A jornada da heroína.

20/10/2018 16:39

A jornada da heroína, como qualquer jornada arquetípica de heróis, é um processo de individualização. O viajante empreende uma aventura fora do seu mundo normal para enfrentar inimigos e dragões. O herói vai superando testes com a ajuda de um mentor, real ou sobrenatural, que o prepara para enfrentar os desafios.

No caminho, encontrará provas decisivas, alguma de vida ou morte. Também há recompensas e um caminho de volta, que também não é livre de dificuldades. Os heróis vão se deparar com suas próprias sereias que tentarão por todos os meios que abandonem o caminho.

É uma jornada da psique humana com algumas etapas, reais e simbólicas, que não são comuns a todos e que passam pela separação da mãe e a aceitação do pai, entre outras.

Essa jornada arquetípica consiste em nos tornarmos quem realmente somos, transformando a visão que temos do mundo e de nós mesmos. É uma busca por um sentido mais transcendente na vida e um desejo de manifestar nossa própria natureza. Foi o historiador Joseph Campbell que, em meados do século XX, popularizou o termo em seu livro O Herói de Mil Faces.

A jornada da heroína e suas diferenças em relação à jornada do herói

A jornada do herói, também conhecida como monomito, contém padrões válidos tanto para homens quanto para mulheres. É um caminho difícil e as mulheres têm um desafio extra: empreendê-lo no contexto de “um mundo de homens”. Nós, mulheres, nos vemos empurradas à busca de nossa própria identidade em um ambiente onde o feminino é definido/tratado muitas vezes como uma construção dependente, inferior e um objeto de tentação.

Estes são alguns dos dragões que devemos enfrentar se partirmos nessa viagem. Em muitos casos, a heroína inconscientemente comete o erro de encarar essa aventura tomando como referência o masculino. É assim que começamos quase tudo.

 
Uma grande heroína

 

Há uma primeira ruptura com o mundo comum, por meio da qual a mulher busca sua identidade através do sucesso profissional, do poder e da “perfeição” física. Esses valores são fundamentalmente masculinos, arquetipicamente vinculados à jornada ascendente do mundo do sol, do intelecto e do poder. Em suma, ao mundo do pai.

Esta é uma etapa significativamente destrutiva para a mulher e muitas vezes é o prelúdio de um evento dramático em sua vida, como uma doença, uma grande perda ou o rompimento de uma relação. Este fato supõe um declínio da insondável psique feminina. É uma fase crítica onde a heroína se sente perdida, na qual sente que não controla nada. Ela não encontra referências que possam guiá-la, mas sim uma sensação que provoca confusão e, às vezes, muito sofrimento.

 

Integrando o feminino

A fase seguinte é de reencontro com sua própria natureza feminina e melhora das relações com outras mulheres. Nesta etapa, muitas vezes há encontros com mulheres sábias pelas quais a heroína sentirá uma grande admiração. Novas referências, novas maneiras que, até esse momento, estavam escondidas.

O racional já não explica os fatos e as circunstâncias em que nossa heroína se vê envolvida. Assim, começa uma etapa de encontro com o irracional e com o mundo subjetivo. A viajante assume a importância dos ciclos da natureza e dos seus próprios, do seu corpo. Integra fortemente uma inter-relação intuitiva com os elementos que a rodeiam.

felicidade e o amor são dois dos conceitos que começam a ser vistos a partir de perspectivas muito diferentes. É um período tremendamente criativo, com uma imaginação fértil. Pode haver um reencontro e uma melhora na relação com a mãe ou com outras mulheres que a simbolizam. Mesmo quando a cura de sua relação com a mãe não é possível, ocorre um reencontro harmonioso com sua própria mãe interior, com sua própria natureza materna.

Integrando o masculino

O objetivo desta etapa da jornada é a integração do masculino. A integração de tudo aprendido na dolorosa primeira parte da aventura. Às vezes se manifesta através de uma mudança na relação difícil com o pai ou com quem o simboliza.

Abre-se uma fase de relações afetivas em que nossa heroína não renuncia a sua própria liberdade, e aparecem figuras masculinas em sua vida pelas quais ela desenvolve uma profunda admiração. Em suma, falamos de uma integração harmoniosa dos aspectos femininos e masculinos que, quando ocorre, geralmente também dá origem a alguma produção artística.

Características da jornada da heroína

 

O regresso

Para as mulheres, retornar também significa uma reconciliação com seu próprio corpo e sua sexualidade. Há um reconhecimento do aspecto sagrado da parte feminina de todo ser humano. A heroína traz consigo toda essa sabedoria para o retorno de sua própria odisseia.

A voz interior de julgamento foi deixada na estrada. Valores importantes como sucesso ou amor romântico foram transformados. A heroína retorna com uma visão simbiótica do mundo em que vivemos e com uma intuição reforçada.

É uma jornada de declínio, escura e cheia de dificuldades para as profundezas da nossa própria psique. Uma jornada que nem sempre queremos percorrer e para a qual nunca estaremos preparadas. E você? Já sentiu o chamado?

Os arquétipos são elementos recorrentes do inconsciente, predisposições da psique humana que correspondem a padrões emocionais, comportamentais e cognitivos. Estes padrões determinam nossa forma de processar sensações, preocupações e símbolos. Além disso, representam diferentes papeis e são de caráter onírico e universal. Neste artigo, vamos tratar do arquétipo feminino e sua essência, a Ira Transformadora.

Para começar, nós devemos saber que tais elementos foram repetidos diversas vezes nos mitos, nas lendas, nas religiões, nos sonhos e na arte durante toda a história. São modelos simbólicos coletivos através dos quais são expressadas uma série de experiências comuns a todos nós.

São desenvolvidas no entorno cultural, não no individual, e são parcialmente herdadas. Expressamos tais arquétipos através de reações emocionais, em nosso comportamento e em nossas projeções aos demais, embora não sejamos sequer conscientes de tê-los ativados. Foi o psiquiatra e psicanalista Carl Jung quem propôs esta construção em seu livro ‘Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo’.

“Uma tendência inata em gerar imagens com intensa carga emocional que expressam a primazia relacional da vida humana.”
-Carl Jung-

Os arquétipos femininos

Nos anos 80, a psiquiatra e analista Jean Shinoda Bolen rompeu com os rígidos esquemas relacionados à mulher que os enfoques psicanalistas tinham, com seu livro “As deusas de cada mulher”. Seu trabalho transformou drasticamente a psicologia feminina ao descobrirmos os esquecidos arquétipos de deusas recuperadas da mitologia universal.

Dentre o amplo elenco de deusas arquetípicas, algumas delas, especialmente as vinculadas à sabedoria, parecem se ativar em nós quando alcançamos a idade madura. Entre todas estas deusas, duas delas são as minhas favoritas. É delas que vou falar neste artigo.

 
Tenho certeza de que muitas de vocês vão reconhecer este potente arquétipo já ativo em sua psique. Parece que as mulheres se tornam mais radicais contra as injustiças à medida que ficam mais velhas e, de certo modo, muito mais sábias.
Os arquétipos femininos

 

As deusas da Ira Transformadora: Sekhmet e Khali

As deusas da Ira Transformadora são mulheres capazes de expressar sua raiva. Elas não a negam nem reprimem, nem a dirigem contra elas mesmas. São deusas ferozes, protetoras, de instinto selvagem, mas cada vez mais capazes de se transformar em seres fortes e serenos.

Estas duas divindades eram convidadas para lutar contra os demônios do mundo e para vencer as forças malignas quando nenhuma outra divindade podia enfrentá-los.

Eram deusas guerreiras que, no campo de batalha, inclinavam a balança entre a vida e a morte. Nas duas, acontece uma batalha interior entre a natureza divina e a demoníaca. Sekhmet quase destruiu a raça humana e Khali voltou da batalha com os demônios presos a sua saia.

Ambas têm um aspecto aterrorizante e podem criar vida, conservá-la e destruí-la. Conhecem, por experiência, os horrores do mundo, e se mostram ferozes ao defender uma causa. São as protetoras dos valores, decididas a mudar as coisas para melhor.

O que simbolizam

O arquétipo das deusas da Ira Transformadora simboliza a indignação e a raiva diante de situações pessoais ou sociais injustas. Representa o estado de cólera diante da intolerância e de fúria pela indiferença diante do sofrimento de qualquer ser.

É na idade madura que as mulheres reconhecem muitas dessas situações e reagem dando um soco na mesa e dizendo: Chega! Quando nos vemos dispostas a fazer algo para mudar, o arquétipo é ativado em nós.

As energias arquetípicas da Ira Transformadora são a representação da feroz compaixão feminina. Mulheres enfurecidas em protesto contra o que é inadmissível. É uma ruptura com o desvio de olhar, com o se conformar com as coisas. É o ponto de inflexão que atravessamos quando sabemos que as coisas não podem continuar assim.

A mulher e os arquétipos femininos

 

Equilibrando com sabedoria

A Ira Transformadora é um arquétipo muito poderoso, por isso é preciso saber detectá-lo e controlá-lo quando ele está em funcionamento. Uma vez ativado, proporciona uma energia que pode ser devastadora para aqueles que nos cercam e, pior ainda, para nós mesmas.

A Ira deve ser equilibrada com a sabedoria para que se transforme em Ira Transformadora e funcione na direção correta. Não se trata de reprimir nossa raiva, nem de escondê-la ou negá-la, como fomos ensinadas a fazer desde pequenas. Mas é necessário equilibrá-la.

A sabedoria da experiência nos proporciona conhecimento suficiente para saber conter o primeiro impulso de devolver o insulto. O olho por olho nos leva a uma sucessão de violência e nos torna hostis e obsessivas.

É necessário canalizar a raiva e transformá-la em atos organizados e dirigidos sabiamente para mudar um acontecimento, uma situação ou uma injustiça. Trata-se de colocar as mãos à obra e traçar um plano que nos leve ao nosso objetivo. Sem esta sabedoria, a raiva só se transforma em cólera.

O objetivo da Ira Transformadora é o de dirigir os corações furiosos para melhorar suas próprias vidas e para criar um mundo melhor e mais justo.