A Concepção de Aprendizagem
A Concepção de Aprendizagem A nal, o que é aprender? Como se dá a aprendizagem? Quais capacidades a pessoa deve adquirir para aprender? Como se dá o processamento das informações durante a aprendizagem? Por que algumas pessoas têm di culdades em aprender algo que aparenta ser tão simples para outras? Questões como essas tem sido ponto de discussão há muitos anos nas áreas das ciências e da educação. A necessidade de compreensão sobre a conceitualização e os modelos de aprendizagem vem determinando ações no meio escolar, nas pesquisas cientí cas e nas vidas das pessoas, principalmente quando apresentam di culdades em suas habilidades básicas da vida acadêmica e social. A busca pela de nição, causas e tipos de Di culdade de Aprendizagem zeram com que nascessem novas concepções e mecanismos para o diagnóstico e a intervenção, visando possibilitar a superação do dé cit, mas para isso é relevante que primeiramente se tente compreender o que é e como se dá a aprendizagem (Figura1).
Principais causas das di culdades de Aprendizagem As di culdades de aprendizagem de ordem neurológicas podem ter origem a partir de uma lesão cerebral, falhas no desenvolvimento cerebral ou por desequilíbrio químico. As causas também podem estar ligadas a fatores hereditários e inµ uências ambientais, sejam elas de cunho familiar ou escolar. O DSM-5 (2014) indica a origem neurobiológica e o categoriza como um transtorno do neurodesenvolvimento o qual é à base das anormalidades no nível cognitivo e se associa as manifestações comportamentais. Caso o aluno tenha histórico de familiares (Figura 3) com di culdades de leitura (dislexia) e de alfabetização devemos estar atentos a possíveis problemas de alfabetização ou transtorno especí co da aprendizagem Figura 3 - Familiares, a hereditariedade é causa da maioria dos transtornos especí cos Fonte: https://www.a12.com/ les/media/originals/f1.png Para saber mais sobre o trabalho desenvolvido pelo Comitê Misto Nacional de Aprendizagem acesse ao site - Learning Disabilities on line disponível em: https:// www.ldonline.org/ Apesar da discussão terminológica, utilizarse-á como opção terminológica, o termo Di culdade para indicar os atrasos na aprendizagem e no uso de habilidades acadêmicas, como orientação para categorização optou-se pela concepção mais atual, no caso do DSM5 (2014). Acredita-se ainda que para além da discussão terminológica faz-se muito mais importante buscar saber as causas principais das di culdades de aprendizagem. 22 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Como enfatiza o DSM-5 (2014, p.68) “[...] a origem biológica inclui uma interação de fatores genéticos, epigenéticos e ambientais que inµ uenciam a capacidade do cérebro para perceber ou processar informações verbais ou não verbais com e ciência e exatidão” (ver Anexos). Algumas di culdades de aprendizagem são diretamente ligadas a lesões cerebrais, surgidas a partir de traumas cranianos, hemorragias cerebrais e tumores, febres altas e doenças como, encefalite e meningite. Existem, ainda, fatores relacionados à desnutrição, exposição a sustâncias tóxicas e, a tratamento com radiação e quimioterapia, falta de oxigênio e complicações antes ou durante o parto, doenças ou exposições a drogas durante a gravidez, sufocação, afogamento, inalação de fumaça, envenenamento por monóxido de carbono (SMITH; STRICK, 2012). Quanto às falhas no desenvolvimento cerebral que podem ocorrer durante a gravidez ou na primeira e segunda infância tem sido objeto de estudo de neurocientistas há muitos anos. A ênfase na causa neurológica (Figura 4) ocorre não apenas pelo início das pesquisas sobre o comportamento cerebral da criança com desordem no aprendizado ter sido de origem cientí ca, mas também pelo êxito na união dos estudos dos neurocientistas e educadores, apesar de haver dúvidas e questões sobre o modo em que a aprendizagem é processada no cérebro das pessoas que sofreram ou sofrem alterações no ato de aprender. Muitas pesquisas realizadas pela neurociência têm proporcionado, à vida de muitas pessoas, novos modos de aprender. Figura 4 - O cérebro da pessoa com di culdades de aprendizagem por ter diferentes áreas afetadas Fonte: https://www.nerdweek.com.br/wp-content/uploads/2011/10/cerebro2.png para saber mais sobre as causas das di culdades de Aprendizagem acesse: Instituto ABCd - https://www. institutoabcd.org.br/ portal/ Comceitualizando Aprendizagem e Di culdade de Aprendizagem | UNIDADE 1 23 Porém, entre os estudos dos neurocientistas e educadores, ainda há muitas dúvidas e questões sobre o modo em que a aprendizagem é processada no cérebro das pessoas com alterações nas funções cognitivas, isto é que são consideradas com di culdade de aprendizagem. A cognição é a capacidade para armazenar, transformar e aplicar o conhecimento, sendo um amplo leque de processos mentais. Através da natureza da cognição que o sujeito compreende os processos e produtos mentais superiores. Ela é um processo formado por um sistema complexo de componentes (LIRA, 2012). A palavra cognição do latim cognitione, signi ca ação de adquirir, absorver conhecimento, é apresentada por Platão e Aristóteles quando de nem as diferenças entre psicologia e loso a e estudam as questões relativas ao intelecto. Para Platão o intelecto estava na alma e para Aristóteles, o intelecto surgia da relação entre a alma e o corpo (GOMES, 2006). O intelecto ligado à capacidade humana de conhecer, de acumular o conhecimento e processar as informações apresenta a cognição como o processo mental em si, caracterizado por suas funções, denominadas funções cognitivas, são elas: memória, atenção, percepção, juízo, imaginação, pensamento e linguagem, representação de conhecimento, raciocínio, criatividade e resolução de problemas (Figura 5). Figura 5 - A cognição Fonte: https://i.ytimg.com/vi/kIOEHrm0iYc/maxresdefault.jpg A cognição é ato ou processo de conhecer, que inclui estados mentais e processos como pensar, a atenção, o raciocínio, a memória, o juízo, a imaginação, o pensamento, o discurso, a percepção visual e audível, a aprendizagem, a consciência, as emoções. 24 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO É este processo mental que possibilita o intelecto entender as situações desde as mais simples até aquelas que requerem atividades cerebrais elaboradas, e cabe a Psicologia Cognitiva o estudo da cognição e de suas funções cognitivas. Os fatores das diculdades de aprendizagem por desequilíbrio químico estão ligados às irregularidades nos cérebros, mais precisamente nos neurotransmissores (Figura 6), quando há uma falha nessas conexões há a prescrição de medicações para que o desequilíbrio químico seja reorganizado. Figura 6 - Falhas nas conexões dos neurotransmissores causam prejuízos na área da compreensão Fonte: https://i.ytimg.com/vi/kIOEHrm0iYc/maxresdefault.jpg A cada novo estímulo que chega ao cérebro, novas conexões são formadas neste complexo sistema de informações que são armazenadas uma a uma. Durante a aprendizagem os sujeitos passam por uma transformação e se tornam um novo sujeito. Visto que a aprendizagem é um processo pelo qual as competências, habilidades, conhecimentos, comportamento ou valores do sujeito são adquiridos ou modicados de acordo com as experiências vividas por ele, sejam resultadas do seu estudo, formação, do raciocínio ou da observação de uma situação. Segundo o cientista japonês Hideaki Koizumi, o aprendizado é “um processo pela qual o cérebro reage aos estímulos ao fazer conexões neurais, que agem como um circuito para o processamento e armazenamento das informações” (BARROS, 2012, p. 10). Comceitualizando Aprendizagem e Di culdade de Aprendizagem | UNIDADE 1 25 Na visão neurobiológica, durante a aprendizagem quando a área cortical é ativada, direcionada por um estímulo, outras áreas poderão sofrer alterações, visto que o cérebro possui inúmeras vias de associações, organizadas e que atuam em duas direções, mais que podem sair ou não da sustância cinzenta, chegando até a substância branca, quando for o caso de feixes longos que se direcionam de um lobo a outro, dentro do mesmo hemisfério, criando assim conexões intra-hemisféricas. Existem ainda os feixes comissurais, que direcionam atividade de um hemisfério para outro, sendo o corpo caloso o principal desses condutores. As funções nervosas superiores desempenhadas pelo córtex cerebral apresentam associações recíprocas entre as diversas áreas corticais, tornando assim seguras a chegada de impulsos sensitivos, sua decodi cação e associação, até a atividade motora de resposta (RELVAS, 2010). Este processo de aquisição de novas informações que cam arquivados na memória, chamado de aprendizagem, em que o cérebro reage aos estímulos do ambiente ativando as sinapses, é caracterizado por ser um processo no qual se adquire novos conhecimentos. Porém, quando há falta nas intensidades das sinapses ou há alterações de circuitos que processam informações com capacidade de armazenamento molecular tem-se uma disfunção da rede neuronal, que leva o sujeito aprendiz a apresentar di culdades especí cas no funcionamento cognitivo e no comportamento adaptativo. Se este sujeito apresenta estas alterações desde a infância, isso signi ca que ele passa por um processo de disfunção cerebral (neurônio), que pode ocorrer de forma localizada, ou difusa e ainda causada por conexões anormais. Essas alterações são observadas exteriormente a partir das di culdades que o sujeito irá apresentar em situações que requerem o seu raciocínio lógico, na resolução de problemas, em atividades ligadas à memória, atenção, identi cação do “eu”, atividades sensoriais, perceptivas, uso das funções executivas, do pensamento, da linguagem, da interpretação etc. Os fatores hereditários das di culdades de aprendizagem (Figura 7) têm sido con rmados por pesquisadores desde a década de 1980. Estas pesquisas a rmam que fatores hereditários têm função determinante em crianças com di culdades de aprendizagem, principalmente no caso de crianças com transtorno de dé cit de Atenção e Hiperatividade/ TdAH (SMITH, STRICK, 2012). O TDAH é um exemplo de transtorno do neurodesenvolvimento que pode se apresentar por conta de fatores hereditários, por isso, a avaliação diagnóstica e anamnese serem tão importantes no processo de identi cação e intervenção. 26 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Figura 7 - O TDAH Fonte: https://www.contrapauta.com.br/wp-content/uploads/2014/04/imagem-tdah.jpg Discutir sobre as inµuências ambientais é pertinente, apesar das diculdades de aprendizagem possuírem causas siológicas, como comenta Smith e Strick (2012) o ambiente em que a criança vive afeta diretamente a forma e o nível em que se apresentam seus décits na aprendizagem, por isso podemos indicar dentro das inµuências ambientais causas educacionais e causas familiares ou do ambiente doméstico. As causas educacionais das diculdades de aprendizagem devem ser estudadas pelo educador, visto que ele trabalha dia a dia com o aprendizado de seus alunos e necessita perceber se algo está comprometendo a aprendizagem dos mesmos. Se positivo, a raiz poderá estar relacionada às práticas pedagógicas desenvolvidas em sala de aula que tem levado este grupo de alunos ao fracasso escolar. resumo Nesta aula, estudamos que para se compreender a denição, causas e tipos de Di Comceitualizando Aprendizagem e Di culdade de Aprendizagem | UNIDADE 1 27 aprendizagem hoje concebidos pela escola e pela sociedade. Observamos que as Di culdades de Aprendizagem são Transtornos Especí cos da Aprendizagem com origem em dé cits no neurodesenvolvimento, caracterizados como disfunções no processo de aprender que podem ser a causa de prejuízos por toda a vida social e acadêmica do sujeito. Estudamos também, que as causas das Di culdades de Aprendizagem são motivo de grande discussão teórica no meio acadêmico, por isso é necessário seguir os paradigmas das entidades reconhecidas internacionalmente para que se busque organizar diagnósticos e intervenções, pois estudar sobre as causas das di culdades de aprendizagem é tentar revelar os segredos em que se dá o funcionamento da cognição e sua importância para o desenvolvimento infantil. atividades de aprendizagem 1. Discorra sobre qual a importância de compreender o conceito de aprendizagem antes de se tratar sobre as di culdades de aprendizagem. 2. De acordo com suas leituras, quais os prejuízos causados pelos Transtornos Especí cos de Aprendizagem? 3. Quais as principais causas das Di culdades de Aprendizagem? referências BARROS, Rubem et al. revista neuroeducação: vida longa ao seu cérebro. 2. ed. São Paulo: Editora Segmento, 2012. BOSSA, N. a psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. 28 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. política nacional de educação especial na perspectiva da educação Inclusiva. SEESP/MEC. Brasília, DF: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2008. CAMPOS, Dinah Martins de Souza. psicologia da aprendizagem. 40. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2013. CID – 10. Classiicação estatística internacional de doenças e problemas relacional à saúde. Décima revisão, OMS – Organização Mundial da Saúde, 2008. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2014. DUNKER, Christian Ingo Lenz and KYRILLOS NETO, Fuad. A crítica psicanalítica do DSM-IV: breve história do casamento psicopatológico entre psicanálise e psiquiatria. Rev. latinoam. psicopatol. fundam.[online]. 2011, v. 14, n. 4, p. 611-626. Disponível em: . Acesso em: 5 jan. 2015. GOMES, William B. História da psicologia: A Psicologia de Platão e Aristóteles. História da Psicologia. UFMG/FAFICH/D Psi. Minas Gerais, 2006. Disponível em: . Acesso em: 7 set. 2012. LIRA, Angela de Souza. Processos cognitivos e a metodologia centrada na inteligência do aluno. In:ENCONTRO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO DA FACULDADE SENAC, 6. anais...Pernambuco: Faculdade SENAC, 2012. LUCKASSON, R. et al. (2002). Mental retardion: denition, classication and systems of supports (10th ed.). Washington: American Association on Mental Retardation. MAIA, Heber (Org.). necessidades educacionais especiais. Coleção Neuroeducação, v. 3. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011. MAKISHIMA, E. A. C.; ZAMPRONI, E. C. B. transtornos funcionais especíicos. Secretaria de Estado da Educação. Superintendência de Estado da Educação. Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional. Paraná, 2012. Disponível em: . Acesso em: 30 set. 2014. Manual dIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO dE TRANSTORNOS MENTAIS. dSM-IV. Trad. Dayse Batista. 4. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. Comceitualizando Aprendizagem e Diiculdade de Aprendizagem | UNiDADE 1 29 Manual dIaGnÓstICo e estatÍstICo de transtornos MentaIS [recurso eletrônico]: dsM-5 / [American Psychiatric Association; tradução: Maria inês Corrêa Nascimento... et al.] ; revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli ...[et al.]. 5. ed. – Dados eletrônicos. Porto Alegre: Artmed, 2014. NATiONAL JOiNT COMMiTTEE ON LEARNiNG DiSABiLiTiES. learning disabilities and Young Children: identiication and intervention. National Joint Committee on Learning Disabilities. [Technical Report] October, 2007. Disponível em: . Acesso em: 23 dez. 2014. NATiONAL JOiNT COMMiTTEE ON LEARNiNG DiSABiLiTiES. learning disabilities and Young Children: identiication and intervention. National Joint Committee on Learning Disabilities. [Technical Report] October, 2007. Disponível em: . Acesso em: 23 dez. 2014. OECD. understanding the Brain: Towards a New Learning Science. Published by: Organisation for Economic Co-Operation and Development Publishing, Publication date: 13 Sep 2002. Disponível em: . Acesso em: 7 set. 2012. ORiGEM DA PALAVRA. origem etimológica de diiculdades de aprendizagem. SiTE. Disponível em: . Acesso em: 10 dez. 2014. PORTO, Olívia. psicopedagogia Institucional: Teoria, prática e assessoramento psicopedagógico, Rio de Janeiro: Wak Ed., 2006. RELVAS, M. P. neurociência e educação. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2010. ______. neurociência e transtorno de aprendizagem: as múltiplas eiciências para uma educação inclusiva. 5. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011. ______. neurociência na prática pedagógica. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012. SiSTO, F.F. Diiculdade de aprendizagem em escrita: instrumento de avaliação. (ADAPE). in: SiSTO, F. F.; BORUCKOViTCH, E.; FiNi, L. D; BRENELLi, R. P; MARTiNELLi, S. C.. diiculdades de aprendizagem no contexto psicopedagógico. Petrópolis: Editora Vozes, 2001. SMiTH, Corinne; STRiCK, Lisa. diiculdades de aprendizagem de a-Z: guia completo para educadores e pais. Porto Alegre: Penso, 2012.Principais causas das di culdades de Aprendizagem As di culdades de aprendizagem de ordem neurológicas podem ter origem a partir de uma lesão cerebral, falhas no desenvolvimento cerebral ou por desequilíbrio químico. As causas também podem estar ligadas a fatores hereditários e inµ uências ambientais, sejam elas de cunho familiar ou escolar. O DSM-5 (2014) indica a origem neurobiológica e o categoriza como um transtorno do neurodesenvolvimento o qual é à base das anormalidades no nível cognitivo e se associa as manifestações comportamentais. Caso o aluno tenha histórico de familiares (Figura 3) com di culdades de leitura (dislexia) e de alfabetização devemos estar atentos a possíveis problemas de alfabetização ou transtorno especí co da aprendizagem Figura 3 - Familiares, a hereditariedade é causa da maioria dos transtornos especí cos Fonte: https://www.a12.com/ les/media/originals/f1.png Para saber mais sobre o trabalho desenvolvido pelo Comitê Misto Nacional de Aprendizagem acesse ao site - Learning Disabilities on line disponível em: https:// www.ldonline.org/ Apesar da discussão terminológica, utilizarse-á como opção terminológica, o termo Di culdade para indicar os atrasos na aprendizagem e no uso de habilidades acadêmicas, como orientação para categorização optou-se pela concepção mais atual, no caso do DSM5 (2014). Acredita-se ainda que para além da discussão terminológica faz-se muito mais importante buscar saber as causas principais das di culdades de aprendizagem. 22 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Como enfatiza o DSM-5 (2014, p.68) “[...] a origem biológica inclui uma interação de fatores genéticos, epigenéticos e ambientais que inµ uenciam a capacidade do cérebro para perceber ou processar informações verbais ou não verbais com e ciência e exatidão” (ver Anexos). Algumas di culdades de aprendizagem são diretamente ligadas a lesões cerebrais, surgidas a partir de traumas cranianos, hemorragias cerebrais e tumores, febres altas e doenças como, encefalite e meningite. Existem, ainda, fatores relacionados à desnutrição, exposição a sustâncias tóxicas e, a tratamento com radiação e quimioterapia, falta de oxigênio e complicações antes ou durante o parto, doenças ou exposições a drogas durante a gravidez, sufocação, afogamento, inalação de fumaça, envenenamento por monóxido de carbono (SMITH; STRICK, 2012). Quanto às falhas no desenvolvimento cerebral que podem ocorrer durante a gravidez ou na primeira e segunda infância tem sido objeto de estudo de neurocientistas há muitos anos. A ênfase na causa neurológica (Figura 4) ocorre não apenas pelo início das pesquisas sobre o comportamento cerebral da criança com desordem no aprendizado ter sido de origem cientí ca, mas também pelo êxito na união dos estudos dos neurocientistas e educadores, apesar de haver dúvidas e questões sobre o modo em que a aprendizagem é processada no cérebro das pessoas que sofreram ou sofrem alterações no ato de aprender. Muitas pesquisas realizadas pela neurociência têm proporcionado, à vida de muitas pessoas, novos modos de aprender. Figura 4 - O cérebro da pessoa com di culdades de aprendizagem por ter diferentes áreas afetadas Fonte: https://www.nerdweek.com.br/wp-content/uploads/2011/10/cerebro2.png para saber mais sobre as causas das di culdades de Aprendizagem acesse: Instituto ABCd - https://www. institutoabcd.org.br/ portal/ Comceitualizando Aprendizagem e Di culdade de Aprendizagem | UNIDADE 1 23 Porém, entre os estudos dos neurocientistas e educadores, ainda há muitas dúvidas e questões sobre o modo em que a aprendizagem é processada no cérebro das pessoas com alterações nas funções cognitivas, isto é que são consideradas com di culdade de aprendizagem. A cognição é a capacidade para armazenar, transformar e aplicar o conhecimento, sendo um amplo leque de processos mentais. Através da natureza da cognição que o sujeito compreende os processos e produtos mentais superiores. Ela é um processo formado por um sistema complexo de componentes (LIRA, 2012). A palavra cognição do latim cognitione, signi ca ação de adquirir, absorver conhecimento, é apresentada por Platão e Aristóteles quando de nem as diferenças entre psicologia e loso a e estudam as questões relativas ao intelecto. Para Platão o intelecto estava na alma e para Aristóteles, o intelecto surgia da relação entre a alma e o corpo (GOMES, 2006). O intelecto ligado à capacidade humana de conhecer, de acumular o conhecimento e processar as informações apresenta a cognição como o processo mental em si, caracterizado por suas funções, denominadas funções cognitivas, são elas: memória, atenção, percepção, juízo, imaginação, pensamento e linguagem, representação de conhecimento, raciocínio, criatividade e resolução de problemas (Figura 5). Figura 5 - A cognição Fonte: https://i.ytimg.com/vi/kIOEHrm0iYc/maxresdefault.jpg A cognição é ato ou processo de conhecer, que inclui estados mentais e processos como pensar, a atenção, o raciocínio, a memória, o juízo, a imaginação, o pensamento, o discurso, a percepção visual e audível, a aprendizagem, a consciência, as emoções. 24 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO É este processo mental que possibilita o intelecto entender as situações desde as mais simples até aquelas que requerem atividades cerebrais elaboradas, e cabe a Psicologia Cognitiva o estudo da cognição e de suas funções cognitivas. Os fatores das diculdades de aprendizagem por desequilíbrio químico estão ligados às irregularidades nos cérebros, mais precisamente nos neurotransmissores (Figura 6), quando há uma falha nessas conexões há a prescrição de medicações para que o desequilíbrio químico seja reorganizado. Figura 6 - Falhas nas conexões dos neurotransmissores causam prejuízos na área da compreensão Fonte: https://i.ytimg.com/vi/kIOEHrm0iYc/maxresdefault.jpg A cada novo estímulo que chega ao cérebro, novas conexões são formadas neste complexo sistema de informações que são armazenadas uma a uma. Durante a aprendizagem os sujeitos passam por uma transformação e se tornam um novo sujeito. Visto que a aprendizagem é um processo pelo qual as competências, habilidades, conhecimentos, comportamento ou valores do sujeito são adquiridos ou modicados de acordo com as experiências vividas por ele, sejam resultadas do seu estudo, formação, do raciocínio ou da observação de uma situação. Segundo o cientista japonês Hideaki Koizumi, o aprendizado é “um processo pela qual o cérebro reage aos estímulos ao fazer conexões neurais, que agem como um circuito para o processamento e armazenamento das informações” (BARROS, 2012, p. 10). Comceitualizando Aprendizagem e Di culdade de Aprendizagem | UNIDADE 1 25 Na visão neurobiológica, durante a aprendizagem quando a área cortical é ativada, direcionada por um estímulo, outras áreas poderão sofrer alterações, visto que o cérebro possui inúmeras vias de associações, organizadas e que atuam em duas direções, mais que podem sair ou não da sustância cinzenta, chegando até a substância branca, quando for o caso de feixes longos que se direcionam de um lobo a outro, dentro do mesmo hemisfério, criando assim conexões intra-hemisféricas. Existem ainda os feixes comissurais, que direcionam atividade de um hemisfério para outro, sendo o corpo caloso o principal desses condutores. As funções nervosas superiores desempenhadas pelo córtex cerebral apresentam associações recíprocas entre as diversas áreas corticais, tornando assim seguras a chegada de impulsos sensitivos, sua decodi cação e associação, até a atividade motora de resposta (RELVAS, 2010). Este processo de aquisição de novas informações que cam arquivados na memória, chamado de aprendizagem, em que o cérebro reage aos estímulos do ambiente ativando as sinapses, é caracterizado por ser um processo no qual se adquire novos conhecimentos. Porém, quando há falta nas intensidades das sinapses ou há alterações de circuitos que processam informações com capacidade de armazenamento molecular tem-se uma disfunção da rede neuronal, que leva o sujeito aprendiz a apresentar di culdades especí cas no funcionamento cognitivo e no comportamento adaptativo. Se este sujeito apresenta estas alterações desde a infância, isso signi ca que ele passa por um processo de disfunção cerebral (neurônio), que pode ocorrer de forma localizada, ou difusa e ainda causada por conexões anormais. Essas alterações são observadas exteriormente a partir das di culdades que o sujeito irá apresentar em situações que requerem o seu raciocínio lógico, na resolução de problemas, em atividades ligadas à memória, atenção, identi cação do “eu”, atividades sensoriais, perceptivas, uso das funções executivas, do pensamento, da linguagem, da interpretação etc. Os fatores hereditários das di culdades de aprendizagem (Figura 7) têm sido con rmados por pesquisadores desde a década de 1980. Estas pesquisas a rmam que fatores hereditários têm função determinante em crianças com di culdades de aprendizagem, principalmente no caso de crianças com transtorno de dé cit de Atenção e Hiperatividade/ TdAH (SMITH, STRICK, 2012). O TDAH é um exemplo de transtorno do neurodesenvolvimento que pode se apresentar por conta de fatores hereditários, por isso, a avaliação diagnóstica e anamnese serem tão importantes no processo de identi cação e intervenção. 26 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Figura 7 - O TDAH Fonte: https://www.contrapauta.com.br/wp-content/uploads/2014/04/imagem-tdah.jpg Discutir sobre as inµuências ambientais é pertinente, apesar das diculdades de aprendizagem possuírem causas siológicas, como comenta Smith e Strick (2012) o ambiente em que a criança vive afeta diretamente a forma e o nível em que se apresentam seus décits na aprendizagem, por isso podemos indicar dentro das inµuências ambientais causas educacionais e causas familiares ou do ambiente doméstico. As causas educacionais das diculdades de aprendizagem devem ser estudadas pelo educador, visto que ele trabalha dia a dia com o aprendizado de seus alunos e necessita perceber se algo está comprometendo a aprendizagem dos mesmos. Se positivo, a raiz poderá estar relacionada às práticas pedagógicas desenvolvidas em sala de aula que tem levado este grupo de alunos ao fracasso escolar. resumo Nesta aula, estudamos que para se compreender a denição, causas e tipos de Di Comceitualizando Aprendizagem e Di culdade de Aprendizagem | UNIDADE 1 27 aprendizagem hoje concebidos pela escola e pela sociedade. Observamos que as Di culdades de Aprendizagem são Transtornos Especí cos da Aprendizagem com origem em dé cits no neurodesenvolvimento, caracterizados como disfunções no processo de aprender que podem ser a causa de prejuízos por toda a vida social e acadêmica do sujeito. Estudamos também, que as causas das Di culdades de Aprendizagem são motivo de grande discussão teórica no meio acadêmico, por isso é necessário seguir os paradigmas das entidades reconhecidas internacionalmente para que se busque organizar diagnósticos e intervenções, pois estudar sobre as causas das di culdades de aprendizagem é tentar revelar os segredos em que se dá o funcionamento da cognição e sua importância para o desenvolvimento infantil. atividades de aprendizagem 1. Discorra sobre qual a importância de compreender o conceito de aprendizagem antes de se tratar sobre as di culdades de aprendizagem. 2. De acordo com suas leituras, quais os prejuízos causados pelos Transtornos Especí cos de Aprendizagem? 3. Quais as principais causas das Di culdades de Aprendizagem? referências BARROS, Rubem et al. revista neuroeducação: vida longa ao seu cérebro. 2. ed. São Paulo: Editora Segmento, 2012. BOSSA, N. a psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. 28 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. política nacional de educação especial na perspectiva da educação Inclusiva. SEESP/MEC. Brasília, DF: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2008. CAMPOS, Dinah Martins de Souza. psicologia da aprendizagem. 40. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2013. CID – 10. Classiicação estatística internacional de doenças e problemas relacional à saúde. Décima revisão, OMS – Organização Mundial da Saúde, 2008. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2014. DUNKER, Christian Ingo Lenz and KYRILLOS NETO, Fuad. A crítica psicanalítica do DSM-IV: breve história do casamento psicopatológico entre psicanálise e psiquiatria. Rev. latinoam. psicopatol. fundam.[online]. 2011, v. 14, n. 4, p. 611-626. Disponível em: . Acesso em: 5 jan. 2015. GOMES, William B. História da psicologia: A Psicologia de Platão e Aristóteles. História da Psicologia. UFMG/FAFICH/D Psi. Minas Gerais, 2006. Disponível em: . Acesso em: 7 set. 2012. LIRA, Angela de Souza. Processos cognitivos e a metodologia centrada na inteligência do aluno. In:ENCONTRO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO DA FACULDADE SENAC, 6. anais...Pernambuco: Faculdade SENAC, 2012. LUCKASSON, R. et al. (2002). Mental retardion: denition, classication and systems of supports (10th ed.). Washington: American Association on Mental Retardation. MAIA, Heber (Org.). necessidades educacionais especiais. Coleção Neuroeducação, v. 3. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011. MAKISHIMA, E. A. C.; ZAMPRONI, E. C. B. transtornos funcionais especíicos. Secretaria de Estado da Educação. Superintendência de Estado da Educação. Departamento de Educação Especial e Inclusão Educacional. Paraná, 2012. Disponível em: . Acesso em: 30 set. 2014. Manual dIAGNÓSTICO E ESTATÍSTICO dE TRANSTORNOS MENTAIS. dSM-IV. Trad. Dayse Batista. 4. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. Comceitualizando Aprendizagem e Diiculdade de Aprendizagem | UNiDADE 1 29 Manual dIaGnÓstICo e estatÍstICo de transtornos MentaIS [recurso eletrônico]: dsM-5 / [American Psychiatric Association; tradução: Maria inês Corrêa Nascimento... et al.] ; revisão técnica: Aristides Volpato Cordioli ...[et al.]. 5. ed. – Dados eletrônicos. Porto Alegre: Artmed, 2014. NATiONAL JOiNT COMMiTTEE ON LEARNiNG DiSABiLiTiES. learning disabilities and Young Children: identiication and intervention. National Joint Committee on Learning Disabilities. [Technical Report] October, 2007. Disponível em: . Acesso em: 23 dez. 2014. NATiONAL JOiNT COMMiTTEE ON LEARNiNG DiSABiLiTiES. learning disabilities and Young Children: identiication and intervention. National Joint Committee on Learning Disabilities. [Technical Report] October, 2007. Disponível em: . Acesso em: 23 dez. 2014. OECD. understanding the Brain: Towards a New Learning Science. Published by: Organisation for Economic Co-Operation and Development Publishing, Publication date: 13 Sep 2002. Disponível em: . Acesso em: 7 set. 2012. ORiGEM DA PALAVRA. origem etimológica de diiculdades de aprendizagem. SiTE. Disponível em: . Acesso em: 10 dez. 2014. PORTO, Olívia. psicopedagogia Institucional: Teoria, prática e assessoramento psicopedagógico, Rio de Janeiro: Wak Ed., 2006. RELVAS, M. P. neurociência e educação. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2010. ______. neurociência e transtorno de aprendizagem: as múltiplas eiciências para uma educação inclusiva. 5. ed. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2011. ______. neurociência na prática pedagógica. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2012. SiSTO, F.F. Diiculdade de aprendizagem em escrita: instrumento de avaliação. (ADAPE). in: SiSTO, F. F.; BORUCKOViTCH, E.; FiNi, L. D; BRENELLi, R. P; MARTiNELLi, S. C.. diiculdades de aprendizagem no contexto psicopedagógico. Petrópolis: Editora Vozes, 2001. SMiTH, Corinne; STRiCK, Lisa. diiculdades de aprendizagem de a-Z: guia completo para educadores e pais. Porto Alegre: Penso, 2012.Principais causas das di culdades de Aprendizagem As di culdades de aprendizagem de ordem neurológicas podem ter origem a partir de uma lesão cerebral, falhas no desenvolvimento cerebral ou por desequilíbrio químico. As causas também podem estar ligadas a fatores hereditários e inµ uências ambientais, sejam elas de cunho familiar ou escolar. O DSM-5 (2014) indica a origem neurobiológica e o categoriza como um transtorno do neurodesenvolvimento o qual é à base das anormalidades no nível cognitivo e se associa as manifestações comportamentais. Caso o aluno tenha histórico de familiares (Figura 3) com di culdades de leitura (dislexia) e de alfabetização devemos estar atentos a possíveis problemas de alfabetização ou transtorno especí co da aprendizagem Figura 3 - Familiares, a hereditariedade é causa da maioria dos transtornos especí cos Fonte: https://www.a12.com/ les/media/originals/f1.png Para saber mais sobre o trabalho desenvolvido pelo Comitê Misto Nacional de Aprendizagem acesse ao site - Learning Disabilities on line disponível em: https:// www.ldonline.org/ Apesar da discussão terminológica, utilizarse-á como opção terminológica, o termo Di culdade para indicar os atrasos na aprendizagem e no uso de habilidades acadêmicas, como orientação para categorização optou-se pela concepção mais atual, no caso do DSM5 (2014). Acredita-se ainda que para além da discussão terminológica faz-se muito mais importante buscar saber as causas principais das di culdades de aprendizagem. 22 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Como enfatiza o DSM-5 (2014, p.68) “[...] a origem biológica inclui uma interação de fatores genéticos, epigenéticos e ambientais que inµ uenciam a capacidade do cérebro para perceber ou processar informações verbais ou não verbais com e ciência e exatidão” (ver Anexos). Algumas di culdades de aprendizagem são diretamente ligadas a lesões cerebrais, surgidas a partir de traumas cranianos, hemorragias cerebrais e tumores, febres altas e doenças como, encefalite e meningite. Existem, ainda, fatores relacionados à desnutrição, exposição a sustâncias tóxicas e, a tratamento com radiação e quimioterapia, falta de oxigênio e complicações antes ou durante o parto, doenças ou exposições a drogas durante a gravidez, sufocação, afogamento, inalação de fumaça, envenenamento por monóxido de carbono (SMITH; STRICK, 2012). Quanto às falhas no desenvolvimento cerebral que podem ocorrer durante a gravidez ou na primeira e segunda infância tem sido objeto de estudo de neurocientistas há muitos anos. A ênfase na causa neurológica (Figura 4) ocorre não apenas pelo início das pesquisas sobre o comportamento cerebral da criança com desordem no aprendizado ter sido de origem cientí ca, mas também pelo êxito na união dos estudos dos neurocientistas e educadores, apesar de haver dúvidas e questões sobre o modo em que a aprendizagem é processada no cérebro das pessoas que sofreram ou sofrem alterações no ato de aprender. Muitas pesquisas realizadas pela neurociência têm proporcionado, à vida de muitas pessoas, novos modos de aprender. Figura 4 - O cérebro da pessoa com di culdades de aprendizagem por ter diferentes áreas afetadas Fonte: https://www.nerdweek.com.br/wp-content/uploads/2011/10/cerebro2.png para saber mais sobre as causas das di culdades de Aprendizagem acesse: Instituto ABCd - https://www. institutoabcd.org.br/ portal/ Comceitualizando Aprendizagem e Di culdade de Aprendizagem | UNIDADE 1 23 Porém, entre os estudos dos neurocientistas e educadores, ainda há muitas dúvidas e questões sobre o modo em que a aprendizagem é processada no cérebro das pessoas com alterações nas funções cognitivas, isto é que são consideradas com di culdade de aprendizagem. A cognição é a capacidade para armazenar, transformar e aplicar o conhecimento, sendo um amplo leque de processos mentais. Através da natureza da cognição que o sujeito compreende os processos e produtos mentais superiores. Ela é um processo formado por um sistema complexo de componentes (LIRA, 2012). A palavra cognição do latim cognitione, signi ca ação de adquirir, absorver conhecimento, é apresentada por Platão e Aristóteles quando de nem as diferenças entre psicologia e loso a e estudam as questões relativas ao intelecto. Para Platão o intelecto estava na alma e para Aristóteles, o intelecto surgia da relação entre a alma e o corpo (GOMES, 2006). O intelecto ligado à capacidade humana de conhecer, de acumular o conhecimento e processar as informações apresenta a cognição como o processo mental em si, caracterizado por suas funções, denominadas funções cognitivas, são elas: memória, atenção, percepção, juízo, imaginação, pensamento e linguagem, representação de conhecimento, raciocínio, criatividade e resolução de problemas (Figura 5). Figura 5 - A cognição Fonte: https://i.ytimg.com/vi/kIOEHrm0iYc/maxresdefault.jpg A cognição é ato ou processo de conhecer, que inclui estados mentais e processos como pensar, a atenção, o raciocínio, a memória, o juízo, a imaginação, o pensamento, o discurso, a percepção visual e audível, a aprendizagem, a consciência, as emoções. 24 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO É este processo mental que possibilita o intelecto entender as situações desde as mais simples até aquelas que requerem atividades cerebrais elaboradas, e cabe a Psicologia Cognitiva o estudo da cognição e de suas funções cognitivas. Os fatores das diculdades de aprendizagem por desequilíbrio químico estão ligados às irregularidades nos cérebros, mais precisamente nos neurotransmissores (Figura 6), quando há uma falha nessas conexões há a prescrição de medicações para que o desequilíbrio químico seja reorganizado. Figura 6 - Falhas nas conexões dos neurotransmissores causam prejuízos na área da compreensão Fonte: https://i.ytimg.com/vi/kIOEHrm0iYc/maxresdefault.jpg A cada novo estímulo que chega ao cérebro, novas conexões são formadas neste complexo sistema de informações que são armazenadas uma a uma. Durante a aprendizagem os sujeitos passam por uma transformação e se tornam um novo sujeito. Visto que a aprendizagem é um processo pelo qual as competências, habilidades, conhecimentos, comportamento ou valores do sujeito são adquiridos ou modicados de acordo com as experiências vividas por ele, sejam resultadas do seu estudo, formação, do raciocínio ou da observação de uma situação. Segundo o cientista japonês Hideaki Koizumi, o aprendizado é “um processo pela qual o cérebro reage aos estímulos ao fazer conexões neurais, que agem como um circuito para o processamento e armazenamento das informações” (BARROS, 2012, p. 10). Comceitualizando Aprendizagem e Di culdade de Aprendizagem | UNIDADE 1 25 Na visão neurobiológica, durante a aprendizagem quando a área cortical é ativada, direcionada por um estímulo, outras áreas poderão sofrer alterações, visto que o cérebro possui inúmeras vias de associações, organizadas e que atuam em duas direções, mais que podem sair ou não da sustância cinzenta, chegando até a substância branca, quando for o caso de feixes longos que se direcionam de um lobo a outro, dentro do mesmo hemisfério, criando assim conexões intra-hemisféricas. Existem ainda os feixes comissurais, que direcionam atividade de um hemisfério para outro, sendo o corpo caloso o principal desses condutores. As funções nervosas superiores desempenhadas pelo córtex cerebral apresentam associações recíprocas entre as diversas áreas corticais, tornando assim seguras a chegada de impulsos sensitivos, sua decodi cação e associação, até a atividade motora de resposta (RELVAS, 2010). Este processo de aquisição de novas informações que cam arquivados na memória, chamado de aprendizagem, em que o cérebro reage aos estímulos do ambiente ativando as sinapses, é caracterizado por ser um processo no qual se adquire novos conhecimentos. Porém, quando há falta nas intensidades das sinapses ou há alterações de circuitos que processam informações com capacidade de armazenamento molecular tem-se uma disfunção da rede neuronal, que leva o sujeito aprendiz a apresentar di culdades especí cas no funcionamento cognitivo e no comportamento adaptativo. Se este sujeito apresenta estas alterações desde a infância, isso signi ca que ele passa por um processo de disfunção cerebral (neurônio), que pode ocorrer de forma localizada, ou difusa e ainda causada por conexões anormais. Essas alterações são observadas exteriormente a partir das di culdades que o sujeito irá apresentar em situações que requerem o seu raciocínio lógico, na resolução de problemas, em atividades ligadas à memória, atenção, identi cação do “eu”, atividades sensoriais, perceptivas, uso das funções executivas, do pensamento, da linguagem, da interpretação etc. Os fatores hereditários das di culdades de aprendizagem (Figura 7) têm sido con rmados por pesquisadores desde a década de 1980. Estas pesquisas a rmam que fatores hereditários têm função determinante em crianças com di culdades de aprendizagem, principalmente no caso de crianças com transtorno de dé cit de Atenção e Hiperatividade/ TdAH (SMITH, STRICK, 2012). O TDAH é um exemplo de transtorno do neurodesenvolvimento que pode se apresentar por conta de fatores hereditários, por isso, a avaliação diagnóstica e anamnese serem tão importantes no processo de identi cação e intervenção. 26 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO Figura 7 - O TDAH Fonte: https://www.contrapauta.com.br/wp-content/uploads/2014/04/imagem-tdah.jpg Discutir sobre as inµuências ambientais é pertinente, apesar das diculdades de aprendizagem possuírem causas siológicas, como comenta Smith e Strick (2012) o ambiente em que a criança vive afeta diretamente a forma e o nível em que se apresentam seus décits na aprendizagem, por isso podemos indicar dentro das inµuências ambientais causas educacionais e causas familiares ou do ambiente doméstico. As causas educacionais das diculdades de aprendizagem devem ser estudadas pelo educador, visto que ele trabalha dia a dia com o aprendizado de seus alunos e necessita perceber se algo está comprometendo a aprendizagem dos mesmos. Se positivo, a raiz poderá estar relacionada às práticas pedagógicas desenvolvidas em sala de aula que tem levado este grupo de alunos ao fracasso escolar. resumo Nesta aula, estudamos que para se compreender a denição, causas e tipos de Di Comceitualizando Aprendizagem e Di culdade de Aprendizagem | UNIDADE 1 27 aprendizagem hoje concebidos pela escola e pela sociedade. Observamos que as Di culdades de Aprendizagem são Transtornos Especí cos da Aprendizagem com origem em dé cits no neurodesenvolvimento, caracterizados como disfunções no processo de aprender que podem ser a causa de prejuízos por toda a vida social e acadêmica do sujeito. Estudamos também, que as causas das Di culdades de Aprendizagem são motivo de grande discussão teórica no meio acadêmico, por isso é necessário seguir os paradigmas das entidades reconhecidas internacionalmente para que se busque organizar diagnósticos e intervenções, pois estudar sobre as causas das di culdades de aprendizagem é tentar revelar os segredos em que se dá o funcionamento da cognição e sua importância para o desenvolvimento infantil. atividades de aprendizagem 1. Discorra sobre qual a importância de compreender o conceito de aprendizagem antes de se tratar sobre as di culdades de aprendizagem. 2. De acordo com suas leituras, quais os prejuízos causados pelos Transtornos Especí cos de Aprendizagem? 3. Quais as principais causas das Di culdades de Aprendizagem? referências BARROS, Rubem et al. revista neuroeducação: vida longa ao seu cérebro. 2. ed. São Paulo: Editora Segmento, 2012. BOSSA, N. a psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. 28 ESPECIALIZAÇÃO EM PSICOLOGIA DA EDUCAÇÃO BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. política nacional de educação especial na perspectiva da educação Inclusiva. SEESP/MEC. Brasília, DF: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Especial, 2008. CAMPOS, Dinah Martins de Souza. psicologia da aprendizagem. 40. ed. Petrópolis: Editora Vozes, 2013. CID – 10. Classiicação estatística internacional de doenças e problemas relacional à saúde. Décima revisão, OMS – Organização Mundial da Saúde, 2008. Disponível em: . Acesso em: 20 dez. 2014. DUNKER, Christian Ingo Lenz and KYRILLOS NETO, Fuad. A crítica psicanalítica do DSM-IV: breve história do casamento psicopatológico entre psicanálise e psiquiatria. Rev. latinoam. psicopatol. fundam.[online]. 2011, v. 14, n. 4, p. 611-626. Disponível em: . Acesso em: 5 jan. 2015. GOMES, William B. História da psicologia: A Psicologia de Platão e Aristóteles. História da Psicologia. 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