Uma vez ativado, proporciona uma energia que pode ser devastadora para aqueles que nos cercam e, pior ainda, para nós mesmas.
A Ira deve ser equilibrada com a sabedoria para que se transforme em Ira Transformadora e funcione na direção correta. Não se trata de reprimir nossa raiva, nem de escondê-la ou negá-la, como fomos ensinadas a fazer desde pequenas. Mas é necessário equilibrá-la.
A sabedoria da experiência nos proporciona conhecimento suficiente para saber conter o primeiro impulso de devolver o insulto. O olho por olho nos leva a uma sucessão de violência e nos torna hostis e obsessivas.
É necessário canalizar a raiva e transformá-la em atos organizados e dirigidos sabiamente para mudar um acontecimento, uma situação ou uma injustiça. Trata-se de colocar as mãos à obra e traçar um plano que nos leve ao nosso objetivo. Sem esta sabedoria, a raiva só se transforma em cólera.
O objetivo da Ira Transformadora é o de dirigir os corações furiosos para melhorar suas próprias vidas e para criar um mundo melhor e mais justo.


