A alma é eterna

19/10/2013 15:03


Eben Alexander, neurocirurgião norte-americano, vive experiência de quase morte, revê seus conceitos de vida e acredita que a Ciência precisa amadurecer, evoluir e ampliar suas fronteiras


 

 
 
Foto: Andrea Lira
 

A convivência harmoniosa entre a Ciência e a espiritualidade sempre foi alvo de eternas e controversas discussões. Os mais céticos afirmam que não se pode misturar essas duas áreas de pensamento e atuação; outros estudiosos defendem que uma pode colaborar com a outra, no sentido de se obter uma visão mais ampla da vida e seus diversos aspectos.

O neurocirurgião norte-americano Eben Alexander III é um desses últimos e vem sacudindo os alicerces do universo científico. Em sua trajetória, o médico se notabilizou por ser um ferrenho defensor da lógica racional, mas viu suas certezas ruírem ao passar uma semana em coma profundo e ter uma experiência de quase morte.

Em 2008, após contrair um tipo grave de meningite bacteriana, ficou em coma. Apesar do tratamento intensivo, à base de potentes antibióticos, ele não demonstrava sinais de melhora. Dia após dia, as chances de sair vivo diminuíam. A meningite causada pela bactéria E.coli é raríssima em adultos e, na maioria dos casos, fatal. Eben conta que, enquanto seu corpo era destruído pela doença, ele acordou num mundo completamente estranho, povoado por seres celestiais sem ter consciência da própria identidade. Inúmeras pessoas alegam ter passado por experiências de quase morte, embora os cientistas garantam que são apenas ilusões produzidas pelo cérebro exposto a situações extremas. O que faz desse caso extraordinário é que o protagonista, desta vez, é um integrante da comunidade científica, um cético convicto.

Alexander despertou do coma sozinho, quando os médicos cogitavam suspender seu tratamento. As descobertas que ele fez em sua viagem fora do corpo o levaram a acreditar que a morte não é o fim da existência. Antigamente, eu jamais usaria a palavra espiritual no meio de uma conversa científica. Hoje, acho que não podemos deixá-la de fora", conta.

Com o objetivo de propagar sua experiência, o neurocirurgião resolveu escrever o livro Uma prova do céu - A jornada de um neurocirurgião à vida após a morte, lançado no Brasil pela Editora Sextante.

Desde sua publicação nos Estados Unidos, em outubro de 2012, mais de um milhão de exemplares já foram impressos.

Eben Alexander III é neurocirurgião há mais de 25 anos, dos quais 15 trabalhando no Brigham & Women's Hospital, no Children's Hospital e na Harvard Medical School, em Boston. Ao longo de sua carreira acadêmica, publicou mais de 150 artigos e participou de mais de 200 congressos.

Confira a entrevista exclusiva à revista Psique.

Eu fui o maior dos céticos por vários meses, mesmo após o meu coma, e tentei com diversos colegas explicar a minha odisseia como um fenômeno baseado no cérebro. Tudo em vão

SEU PERFIL ERA DE QUEM ACREDITAVA QUE AS EXPERIÊNCIAS DE QUASE MORTE NADA MAIS ERAM DO QUE UM SUBPRODUTO DO QUE ACONTECE COM OS SERES HUMANOS NO MEIO DE UM TRAUMA. ESSA NÃO PODE SER UMA BOA JUSTIFICATIVA PARA EXPLICAR O QUE OCORREU COM O SENHOR? COMO PODE TER ABSOLUTA CONVICÇÃO DE QUE EXISTEM RAZÕES CIENTÍFICAS PARA CRER NA CONSCIÊNCIA APÓS A MORTE, QUE A MORTE NÃO É O FIM DA EXISTÊNCIA?
EBEN ALEXANDER III - 
Eu fui o maior dos céticos por vários meses, mesmo após o meu coma, e tentei com diversos colegas explicar a minha odisseia como um fenômeno baseado no cérebro (brain-based phenomenon). Tudo em vão. Uma meningite bacteriana tão grave, que me colocou em um coma profundo em poucas horas, erradica qualquer prova de funcionamento do cérebro humano (isto é, a função do neocórtex, a superfície externa do cérebro, que é crucial para a nossa elaboração detalhada da consciência) no primeiro dia e nos próximos cinco dias, quando a minha jornada ao coma profundo ocorreu. A minha experiência mostrou, claramente, que a consciência é enriquecida quando liberada do cérebro, assim como quando morremos. Todos nós podemos vislumbrar isso, por meio da meditação profunda e da oração. Duas entidades clínicas que acreditam nessa visão são a "lucidez terminal", que ocorre quando pacientes idosos, com demência, muitas vezes se tornam mais claros em seus pensamentos e veem as almas dos entes queridos falecidos vindo recepcioná- los no momento de sua morte física, e a síndrome da "sabedoria adquirida", quando um trauma cerebral desencadeia talentos excepcionais no funcionamento da mente humana, como uma extraordinária habilidade para calcular ou incomum lembrança visual. O nosso conceito convencional de "o cérebro cria a mente" é ignorante ao tentar explicar essas observações comuns. A Ciência materialista reducionista (que defende que tudo pode ser explicado pela compreensão da Física das partículas subatômicas e suas interações, das resultantes físicas, químicas e biológicas - que isso é tudo o que existe - e que não há necessidade de consciência, alma, espírito, Deus) é muito simplista. Aqueles que acreditam nisso são viciados numa natureza simplista, para que eles possam entender, e são seduzidos a pensar que estão perto de uma "teoria de tudo". Eles ignoram o fato de que essa explicação realizada no nível do jardim de infância não oferece nenhuma pista sobre um possível mecanismo pelo qual o cérebro físico pode "criar consciência", o chamado Hard Problem of Consciousness. Muitos grandes pensadores reconhecem que o Hard Problemé um dos questionamentos mais incômodos de toda a humanidade. A consciência é o grande "elefante branco da história", que os cientistas convencionais ignoram e torcem para que ninguém note. Já é hora de a Ciência amadurecer e assumir que a natureza é muito mais intimidante do que presumem. Alguns resultados científicos já sugerem que a consciência é um mistério muito mais profundo do que o conceito da Neurociência convencional simplista, de que "o cérebro cria a mente". É tudo uma questão de chegar cada vez mais perto da verdade.

VOCÊ DISSE UMA VEZ QUE O CÉREBRO É UM MECANISMO ESPANTOSAMENTE SOFISTICADO, MAS EXTREMAMENTE DELICADO. REDUZIR A QUANTIDADE DE OXIGÊNIO QUE ELE RECEBE VAI ORIGINAR UMA REAÇÃO. POR ISSO, NÃO ERA NENHUMA GRANDE SURPRESA QUANDO AS PESSOAS QUE PASSARAM POR TRAUMA GRAVE RETORNAVAM DE SUAS EXPERIÊNCIAS COM HISTÓRIAS ESTRANHAS. CONTUDO, ISSO NÃO SIGNIFICAVA QUE ELAS TINHAM, REALMENTE, VIAJADO A QUALQUER LUGAR REAL. O QUE MUDOU NESTA ANÁLISE DEPOIS DE SUA EXPERIÊNCIA?
ALEXANDER - 
O meu neocórtex não estava preparado para trabalhar. Nenhuma alucinação ou sonho rico em detalhes poderia ter surgido no meu cérebro, durante os dias em que tudo deve ter acontecido, por causa da natureza grave da minha meningite. Qualquer médico que tenha cuidado de pacientes nesse estado vai concordar. Era tudo tão real, porque realmente ocorreu, em um lugar muito mais essencial do que esse daqui, fora do meu cérebro, fora de todo o universo físico.

PARA VOCÊ, NÃO HÁ EXPLICAÇÃO CIENTÍFICA PARA O FATO DE QUE, ENQUANTO SEU CORPO ESTAVA EM COMA, SUA MENTE, SEU CONSCIENTE INTERIOR ESTAVA VIVO E BEM, POIS SUA CONSCIÊNCIA ESTAVA LIVRE E VIAJANDO PARA OUTRA DIMENSÃO MAIOR DO QUE O UNIVERSO, UMA DIMENSÃO NUNCA SONHADA ANTES POR VOCÊ. SOMANDO TUDO O QUE ESTUDOU E CONHECEU PROFISSIONALMENTE AO LONGO DE SUA TRAJETÓRIA AO QUE OCORREU EM SUA EXPERIÊNCIA, DEVE-SE ACREDITAR QUE ALGUM DIA SERÁ POSSÍVEL PROVAR CIENTIFICAMENTE A TESE DA EXISTÊNCIA DE UMA NOVA VIDA APÓS A MORTE, CONHECENDO MELHOR O CÉREBRO?
ALEXANDER - 
A Ciência pode ir muito mais longe para elucidar essas verdades. Nós podemos estudar o fenômeno da consciência não local mais extensivamente, mas isso implicará em estudar muito mais do que o cérebro. O fato de que a Ciência reducionista materialista não tem nada para explicar sobre o mecanismo da consciência decorrente do cérebro físico, nada para falar sobre uma infi nidade de fenômenos da consciência não local, representa que compreender plenamente esses fenômenos exige mentes mais abertas do que a da Ciência materialista convencional hoje. A evidência de que a nossa alma é eterna é muito forte. Já é tempo de a Ciência amadurecer. O site www.eternea.org tem como proposta esclarecer a Física da consciência (ver a parte Frontier Science) e as várias formas das Experiências Espirituais Transformadoras (em que as experiências de quase morte são apenas um tipo), servindo como um banco de dados em que milhões de pessoas podem contar a própria história e ajudar a mostrar como a consciência e a oração podem se manifestar com relação aos desdobramentos da realidade daqui.

 

Minha experiência mostrou que a consciência é enriquecida quando liberada do cérebro, assim como quando morremos. Todos podemos vislumbrar isso, por meio da meditação profunda e da oração
 

COMO UM FORTE DEFENSOR DA LÓGICA CIENTÍFICA NO PASSADO, VIU TODAS AS SUAS CERTEZAS CIENTÍFICAS RUÍREM, DEPOIS DE ACORDAR DO COMA PROFUNDO? ENFRENTOU MUITAS DIFICULDADES EM CONFRONTAR SUAS CRENÇAS ANTIGAS EM RELAÇÃO ÀS NOVAS?
ALEXANDER -
 A minha jornada me forçou a repensar tudo em que eu acreditava ser verdade. Posso dizer que foi uma experiência tão extraordinária de despertar da consciência que continuará para o resto da minha vida (e mais um pouco!). Demorei mais de três anos e meio para produzir o livro, algumas vezes ficando acordado até duas horas da manhã para escrever. Eu estava obcecado por encontrar respostas. O meu manuscrito foi feito para eu mesmo tentar entender tudo o que aconteceu e tinha um tamanho três vezes maior do que o livro que foi lançado. Quando percebi que estava escrevendo aquilo para outras pessoas, tive que cortar boa parte do texto, porque o material estava muito difícil para as pessoas com pouco ou nenhum conhecimento científico. Entretanto, pretendo incluir esse conteúdo num próximo livro.

EM SUA AVALIAÇÃO, ATÉ ONDE O QUE JÁ SE SABIA A RESPEITO DO CÉREBRO DEVE SER DESCARTADO, UMA VEZ QUE HÁ NECESSIDADE DE UMA NOVA COMPREENSÃO DE SEU FUNCIONAMENTO, A PARTIR DA VIRTUAL EXISTÊNCIA DE UMA NOVA VIDA APÓS A MORTE?
ALEXANDER -
 A Ciência tem que ampliar, significativamente, as suas fronteiras para compreender plenamente o profundo mistério da consciência e definir melhor a intercessão da consciência com a realidade física. O estudo neurocientífico do cérebro ainda é muito importante, mas existem vários domínios da experiência e da memória que mesmo o profundo conhecimento do cérebro físico não vai responder. Muitas das respostas mais profundas estão fora da "Ciência do cérebro".

COMO OBSERVOU A REAÇÃO DA COMUNIDADE CIENTÍFICA, ATÉ MESMO DE SEUS AMIGOS PROFISSIONAIS, NO QUE SE REFERE A SUA EXPERIÊNCIA DE QUASE MORTE E SUAS NOVAS OPINIÕES SOBRE A RELAÇÃO DO CÉREBRO COM A FINITUDE DA VIDA HUMANA?
ALEXANDER -
 Quanto mais meus amigos e colegas de profissão sabem sobre a consciência e o enigma da mecânica quântica, mais eles estão preparados para entrar no time dos que entendem as lições da minha jornada.

NÃO TEME SER TACHADO DE UM EX-CIENTISTA CONVERTIDO EM RELIGIOSO, DEPOIS DA RECUPERAÇÃO DE UMA GRAVE DOENÇA, OU ACHA QUE JÁ DEIXOU CLARO, INCLUSIVE EM SEU LIVRO, QUE CIÊNCIA E ESPIRITUALIDADE PODEM COEXISTIR?
ALEXANDER-
 Não! Se você considerar a Ciência como algo que busca a verdade sobre a nossa existência, eu estou mais cientista do que nunca. A Ciência materialista convencional é absolutamente muda sobre a natureza fundamental da consciência, que é um grande sinal vermelho quanto às suas inadequações na tentativa de explicar a nossa existência.

TODOS SABEMOS, ATÉ MESMO OS RELIGIOSOS MENOS FUNDAMENTALISTAS, QUE A FIGURA DO CÉU COMO O LOCAL PARA ONDE SE VAI APÓS A MORTE É UMA METÁFORA. EM SUA EXPERIÊNCIA, VOCÊ RELATA VISÕES DE NUVENS GRANDES NUM CÉU AZUL, BANDOS DE SERES BRILHANTES, FEITO ANJOS, CANTOS CELESTIAIS. COMO PODE TER CERTEZA DE QUE ISSO NÃO FOI, APENAS, A MANIFESTAÇÃO DE UM REFLEXO DO QUE FOI INTROJETADO EM NOSSA MENTE DURANTE SÉCULOS PELA IGREJA, QUE VEIO À TONA FRUTO DE UM CÉREBRO DOENTE? SEU CÉREBRO NÃO PODE TER SIDO ILUDIDO OU SUGESTIONADO PELO SUBCONSCIENTE?
ALEXANDER - 
A meningite bacteriana grave talvez seja o modelo mais perfeito de morte humana, qualquer médico familiarizado com pacientes com essa doença e com a extremidade que o meu caso alcançou, irá dizer que ela raramente permitira a sobrevivência. E nunca permitiria uma recuperação total do funcionamento mental, como aconteceu comigo. Um "presente" da minha doença, durante o coma, foi eliminar todas as minhas memórias de antes do coma - todos os meus conhecimentos sobre línguas, memórias pessoais e conhecimentos sobre os humanos, sobre a Terra e sobre esse universo - me permitindo ter uma tela branca para pintar um novo entendimento sobre a natureza da nossa existência. Nenhum dos meus preconceitos humanos, pelo menos a partir da experiência pessoal da vida de Eben Alexander antes do coma, foi autorizado a sobreviver ao ataque feroz do que deveria ter sido, por todos da perícia médica, uma doença totalmente letal e irrecuperável. As seis camadas celulares do neocórtex são a calculadora neural mais poderosa do cérebro e, de acordo com a Neurociência moderna, fundamentais na construção detalhada momento a momento da experiência consciente. Não havia restado nenhum lugar no meu cérebro para tais delírios, dada a surra voraz que o meu neocórtex sofreu com uma meningite gram-negativa. O maior erro que os céticos cometem, ao tentar explicar as EQMs, é deixar de investigar as surpreendentes semelhanças nas histórias de quem passou por isso, em toda a literatura sobre vida após a morte e nos relatos de místicos religiosos e profetas ao longo de milhares de anos. Eu vejo esse reino, portal que eu descrevo no livro (o idílico vale com muitas características semelhantes à Terra) mais como o mundo das formas de Platão, descrito em sua alegoria da caverna - uma esfera ideal, em que grande parte do nosso mundo tenebroso, imperfeito se baseia. É bem parecido com os casos relatados por mais da metade das EQMs, parece muito mais vibrante e ultrarreal do que o nosso terreno, reino material. A consciência transcende a morte corporal. A lição fundamental da minha experiência extraordinária é que a própria consciência é o aspecto mais profundo e eterno de toda a existência - o cérebro não cria a consciência, mas, na verdade, serve como uma válvula redutora, ou fi ltro, que limita a consciência abundante que chegamos a conhecer entre as vidas (ou durante quase morte, ou outras experiências espiritualmente transformadoras, ou por meio de uma prática prolongada de meditação profunda).

Foto: Andrea Lira

Qualquer médico que tenha cuidado de pacientes nesse estado vai concordar. Era tudo tão real, porque realmente ocorreu, em um lugar mais essencial do que aqui, fora do universo físico

VOCÊ AFIRMA QUE, DURANTE A DOENÇA, SEU NEOCÓRTEX (PARTE DO CÉREBRO RESPONSÁVEL PELA CONSCIÊNCIA E PELOS PENSAMENTOS) ESTAVA DESTRUÍDO. PORTANTO, NÃO ERA CAPAZ DE CRIAR ILUSÕES. É POSSÍVEL DIZER, ENTÃO, QUE A OUTRA PARTE DO CÉREBRO, QUE NÃO FOI AFETADA, NÃO TEM RESPONSABILIDADE DETERMINANTE NA DEFINIÇÃO DO SER HUMANO? E SE SEU NEOCÓRTEX ESTAVA MESMO DESTRUÍDO, COMO VOLTOU AO NORMAL?
ALEXANDER -
 Correto. As lembranças ricas em detalhes, que tive logo depois de despertar do coma, foram além das minhas capacidades atuais, inclusive, mesmo com um cérebro totalmente funcional. E a clareza das informações ia muito além das capacidades de um cérebro letalmente destruído, como os meus médicos descreveram durante os seis primeiros dias que fiquei em coma.

VOCÊ NÃO É A PRIMEIRA PESSOA A DIZER QUE A CONSCIÊNCIA EXISTE PARA ALÉM DO CORPO. NA VERDADE, ESSA IDEIA É OUVIDA DESDE O INÍCIO DA HISTÓRIA HUMANA. NO ENTANTO, GARANTE QUE NINGUÉM, ANTES, HAVIA VIAJADO PARA ESSA DIMENSÃO, ENQUANTO O CÓRTEX CEREBRAL ESTAVA COMPLETAMENTE FECHADO E O CORPO ESTAVA SOB OBSERVAÇÃO MÉDICA MINUTO A MINUTO. SEGUINDO SUA LINHA DE RACIOCÍNIO, VOCÊ PROTAGONIZOU O PRIMEIRO CASO DA MEDICINA QUE SE TEM REGISTRO COM ESSAS CARACTERÍSTICAS?
ALEXANDER - 
Existem milhares de relatos similares de experiências de quase morte, mais notáveis ainda por suas semelhanças com histórias de místicos religiosos e profetas de muitos anos atrás. É possível encontrar várias histórias recentes de EQMs, que resultaram em uma inexplicável cura, como o meu caso, e o da Anita Moorjani, que revelou sua experiência no maravilhoso livro Dying to be me (acho que o livro ainda não foi lançado no Brasil). Os meus médicos e os seus consultores em vários hospitais, Massachusetts General Hospital/Harvard Medical School, Duke University Medical Center, University of Virginia Medical School, Wake Forest Baptist Medical Center, não foram capazes de identifi car qualquer outro caso similar ao meu, que terminasse em uma recuperação neurológica total. Nenhum médico familiarizado com casos desse tipo e informado sufi cientemente sobre a gravidade e a duração da minha doença iria dizer que a minha recuperação foi algo menos do que um "milagre médico". Nenhum deles acreditaria que eu seria capaz de juntar duas ou três palavras, muito menos de escrever um livro que está movimentando os quatro cantos do mundo.

 

DURANTE O MONITORAMENTO DE SEU CÉREBRO, NO PERÍODO DO COMA, OS MÉDICOS NÃO DETECTARAM NENHUMA ATIVIDADE QUE PUDESSE SUGERIR SEU FUNCIONAMENTO, MESMO QUE DE FORMA PRECÁRIA?
ALEXANDER 
- Só puderam detectar uma mínima atividade neocortical algumas horas após eu entrar em coma e, posteriormente, entre o primeiro e o sexto dia do meu coma, não havia mais nenhuma evidência de qualquer função neocortical, com atividade cerebral significativa, como movimentos anormais dos olhos e respostas pupilares. A tomografia computadorizada e a ressonância magnética evidenciaram uma meningoencefalite, que afetava todos os lobos do meu cérebro. Não houve teste de "morte cerebral", mas, com base nos meus registros médicos, provavelmente era um estado bem próximo a isso. Na manhã do meu sétimo dia de coma, a equipe médica me deu de 2 a 3% de chances de sobrevivência (tinha sido 10% quando eu cheguei à emergência), mas nenhuma chance de recuperação. Todos os médicos familiarizados com pacientes com essa doença iriam confirmar isso. Como uma regra, eles não voltam com ricas memórias de uma jornada extraordinária e não têm uma recuperação total da função neurológica.

AO FINAL DOS SETE DIAS, SEU DIAGNÓSTICO ERA DESANIMADOR. VOCÊ ESTAVA PRATICAMENTE DESENGANADO E OS MÉDICOS, INCLUSIVE, PENSAVAM EM INTERROMPER O TRATAMENTO. ATÉ QUE ACORDOU SOZINHO, DEPOIS DESSE PERÍODO. CONSIDERA QUE SUA CURA FOI FÍSICA OU ESPIRITUAL? CASO TENHA SIDO ESPIRITUAL, COMO O CÉREBRO SE COMPORTOU DIANTE DESSE CENÁRIO?
ALEXANDER 
- Não há uma explicação médica para a minha cura e total recuperação. O principal componente da minha cura foi espiritual. No meu livro, eu conto que, por oito anos, fui uma pessoa que não acreditava em nada. Portanto, tenho convicção de que a crença não é um pré-requisito para uma cura espiritual tão poderosa e milagrosa. Embora agora eu recomende acreditar de verdade no poder do amor de Deus para evitar a dor indevida, o sofrimento e a confusão sobre a nossa verdadeira natureza. Eu voltei para este mundo por conta do meu amor por Bond, meu filho de 10 anos, que me implorou para voltar no meu sétimo dia de coma (afirmo isso mesmo sabendo que o meu cérebro estava tão destruído naquele momento que eu não era capaz de reconhecer o seu rosto ou compreender as palavras de seus pedidos).

A minha jornada me forçou a repensar tudo em que eu acreditava. Foi uma experiência tão extraordinária de despertar da consciência que continuará para o resto da minha vida (e mais um pouco!)

O PSICÓLOGO, PSIQUIATRA E PARAPSICÓLOGO NORTE-AMERICANO RAYMOND MOODY, UM DOS PRINCIPAIS ESPECIALISTAS NO TEMA VIDA APÓS A MORTE, AFIRMOU QUE SUA EXPERIÊNCIA É A MAIS ESPANTOSA QUE ELE CONHECEU, TENDO SIDO, DE ALGUMA MANEIRA, DIVINAMENTE ORDENADA. COMO AVALIA ESSA OPINIÃO E PODE COMENTAR ANÁLISES COMUNS ENTRE AS SUAS E AS DELE?
ALEXANDER -
 O doutor Moody, o pai dos estudos sobre experiências de quase morte, é um tanto cético, no sentido mais verdadeiro que essa palavra possa ter. Ele quer conhecer a verdade. Mas, apesar de mais de 40 anos estudando milhares de EQMs, foi depois de conhecer o meu caso que ele, finalmente, admitiu que as EQMs oferecem a prova da eternidade da nossa alma, que a vida após a morte é real. O fato se deu por eu ter sofrido com uma prolongada meningite grave, que não permitiria qualquer perspectiva de recuperação e, até mesmo, algum tipo de experiência rica da consciência. Isso determinou que a minha experiência era real, e não uma alucinação, sonho ou confabulação do meu cérebro. Não é à toa que tantas pessoas nas comunidades médicas e científicas estejam discutindo o meu caso, que, definitivamente, acrescenta uma enorme validade para o estudo da EQM e das lições que elas trazem para o mundo sobre a nossa existência.

EVIDENTEMENTE QUE VOCÊ CONTINUA SENDO UM NEUROCIRURGIÃO. EM QUE MUDOU SUA ATIVIDADE PROFISSIONAL E QUAIS OS PRÓXIMOS PASSOS QUE PRETENDE DESENVOLVER PARA DESCOBRIR MAIS ASPECTOS DESSA NOVA VISÃO DA VIDA?
ALEXANDER -
 Depois que eu percebi a verdadeira força da minha odisseia, e as lições que ela me deixou, decidi que deveria compartilhar os ensinamentos e as histórias o máximo que pudesse. Atualmente, a minha vida está dedicada a isso, a ajudar as pessoas a enxergar a bela visão da natureza da nossa existência, com muito mais significado e propósito. Eu também sou o cofundador da ETERNEA (eternea.org), com o John Audette, que também fundou a Associação Internacional para Estudos de Quase Morte, junto com o dr. Raymond Moody e outros médicos, em meados dos anos 70. A criação da ETERNEA foi inspirada na minha EQM e é um tesouro virtual cheio de informações factuais sobre pesquisas de ponta e histórias de pessoas de diversos países, que eu acredito que podem mudar a forma como enxergamos a nós mesmos, o mundo e as nossas crenças sobre o propósito e o significado da vida. A sua missão é educar e dividir com o público pontos importantes sobre as Experiências Espirituais Transformadoras, como as EQMs, com o objetivo de trazer à tona, discutir e expandir o conhecimento sobre o assunto. A nossa expectativa é que funcione, também, como um banco de dados para pesquisas, já que as pessoas podem contar suas experiências individuais.