A importância do amor-próprio.

Desde pequenos, ensinam-nos condutas de cuidado pessoal em relação a nosso corpo: escovar os dentes, tomar banho, manter as unhas limpas, comer, controlar os esfíncteres, nos vestir e coisas desse tipo. Mas e o autocuidado psicológico e a higiene mental? Prestamos atenção suficiente a isso? Colocamos isso em prática? Ressaltamos a importância do amor-próprio?
A imagem que você tem de si mesmo não é herdada ou geneticamente determinada, é aprendida. O cérebro humano conta com um sistema de processamento de informação que permite armazenar um número praticamente infinito de dados. Essa informação, que recolhemos da experiência social ao longo da vida, é guardada na memória de longo prazo em forma de crenças e teorias. Assim, temos modelos internos de objetos, significados de palavras, situações, tipos de pessoas, atividades sociais e muito mais. Esse conhecimento do mundo, equivocado ou não, nos permite prever, antecipar e nos preparar para enfrentar o que venha a acontecer. O futuro está no passado armazenado. A principal fonte para criar a visão do mundo que você assume e pela qual se guia surge do contato com pessoas (amigos, pais, professores) de seu universo material e social imediato. E as relações que estabelece com o mundo circundante desenvolvem em você uma ideia de como acredita ser. Os fracassos e sucessos, os medos e inseguranças, as sensações físicas, os prazeres e desgostos, a maneira de enfrentar os problemas, o que lhe dizem e o que não lhe dizem, os castigos e os prêmios, o amor e a rejeição percebidos, tudo conflui e se organiza em uma imagem interna sobre sua própria pessoa: seu eu ou seu autoesquema. Você pode pensar que é lindo, eficiente, interessante, inteligente e bom, ou o contrário (feio, ineficiente, chato, tolo e mau). Cada um desses qualificativos é o resultado de uma história prévia, na qual você foi gestando uma “teoria” sobre si mesmo que, no futuro, dirigirá seu comportamento. Se você acredita que é um perdedor, não vai tentar ganhar. Vai dizer a si mesmo: “Para que tentar? Eu não consigo ganhar” ou “Isso não é para mim” ou “Não valho nada”. Nós, humanos, temos uma tendência conservadora de confirmar, mais que negar, as crenças que mantemos armazenadas em nosso cérebro durante anos.
Somos resistentes à mudança por natureza, e essa economia do pensamento nos torna obstinados e pouco permeáveis aos estímulos novos. Uma vez estabelecidas as crenças, é difícil mudá-las, mas não impossível. Desse modo, quando você configura um autoesquema negativo sobre si mesmo, ele o acompanhará durante o resto de sua vida se não se esforçar para modificá-lo. Além disso, de maneira não consciente, você fará muitas coisas para testar esse esquema, mesmo que seja prejudicial para você . Por exemplo, se você se deixar levar pelo autoesquema “Sou um inútil”, sem perceber, o medo de errar o fará cometer uma infinidade de erros, e você confirmará a previsão mental subjacente. A crença de que você é feio, ou feia, o levará a pôr o pé no freio e evitar relações interpessoais, e a conquista afetiva/sexual se transformará em algo inatingível (ninguém vai reparar em você se não se arriscar). Um autoesquema de fracasso o fará não se atrever a enfrentar desafios e testar sua capacidade e, por isso, acabará acreditando que o sucesso o evita. Não existe nenhum segredo misterioso nem quântico nisso: em psicologia cognitiva, isso é conhecido como profecia autorrealizável, e, em psicologia social, como efeito Pigmaleão. Existe uma coerência negativa: mesmo sabendo que aquilo não é bom, você tentará agir de maneira compatível com as crenças que tem de si mesmo. A mudança ocorrerá quando a realidade se impuser sobre suas crenças e você não mais puder distorcer a informação e enganar a si mesmo. Uma boa autoestima tem inúmeras vantagens.
Só para citar algumas, ela lhe permitirá:
• Aumentar as emoções positivas. Você se afastará da ansiedade, da tristeza e da depressão e se aproximará da alegria e da vontade de viver bem e melhor.
• Atingir níveis de maior eficiência nas tarefas que empreende. Você não se dará por vencido com facilidade, vai perseverar nas metas e se sentir competente e capaz.
• Relacionar-se melhor com as pessoas. Tirará de suas costas o desagradável medo do ridículo e a necessidade de aprovação, porque você será o principal juiz de sua conduta. Não que os outros não interessem, mas você não dependerá dos aplausos e dos reforços externos e lidará com as críticas de maneira mais objetiva.
• Amar seu parceiro e gostar de seus amigos mais tranquilamente. Você dependerá menos deles e estabelecerá um vínculo mais equilibrado e inteligente, sem o terrível medo de perder os outros. • Ser uma pessoa mais independente e autônoma. Você se sentirá mais livre e seguro para tomar decisões e dirigir sua vida.
Os quatro pilares que, a meu ver, são os mais importantes para configurar a autoestima geral. Embora na prática eles estejam mesclados, tentarei separá-los conceitualmente apenas por fins didáticos, para poder analisá-los melhor:
• autoconceito (o que você pensa de si mesmo);
• autoimagem (que opinião tem de sua aparência);
• autorreforço (em que medida você se premia e se gratifica);
• autoeficácia (quanta confiança você tem em si mesmo).
Se estiverem bem estruturados, serão os quatro suportes de um ego sólido e saudável; se funcionarem mal, serão como os quatro cavaleiros do Apocalipse. Se falhar em algum deles, isso será suficiente para que sua autoestima se mostre manca e instável. E se um único cavaleiro desembestar, os três restantes o seguirão como uma pequena manada fora de controle.
Um amor-próprio saudável e bem constituído partirá de um princípio fundamental: “Eu mereço tudo aquilo que me faça crescer como pessoa e ser feliz”.
M-e-r-e-ç-o: assim, saboreado letra a letra. Não importa o que pense: você não merece sofrer, de modo que, enquanto puder evitar o sofrimento inútil e desnecessário, estará respeitando a si mesmo. Não existe felicidade completa sem respeito próprio, sem se manter fiel a seu próprio ser e ao potencial que tem dentro de si.


